Os poderes da história (e dos historiadores)

Escultura de Gyula Pauer em Budapeste

Nota de leitura da autoria de Julián Casanova, publicada na Babelia de 17 /9/2016, da recém-saída edição em castelhano de The History Manifesto, de Jo Guldi e David Armitage, originalmente publicado em 2014. A edição original, em inglês, revista em 2015, está disponível gratuitamente aqui: http://historymanifesto.cambridge.org/files/6114/1227/7857/historymanifesto.pdf

«Um espectro ronda a nossa época: o espectro do curto prazo». Assim começa o manifesto pela história de Jo Guidi e David Armitage. Neste momento de crise acelerada, quando enfrentamos problemas gigantescos, verifica-se, segundo estes historiadores, uma escassez de «pensamento a longo prazo». Os políticos não olham para além das próximas eleições e a mesma estreiteza de visão afeta as administrações das grandes empresas e os líderes das instituições internacionais.

Houve um tempo em que os historiadores ofereciam relatos em grande escala, olhavam para trás para ver para a frente, intervinham na política e proporcionavam orientações para situar a história como um roteiro. Assim o fizeram, desde os começos do século XX até às suas décadas centrais, autores como R. H. Tawney, o casal Beatrice e Sidney Webb, Eric J. Hobsbawm, E. P. Thompson ou Fernand Braudel, o historiador que em 1958 inventou a longue durée.

Desde há varias décadas, porém, a maioria dos historiadores começou a abandonar essa longa duração como horizonte temporal para a investigação e a escrita. A vontade de dominar os arquivos e o dever de reunir e de analisar detalhes cada vez mais precisos levou os historiadores profissionais a um «curtoprazismo», a contrair o tempo e o espaço nos seus trabalhos, cedendo a tarefa de sintetizar o conhecimento, de séculos e milénios, a «autores não qualificados para tal», especialmente aos economistas que idealizavam o livre mercado. Desapareceu assim a antiga finalidade da história de servir de guia da vida pública. E a longue durée, que tanto havia permitido, definhou, salvo entre os que se dedicaram à sociologia da história e os investigadores dos grandes sistemas mundiais.

Além disso, essa concentração em escalas temporais de curto alcance dominou a formação universitária nas escolas universitárias de história. Aos estudantes ensinava-se a restringir o campo de estudos, e quando os doutorados se começaram a multiplicar, atender ao detalhe e rastrear novos arquivos converteu-se na sua carta de apresentação para obter um trabalho na profissão. O resultado foi a produção de monografias históricas de extraordinária complexidade, que ninguém lê fora do círculo profissional, e um interesse extremo pela especialização, «para saber cada vez mais sobre cada vez menos». E quando a história e as humanidades foram desaparecendo do «domínio público», tornou-se mais fácil o alastramento público de mitos e de relatos falsos sobre o triunfo do capitalismo, e de soluções simplistas para grandes problemas, diante das quais poucos podiam falar com autoridade.

Porém, nem tudo se encontrará perdido. Guidi e Armitage vislumbram, não obstante, sinais de que o longo prazo e o «grande alcance» têm vindo a renascer, um retorno da longue durée e da «história profunda», um conhecimento do modo como se desenrolou o passado ao longo dos séculos e as orientações que esse conhecimento pode proporcionar-nos para a sobrevivência e para a preparação do futuro. Para fazer face aos desafios que colocam os grandes temas da atualidade, como as alterações climáticas, os sistemas de governo e a desigualdade, o nosso mundo precisa de recuperar a informação sobre a relação entre o passado e o futuro. E é precisamente aí que a história pode ter um papel crucial.

A solução reside em superar a perda de visão panorâmica, em devolver a his­tória à sua missão de «ciência social crítica», em escrever e falar do passado e do futuro em público, em imaginar novas formas de relato e de escrita que possam ser lidas, compreendidas e assumidas pelos profanos, fundindo o «micro» com o «macro», o melhor do trabalho de arquivo com o olho crítico para abordar o estudo da longa duração.

Esta é uma proposta aberta para fazer, investigar e escrever história na era digi­tal, para retirar da sua estreiteza de horizonte «aos cidadãos, aos responsáveis políticos e aos poderosos». Um guia para aqueles que se perguntam para que servem a história e os historiadores, para navegar pelo século XXI. Existem muitos caminhos possíveis, é certo. Aquele que propõem Guldi e Armitage é o de colocar questões a longo prazo, pensar o passado com o objetivo de preparar o futuro. Explicar as raízes das instituições, ideias, valores e problemas atuais. E fazê-lo de tal forma que todos o entendam.

Julián Casanova [trad. Rui Bebiano]
imagem: Escultura de Gyula Pauer. Danúbio, Budapeste

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