2 de Setembro de 2010

Uma crise planetária da educação

Partes de um texto de reflexão crítica sobre a educação dirigida para o crescimento económico que subalterniza as humanidades e as artes. Publicado no TLS e reproduzido no Courrier Internacional (trad. de Ana Cardoso Pires). A autora é a filósofa e professora universitária norte-americana Martha Nussbaum.

Martha Nussbaum

Courrier Internacional, ed. portuguesa – No. 175, Setembro de 2010

Atravessamos actualmente uma crise de grande amplitude e de grande envergadura internacional. Não falo da crise económica mundial iniciada em 2008; falo da que, apesar de passar despercebida, se arrisca a ser muito mais pre­judicial para o futuro da democracia: a crise planetária da educação.

Estão a produzir -se profundas alterações naquilo que as sociedades democráticas ensinam aos jovens e ainda não lhe afe­rimos o alcance. Ávidos de sucesso económico, os países e os seus sistemas educati­vos renunciam imprudentemente a competências que são indispensáveis à sobrevivência das democracias. Se esta tendência persistir, em breve vão produzir-se pelo mundo inteiro gerações de máquinas úteis, dóceis e tecnicamente qualificadas, em vez de cidadãos realizados, capazes de pensar por si próprios, de pôr em causa a tradição e de compreender o sentido do sofrimento e das realizações dos outros.

De que alterações estamos a falar? As Humanidades e as Artes perdem terreno sem cessar, tanto no ensino primário e secundário como na universidade, em quase todos os países do mundo. Considera­das pelos políticos acessórios inúteis, nu­ma época em que os países têm de desfazer – se do supérfluo para continuarem a ser competitivos no mercado mundial, estas disciplinas desaparecem em grande ve­locidade dos programas lectivos, mas também do espírito e do coração dos pais e das crianças Aquilo a que poderíamos chamar os aspectos humanistas da ciência e das ciências sociais está igualmente em retrocesso, preferindo os países o lucro de curto prazo, através de competências úteis e altamente aplicadas, adaptadas a esse objectivo.

Procuramos bens que nos protegem, satisfazem e consolam — aquilo a que [o escritor c pensador indiano] Rabindranath Tagore chamava o nosso «invólucro» material. Mas parecemos esquecer as faculdades de pensamento e imaginação que fazem de nós humanos e das nossas interacções relações empáticas e não simplesmente utilitárias Quando estabelecemos contactos sociais, se não aprendermos a ver no outro um outro nos, imagi­nando-lhe faculdades internas de pensa­mento e emoção, então a democracia é vo­tada ao malogro, porque assenta precisamente no respeito e na atenção dedicados ao outro, sentimentos que pressupõem que os encaremos como seres humanos e não como simples objectos.

(continuar a ler…)


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7 de Agosto de 2010

Recordando Tony Judt

Tony Judt

Afectado desde 2008 pelo mal de Gehrig, uma doença neurodegenerativa incurável que enfrentou com grande coragem, Tony Judt morreu hoje aos 62 anos. Foi um dos grandes historiadores da contemporaneidade. É, e permanecerá, um dos meus favoritos, cuja leitura tenho recomendado repetidamente em aulas e intervenções como ferramenta de conhecimento e exemplo do modo como a interpretação do passado nos pode ajudar a armar a cidadania. Se tivesse de o associar forçosamente a um campo do saber, classificá-lo-ia como historiador das ideias e dos intelectuais, habitante desse território da História, hoje relativamente pouco povoado mas essencial, que estuda de forma sistemática a expressão, a preservação e a mudança dos modos de representar o mundo no domínio do pensamento individual e das convicções partilhadas.

Em Portugal foram traduzidos dois livros de Judt, ambos por iniciativa das Edições 70: Pós-Guerra. História da Europa desde 1945 (Postwar. A History of Europe Since 1945, de 2005) e O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias (Reappraisals. Reflections on the Forgotten Twentieth Century, de 2008). Se o primeiro é um relato exaustivo e monumental das transformações operadas no Velho Continente, e na sua relação com o resto do mundo, desde o final da Segunda Guerra Mundial até à actualidade, o segundo integra uma colectânea de escritos – inicialmente editados em publicações como a New York Review of Books – que projecta um esforço pessoal de regresso a formas de pensamento e de activismo social que têm sido esquecidas, desarmando o presente para um debate público substantivo e empurrando para o esquecimento temas tão centrais no trajecto humano como os desafios do mal, as sequelas da Guerra Fria ou a memória do marxismo. Estão por traduzir – e aqui fica a sugestão – outros três livros essenciais para compreender a intervenção do historiador inglês: Past Imperfect: French Intellectuals, 1944-1956 (1992), The Burden of Responsability. Blum, Camus, Aron and the French Twentieth Century (1998), e Ill Fares the Land, de 2010, este, já na impossibilidade de escrever, ditado por Judt, e que funciona como uma espécie de testamento político. Construído, como sempre, sob a perspectiva de quem observa o mundo como um continuum em perpétuo movimento, no qual passado, presente e futuro participam de um mesmo corpo.

Em O Século XX Esquecido, Judt escreveu: «o que o passado pode realmente ajudar-nos a compreender é a complexidade das perguntas». Uma sugestão que nos ajudará a retirar a História dessa teia de pseudo-certezas que apenas tem contribuído para lhe diminuir o interesse público, transformando-a tantas vezes nesse território rançoso no qual repousa um passado que serve apenas para contemplar ou para comemorar. História viva, como Judt nos ajudou a perceber, é obrigatoriamente, e sempre, questionamento a partir do presente. Num movimento de vaivém que é, justamente, aquele que a devolve à vida.


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23 de Julho de 2010

Linguagens e Heterodoxias

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Encerrou nesta 6ª Feira, 23 de Julho, a 1ª fase das candidaturas ao Curso de 3ª Ciclo (Doutoramento) em Linguagens e Heterodoxias: História, Poética e Práticas Sociais. Um curso de natureza inter- e transdisciplinar oferecido pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e pelo Centro de Estudos Sociais – Laboratório Associado. Informação mais completa pode ser encontrada aqui. Decorrerá uma 2ª fase de candidaturas entre os dias 13 e 17 de Setembro.


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6 de Julho de 2010

Arte e espionagem

Olga com Albrecht Schoenhals

Antony Beevor tem articulado sempre a solidez de investigação histórica com uma capacidade narrativa fluida e atraente. É este, aliás, um dos motivos do êxito de obras tão merecidamente reconhecidas como Paris Após a Libertação (escrito a meias com a mulher, Artemis Cooper), Estalinegrado, A Queda de Berlim, A Guerra Civil de Espanha e o mais recente Dia D. Saído em 2004, este O Mistério de Olga Tchekova não foge à regra, embora possa, graças em parte ao título escolhido, ser tomado pelo leitor mais distraído como obra de ficção. Na verdade, o escritor e historiador britânico oferece-nos aqui um magnífico fresco, sedutor mas sempre bem documentado, no qual se entrelaçam a história da União Soviética e a da Alemanha durante as décadas que decorreram entre as vésperas da tomada do poder pelos bolcheviques e o avanço do Exército Vermelho sobre Berlim.

Dois irmãos de ascendência russo-alemã, sobrinhos de Anton Tchekov, são as personagens nucleares, em redor das quais se desenha a trama intensa e dramática dos grandes acontecimentos do tempo, mostrando ao leitor o modo como as duas grandes experiências totalitárias do século passado partilharam importantes momentos de uma história com muito de comum. Olga Tchekova (1897-1980), instalada a partir de 1920 na Alemanha, teve aí um percurso fulgurante como actriz de cinema, tornando-se, logo após a tomada do poder pelos nazis, próxima de Hitler e de Goebbels, e mesmo um ícone do regime. O seu irmão, Lev Knipper (1898-1974), foi um antigo guarda branco arrependido que construiu uma notável reputação como compositor durante as décadas de afirmação do realismo socialista e se tornou agente especial do NKVD, com um papel provavelmente decisivo no recrutamento de Olga como «agente adormecido» dos soviéticos em plena capital do Reich. O epicentro dos acontecimentos narrados situa-se, no entanto, na União Soviética, a partir da relação da família Knipper-Tchekov com os episódios da revolução russa e da guerra civil que se lhe seguiu, com o alastramento incontrolável do terror estalinista e com a invasão nazi, sendo a «conexão alemã» uma consequência destes.

O recurso à «pequena história» e ao testemunho individual, comum nos livros de Beevor, é determinante para assegurar o interesse deste livro, permitindo ao autor contornar o pesado muro de silêncios e de omissões que foi arquitectado pelo sistema de informação soviético em redor das actividades subterrâneas de Olga e de Lev. Esta valia é ainda reforçada pelo facto de ambos pertencerem a uma destacada família da antiga intelligentsia russa, que usufruíra de um prestígio considerável durante as últimas décadas do czarismo e por isso deveria, em condições normais, ter sido varrida no decurso da revolução ou do violento processo de «construção do socialismo» Pode assim observar-se de que forma uma parte deste importante mas vulnerável sector social conseguiu sobreviver – sem dúvida através de laboriosos processos de adaptação ou de dissimulação – aos longos anos da autocracia estalinista e aos pesados constrangimentos por esta impostos aos intelectuais soviéticos. [Antony Beevor, O Mistério de Olga Tchekova. Trad. de Rita Guerra. Bertrand Editora, 280 págs. Publicado previamente na revista LER.]


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2 de Julho de 2010

Cura de modéstia

Albert Camus

Releio pedaços de Actuelles, a compilação de textos políticos quase todos eles escritos por Albert Camus para o jornal da Resistência Combat – que tenho numa reimpressão velhinha e amarelenta da Gallimard –, e dou de caras com um passo surgido numa crónica de Fevereiro de 1947: «A democracia não se separa da noção de partido, mas a noção de partido pode passar muito bem sem a democracia. Tal acontece quando um grupo de homens imagina deter a verdade absoluta. Eis a razão pela qual a Assembleia e os deputados têm hoje necessidade de uma cura de modéstia». Gosto da ideia – uma cura de modéstia – porque vejo esta qualidade, tomada no sentido de decência, de despretensão, de clareza, como esquecida, abandonada, sistematicamente trocada pela bazófia, pela arrogância, por uma guerra de absolutas certezas que tende a distanciar as democracias de quem as legitima e de quem elas devem servir.


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28 de Junho de 2010

A Biblioteca e a petição

No dia 8 de Junho a direcção da Biblioteca Nacional de Portugal anunciou o encerramento, já a partir de Novembro e por quase um ano, dos serviços de Leitura Geral. Os Reservados fecharão por cerca de 5 meses. Anunciada desta forma, sem aviso prévio e por tanto tempo, a decisão traduzir-se-á em prejuízos incalculáveis para os investigadores e os estudantes, para quem aquele espaço é imprescindível uma vez que dele depende o andamento dos trabalhos com prazo-limite que têm em mãos. Uma petição a correr online pede que se reconsidere o plano de transferência, no sentido de se atrasar o encerramento da Biblioteca para depois de Junho de 2011 e de se fasearem os trabalhos de modo a reduzir o tempo de encerramento integral. Pode conhecê-la e assiná-la aqui.


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12 de Junho de 2010

Teorias da conspiração

I spy

As teorias da conspiração interferem nos processos de mudança histórica com uma força muitas vezes idêntica à dos acontecimentos. Imputam uma intenção deliberada a algo que, no fundo, é mais provável que tenha sido acidental ou involuntário, nascendo e multiplicando-se a um ritmo e com uma profundidade que não param de aumentar e que são hoje particularmente estimulados pelo cinema, pela televisão e pela Internet. São múltiplos os factores que explicam o seu poder: o facto de serem teorias que se não apresentam como meras conjecturas, mostrando-se antes como enunciados de factos aparentemente indesmentíveis; inscreverem-se recorrentemente numa genealogia de casos semelhantes, numa linha de continuidade que parece dotá-los de um sentido meta-histórico; «fundarem-se» em testemunhos de figuras notáveis ou de «peritos», encontrando sempre alguém capaz de lhes conferir uma suposta autoridade académica; e denunciarem sempre conjuras de uma minoria ou «verdades inconvenientes», o que é meio caminho andado para se obter reconhecimento popular. Como produtos da imaginação colectiva, elas não são nocivas em si mesmo, mas podem conduzir a escolhas funestas ou servir de perigosa ilusão.

No recente Mentiras da História identificam-se algumas das mais influentes e recordam-se outras também bastante populares, embora mais inofensivas. De entre as primeiras destacam-se as que advêm da divulgação dos apócrifos Protocolos dos Sábios do Sião, cruciais no alastramento do anti-semitismo, da trama de documentação forjada que sob Estaline alimentou os criminosos Processos de Moscovo, do complexo de boatos e de suspeitas que na América do pós-Segunda Grande Guerra produziu o pânico anticomunista e serviu de munição ao mccarthismo, e das interpretações delirantes construídas a propósito do 11 de Setembro de 2001. Das mais populares emergem as especulações construídas e largamente divulgadas em redor de episódios tão distintos como a morte de John Kennedy, de Marilyn Monroe e da princesa Diana, o ataque a Pearl Harbour ou as actividades da Opus Dei grotescamente «identificadas» na trama do Código Da Vinci. Temas que alimentam indústrias inteiras e nutrem milhões de mentes prontas a deixar-se envolver pelo primeiro conto do vigário que lhes surja pela frente. [David Aaronovitch, Mentiras da História. Trad. de Artur Lopes Cardoso. Temas & Debates – Círculo de Leitores, 456 págs.]


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13 de Dezembro de 2009

Contra a banalização

ww2

A Segunda Guerra Mundial deverá ser o acontecimento do século XX sobre o qual um maior número de títulos se encontra publicado. O septuagésimo aniversário da invasão alemã da Polónia veio ampliar ainda mais esta realidade, justificando a reedição deste livro de Martin Gilbert, publicado pela primeira vez em 1989. Vinte anos entretanto transcorridos não lhe diminuíram o interesse, ajudando até a colocá-la numa dimensão peculiar que na altura não poderia ter. Desde logo porque nos anos oitenta os ecos sobreviventes da crítica historiográfica da «história-batalha» faziam com que a dimensão bélica do passado fosse ainda desvalorizada como excessivamente dependente de uma metodologia escrava dos factos. Mas também porque, por essa época, os impulsos revisionistas e negacionistas que têm procurado atenuar a dimensão apocalíptica da devastação material da guerra e do Holocausto ainda não se mostravam tão patentes nem tinham o impacto público que ultimamente têm colhido.

Ambos os aspectos podem agora ser observados de forma mais completa recorrendo precisamente a esta obra. Com efeito, em mais de 1000 páginas, ela projecta uma perspectiva única de uma história mil vezes contada. Trata-se de um exemplo acabado de história narrativa, que nos relata os acontecimentos, dia após dia, por vezes hora a hora, num esforço impressionante para produzir uma descrição que não deixe escapar episódio algum, a menor operação militar, que tivesse sido relevante para a eclosão, a continuação ou o desenlace da Guerra. Mas ao mesmo tempo fá-lo recorrendo à intrusão na narrativa de pequenos acontecimentos, de palavras e de gestos individuais, que ajudam a dar do conjunto uma visão vívida e constantemente humanizada.

A ausência de processos claramente contextualizantes e interpretativos pode, naturalmente, ser questionada. Foi essa a escolha de Gilbert, um historiador profissional, politicamente conservador, que em regra prefere que os factos falem por si. Ela destaca a componente descritiva, parecendo evitar o facciosismo. Mas não o consegue justamente porque, como qualquer historiador, Gilbert introduz opções que traduzem parcialidade. Por um lado, a denúncia dos crimes do nazismo é uma constante, o que certas vezes o leva a omitir o reconhecimento dos excessos cometidos, ainda que noutra escala, pelas forças aliadas. Por outro, ao recusar relevância aos acontecimentos ocorridos dentro do próprio território alemão – se exceptuarmos a descrição detalhada da «Operação Valquíria» e as informações sobre os espaços concentracionários do Holocausto – e ao ignorar praticamente o contributo da Itália fascista para o desafio agressivo do Eixo, acaba por olhar de um ângulo ainda algo limitado uma história que se pretende completa. No entanto, nada que fira de morte o trabalho monumental levado a cabo e a grande valia documental de uma obra como esta. Imprescindível para impedir que a Segunda Guerra Mundial se transforme, com tanto lugar-comum a seu respeito que tem sido publicado por estes dias, num episódio irrelevante ou passível de ser facilmente manipulado.

Martin Gilbert, A Segunda Guerra Mundial. Trad. de Ana Luísa Faria e Miguel Serras Pereira. D. Quixote, 1012 págs. [Publicado na LER de Novembro]


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29 de Setembro de 2009

Uma nova servidão

Computadores

«The government is to stop funding “pointless” university research, forcing academics to prove that their academic inquiry has some relevance to the real world, funding chiefs will announce today.

Universities will have to show that their research influences the economy, public policy or society in order to secure the biggest research grants, the government’s funding body for higher education said.»

De acordo com um artigo publicado no Guardian, do qual retirei os dois parágrafos anteriores, os planos do governo britânico para o financiamento da investigação – e o custeamento das próprias universidades – deverão rapidamente excluir a pesquisa pura, considerada perdulária, supérflua e até risível. A outra, a «útil», aquela «que serve para alguma coisa», será, presume-se, superintendida por gestores, aplicados amanuenses, software avançadíssimo e laboriosos gabinetes de marketing. Arrumada num mundo perfeito, inspeccionado, sem desperdício.

Ainda não se chegou tão longe por cá, mas sabendo-se como os burocratas domésticos aprendem depressa, e conhecendo-se alguns indicadores espalhados já por regulamentos conhecidos dos centros de investigação e das universidades, não surpreenderá ninguém se em breve habitarmos idêntica paisagem siberiana. E se, pouco tempo depois, alguém nos vier propor que a imaginação exibida em público passe a pagar imposto. Até que num dia não muito distante, se tudo correr bem aos polícias do conhecimento e nos formos conservando quietos, distraídos e veneradores, estudar pelo insano prazer de saber, ou adiantar ideias contrárias à «paz social» por serem absurdamente criativas, serão considerados crimes. Castigando-se os criminosos com trabalhos forçados em «projectos de conhecimento relevante». A ver se aprendem, esses inúteis.


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12 de Julho de 2009

A leitura ameaçada

Leituras

Nicholas G. Carr, o autor de The Big Switch, aponta para uma viragem que não é ilusória: «A Internet diminui aparentemente a minha capacidade de concentração e de reflexão. O meu espírito reconhece agora as informações de acordo com a forma como a Internet as distribui: como um fluxo de partículas que escorre rapidamente. Antes eu era um mergulhador num mar de palavras; agora rasgo a superfície como um piloto de jet-ski.» Carr serve-se dos avanços das neurociências relacionados com a plasticidade do sistema nervoso para sustentar que os circuitos neuronais se adaptam facilmente a uma leitura rápida, sublinhando como este aumento de velocidade está a reprogramar biologicamente o nosso cérebro. Quando, ainda nos anos 60, Marshall McLuhan anunciou o fim da «galáxia de Gutenberg», da preponderância do paradigma tipográfico, o cenário era já previsível para os mais sagazes.

Mas foi a criação e sobretudo a generalização da Internet que suscitou um confronto inevitável entre o antigo modelo da leitura lenta – silenciosa, reflexiva, essencialmente individual –, e um outro, fundado agora na velocidade, no ruído, no movimento e na partilha. E também na simbiose com outros processos de comunicação. Os resultados de um inquérito recente reportaram que cerca de 80% dos adolescentes americanos é incapaz de se concentrar na leitura sem a presença de música ou de um qualquer ruído de fundo, ou sem imagens a dançarem num ecrã algures debaixo do seu ângulo de visão.

Um dos problemas que a situação transporta consigo não está no reconhecimento de uma mudança radical nas formas de percepção e nos estilos de vida, uma vez que esta é incontornável e de certa forma inevitável. Está antes nos sectores que ainda têm peso no controlo do saber e da comunicação, e a observam «entendendo» que o processo é passageiro e esperando, quixotescamente, que ele possa um dia recuar. O resultado é uma clivagem brutal entre universos e linguagens que em breve os tornarão incompatíveis, projectando cenários para um novo estado de barbárie.

A realidade é particularmente dramática no campo do ensino superior, em particular no das humanidades, no qual o paradigma gutenberguiano, essencialmente livresco e baseado ainda, demasiadas vezes, no arquétipo do sábio humanista encerrado no seu gabinete, permanece dominante, tanto ao nível pedagógico como nos critérios de aferição científica, em termos de orientação e de reconhecimento dos trabalhos académicos, privilegiando-se claramente nas avaliações curriculares o modelo anterior. Continua ainda a considerar-se, em muitas ocasiões, que existe uma «leitura de distracção», inferior, a qual pode de facto transcender a comunicação em papel, e uma «leitura de informação», sem dúvida superior, que dos livros, ou pelo menos dos escritos em formato tradicional, se serve como suporte praticamente exclusivo.

Existe porém um outro modelo de leitura. Este implica uma hibridez de instrumentos cognitivos, de formas de saber e até de códigos de validação. E a construção sistemática de pontes entre processos e atitudes. Ele não supõe a diluição do conhecimento superior no saber comum, mas tão só o reconhecimento de que existe também um património de experiências, de dados e de saberes em relação ao qual as estratégias da investigação, da partilha e da comunicação terão de ser mais abertas. Estas devem em larga medida ser reinventadas, para que os vestígios do anterior paradigma possam sobreviver e não sejam apagados pelas gerações que estão a chegar – apetrechadas já das grandes alterações ao nível dos mecanismos de percepção – e o olham como qualquer coisa de caduco ou mesmo de incompreensível. No diálogo homónimo atribuído a Platão, Fedro, o jovem interlocutor de Sócrates, percorre distraído um texto em papiro no preciso momento em que o filósofo disserta, amargurado, acerca dos inconvenientes e dos perigos da escrita. É este corte entre dois mundos, tão absoluto quanto absurdo, que seria bom conseguirmos evitar.


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15 de Junho de 2009

A leste e ainda mais a leste

Homem Novo

Da responsabilidade de Jean-François Soulet, um especialista em história comparada do mundo comunista, a História da Europa de Leste da Segunda Guerra Mundial aos nossos dias desenha uma síntese do trajecto da metade oriental do «velho continente» desde a invasão da Polónia pelos nazis até à adesão dos países de toda a região à União Europeia. Divide-se em três partes repartidas numa sequência temporal: na primeira delas, «a passagem ao comunismo», o autor ocupa-se principalmente da estratégia da União Soviética para aqueles territórios durante e imediatamente após a Segunda Guerra Mundial; na segunda, «o tempo do comunismo», descreve o processo de «sovietização» de toda a região, posto em prática com o apoio dos partidos comunistas locais, mas também alguns dos movimentos de revolta e dos actos de dissidência que contestaram essa influência; na terceira parte, «a derrocada do comunismo», parte da avalancha de contestação e queda, pós-1989, dos regimes ali implantados, para seguir os processos de democratização dos diferentes Estados, mas refere-se também aos demónios acordados pelo recuo da influência ideológica comunista e às situações, por vezes críticas e trágicas, entretanto vividas. Como escreveu João Tunes no blogue Água Lisa, «ler este livro completa-nos enquanto europeus», como cidadãos «de uma Europa feita de muitos povos, muitos dramas e traumas.» É uma boa síntese, que disfarça uma quase escandalosa lacuna temática na edição local de obras sobre a nossa história recente. [Trad. de Manuel Ruas. Teorema, 382 págs.]


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27 de Maio de 2009

Carvalho no seu labirinto

Montalbán

Gostei muito, como quase toda a gente, dos policiais de Manuel Vásquez Montalbán. E ainda gosto, se bem que já não me arrebatem como antes as esconsas ruas barcelonesas do Barrio Chino, a descrição pormenorizada de uma boa ensaimada, as receitas dos complexos petiscos que o detective privado Pepe Carvalho, ex-comunista e ex-agente da CIA («Yo también tuve mis ideas, pero ahora sólo me quedan una cuantas vísceras en muy buen uso»), consubstancia enquanto resolve casos singulares e confabula banalidades únicas com a puta Charo ou o inseparável Biscuter. Li-o principalmente nas sucessivas traduções da Caminho – salvo o Asesinato en el Comité Central, que comprei em trânsito e devorei certa noite de insónia num quarto de hotel – e talvez por isso tenha sentido a tentação de o revisitar ao encontrar a maior parte das suas aventuras em versões electrónicas disponíveis em castelhano. Essa língua de arestas que, apesar de catalão e de esquerda, Montalbán sempre insistiu em usar.


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