Pascal e a Transcendência
da Condição Humana
Pedro Maciel
Blaise Pascal (1623-1662) está inserido na história
da ciência como um dos mais notáveis estudiosos de matemática
e física. Precoce, aos 12 anos, Pascal escreve um tratado sobre “Acústica”
e descobre a geometria até trigésima segunda proposição
de Euclides. Aos 17, escreve o “Tratado dos Cones” e, aos 19
anos, descobre a prensa hidráulica. No ano seguinte, inventa a primeira
calculadora, a “máquina de aritmética”, para ajudar
o seu pai no trabalho. Em 1646 reproduz, com Pierre Petit, a experiência
de Torriceli e faz experiências sobre o vácuo. É também
conhecido como o precursor do cálculo infinitesimal.
Mas
o livro “Pensamentos” é o seu trabalho mais genial, uma
das obras-primas da literatura francesa. Pascal, admirador de Galileu e
idealizador do primeiro sistema de ônibus parisiense, tenta justificar
a fé pela razão. Deste livro é a célebre frase:
“O coração tem razões que a razão desconhece”.
O autor de “As Provinciais”, obra condenada por Roma em 1657,
era militante do jansenismo, doutrina que pregava o rigor moral, e, por
isso, manteve uma acirrada polêmica com os jesuítas.
“Pensamentos” é um conjunto
de notas e rascunhos que deveria servir para a redação da
“Apologia do Cristianismo”. Os escritos inacabados foram iniciados
por volta de 1657 e só foram recuperados oito anos após sua
morte em Port Royal. Ao escrever “Pensamentos”, Pascal não
renega os seus interesses científicos, ao contrário, lança
mão de um método lógico para explicar a fé e
as exigências transcendentes da condição humana.
Segundo Gérard Lebrun, a originalidade
do método adotado por Pascal surpreende, porque é um “método
formado e testado ao nível das ciências exatas”. Lébrun,
no livro “Blaise Pascal, Voltas, desvios e Reviravoltas”, Ed.
Brasiliense (1983), relê o pensamento de Pascal e aponta os erros
dos interpretadores em relação à obra do autor francês
do século 17, interpretadores dos “falsos sentidos”,
que não viram o “Pascal Moderno, no coração da
idade clássica”, com seu “deus morto”. “E
daí se seguiram todos os falsos sentidos. E nesse pensamento, que
não é mais do que um circuito na beira dos abismos, só
viram piedoso fervor”, diz Lébrun. “Ao
ler esses pensamentos fragmentados, temos de entender que estamos diante
do grandioso e do provisório. Temos de ser capazes de ver, nos textos
incompletos, nas frases interrompidas, na miscelânea dos assuntos,
na brevidade das fórmulas, na desordem das citações,
a mais profunda meditação que já se fez sobre as tensões
que definem as relações entre o homem e a transcendência
que o supera pelo terror, pelo temor e pela piedade. Se é inegável
que o centro das preocupações de Pascal é a religião,
afinal o objeto do livro que pretendia escrever, também é
certo que a amplitude de sua reflexão atinge a dimensão da
existência humana nos seus mais recônditos e difíceis
aspectos, razão pela qual esses fragmentos falam a todos os seres
humanos, que partilhem ou não a crença que inspirou Pascal”,
anota Franklin Leopoldo e Silva no esclarecedor prefácio.
Pascal, ao fazer a apologia cristã,
revela muito mais o saber universal e o conhecimento do que os fundamentos
da religião. A verdade na língua do pensador é relativa:
“Todos erram tanto e mais perigosamente quando seguem cada um uma
verdade; o seu erro não está em seguirem uma falsidade, mas
em não seguirem outra verdade”. Pascal defende que “quando
não se sabe a verdade de uma coisa, é bom que haja um erro
comum que fixe o espírito do homem...” “Pensamentos”
é um exercício extraordinário sobre a razão
humana. Discurso fundamental para compreender o homem e a sua relação
com Deus. Filosofia do espírito. Conversa dos deuses cartesianos?
“Cada um forja um deus para si”. Experimentação
do pensamento moderno: “Ao escrever o meu pensamento, ele me escapa
às vezes, mas isso me faz lembrar da minha fraqueza de que me esqueço
a toda hora, o que me instrui tanto quanto o meu pensamento esquecido, pois
só busco conhecer o meu nada”. Um pensamento que deixa perplexo
qualquer pensador.

“Pensamentos”, de
Pascal; 47 (172)
Nunca ficamos no tempo presente. Lembramos o passado; antecipamos o
futuro como lento demais para chegar, como para apressar o seu curso, ou
nos lembramos do passado para fazê-lo parar como demasiado rápido,
tão imprudentes que erramos por tempos que não são
nossos e não pensamos no único que nos pertence, e tão
levianos que pensamos naqueles que nada são e escapamos, sem refletir,
do único que subsiste. É que, em geral, o presente nos fere.
Escondemo-lo de nossas vistas porque nos aflige e, se ele nos é agradável,
lamentamos que nos escape. Buscamos mantê-lo mediante o futuro e pensamos
em dispor as coisas que não estão em nosso poder por um tempo
ao qual não temos a menor certeza de chegarmos.
Examine cada um os seus pensamentos. Vai encontrá-los a todos ocupados
com o passado ou com o futuro. Quase não pensamos no presente, e
se nele pensamos é somente para nele buscar a luz para dispormos
do futuro. O presente nunca é o nosso fim.
O passado e o presente são os nossos meios, só o futuro é
o nosso fim. Assim não vivemos nunca, mas esperamos viver e, sempre
nos dispondo a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.
12-04-2003

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