Um bom princípio de conversa

Tzvetan TodorovNum registo meio pedagógico meio trocista, dizia-me há tempo um colega que «iluminismo não é palavrão». Não posso estar mais de acordo com o aviso. A afirmação cega e desgovernada do relativismo radical, associada à ideia completamente estúpida segundo a qual a tradição cultural do ocidente é estruturalmente pobre, impura e nociva, tem levado muita gente honesta mas por vezes mal informada a ignorar o papel historicamente emancipatório da filosofia das Luzes, desconsiderando os seus princípios basilares. Noutra direcção, vozes vindas dos sectores mais retrógrados do pensamento contemporâneo chegam, como o fez o papa João Paulo II, a julgá-lo responsável pela edificação das «ideologias do mal», do nazismo e do comunismo em particular, que deixaram no século XX o seu rastro negro. Pior, olham-no como instrumento fundador de um conceito de liberdade, tolerância e democracia que pretendem pôr em causa. Já Tzvetan Todorov vê futuro nos três princípios que, em L’Esprit des Lumières, de 2006, considera condensarem o valor funcional da corrente: 1) a valorização da autonomia do indivíduo face à intervenção dos poderes; 2) a deslocação do humano para um lugar central na interpretação do mundo; 3) a aceitação da dimensão universal de valores e sociabilidades que concorrem com a diferença cultural. Qualquer um destes princípios pode ter no BI o seu lugar de nascimento, mas transcende-o obrigatoriamente. Todorov reconhece assim a presença dos traços essenciais do iluminismo em tradições culturais originárias da Índia, da China ou do mundo islâmico. Não se trata, pois, apenas de uma mania europeia.

É este sentido valorizador da filosofia das Luzes que, de outra forma, declara também o historiador Zeev Sternehell em artigo saído no Le Monde Diplomatique. Falando da corrente anti-iluminista actualmente em voga, considera-a basicamente apoiada na ideia de que «o indivíduo não faz sentido a não ser quando mergulhado na comunidade, existindo no particular concreto e não num universal abstracto». É pois a «questão identitária» que está por detrás da crítica radical da ideia iluminista, lançada como se tudo na vida fosse inequivocamente uno, branco ou preto, água ou vinho, e não inevitavelmente compósito, multicor. Como se nas matérias de história, de cultura, de língua e até de religião o uno e claramente «identificável» devesse sempre sobrepor-se ao múltiplo e tantas vezes indistinguível. Como se o que separa deva ser colocado à frente daquilo que une. Ou, se não une, pelo menos permite tecer redes de liberdade e de compreensão. Sternehell entende que «a defesa do universalismo e do racionalismo», contra as identidades agressivas e o retorno do obscurantismo de origem religiosa, «permanecem hoje como uma tarefa urgente e complexa, à medida de todos os desafios». Nesta direcção, propõe uma adaptação programática às novas realidades de um dos sonhos dos iluministas mais radicais: a construção de um mundo melhor porque composto por cidadãos autónomos. Vivendo em comunidade, aceitando a diferença, mas principalmente pensando pela própria cabeça. É verdade que não existe um iluminismo asséptico, puro, total – como lembrava Philippe Corcuff há dias na Contretemps – que seja capaz de transportar consigo a chave da felicidade e do entendimento, mas aquele que a História nos doou pode ser um bom princípio de conversa.

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