Armadilhas do PowerPoint

PowerPoint

Uma conversa recente leva-me de volta a um comentário que no passado mês de Fevereiro publiquei noutro lugar.

Fui e sou um utilizador prudente do PowerPoint. Pareceu-me desde o início um expediente útil mas potencialmente negativo, por simplificar aquilo que é complexo, por transformar com dois cliques o que é trama, o que é novelo, numa fórmula perfeita ou em rede de linhas demasiado regulares. O estilo de operação ao qual o seu utilizador recorre tem passado muitas vezes por «pedagógico» e é justamente aqui que se situa a fonte da minha desconfiança. Debati este tema há algumas semanas durante uma aula de mestrado e por um acaso – ou talvez não – dias depois encontrei na Visão uma entrevista com o jornalista francês Franck Frommer na qual este vem ao encontro das minhas dúvidas. A entrevista saiu a propósito do lançamento, pela La Découverte, de um livro de Frommer cujo título é todo um projecto: La pensée PowerPoint – Enquête sur ce logiciel qui rend stupide (O pensamento PowerPoint – Inquérito sobre este programa que estupidifica). O autor considera-o de facto um dispositivo perverso: «Dá a ilusão de criatividade, mas, ao mesmo tempo, é constrangedor. Pouco permite sair de um fio condutor linear e não favorece a interactividade. Parece muito ‘científico’ embora seja simplista. Como transforma toda a argumentação em listas de pontos, impede o debate. Inventa laços de causalidade artificiais.»

Algumas pessoas poderão dizer que isto é verdadeiro, mas que, em contrapartida, nas actividades da sala de aula ou durante uma conferência o recurso ao programa responde também às dificuldades de percepção dos alunos ou do público, podendo ainda, como um teleponto, ajudar o orador a ser mais claro, metódico e convincente. Existirá um grau de verdade nisto, sem dúvida. Mas podemos e devemos também colocar o problema ao contrário: não convidará a simplificação induzida pelo recurso sistemático a este dispositivo à preguiça de quem comunica e à passividade de quem ouve? não fará ela com que se vá perdendo o treino na percepção de formas complexas de pensamento e no desenvolvimento de uma capacidade retórica rica e sofisticada, integrando quem assiste num plácido e silencioso rebanho de carneiros? Sei que uma resposta cabal as estas perguntas não pode inferir-se de uma mera opinião individual, mas eu penso que sim. É quase sempre assim que acontece. E por isso vou continuar a usar o PowerPoint muito moderadamente, desligando o projector logo (ou sempre) que possível.

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Centro de Documentação 25 de Abril

Sou a partir de hoje o director do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra. Trata-se de um novo desafio que, apesar das circunstâncias difíceis nas quais vivemos – e às quais, naturalmente, as instituições universitárias não escapam –, assumo com motivação e empenho. Retomo um fragmento daquilo que sobre o Centro afirmei hoje durante a tomada de posse:

Ao contrário do que poderá pensar quem o não conheça bem, o Centro de Documentação 25 de Abril integra um dos mais importantes e diversificados arquivos nacionais para a história contemporânea de Portugal, em particular aquela que acompanha as últimas duas décadas da ditadura e as duas que sucederam à Revolução dos Cravos. Muitos milhares de livros, publicações periódicas, actas de reuniões decisivas, cartazes, panfletos, fotografias, autocolantes, textos diarísticos, depoimentos gravados em suporte áudio ou vídeo, agregam o testemunho vivo de um tempo próximo e de transformação que influencia poderosamente o presente que partilhamos. Não se trata pois de um lugar marcado pelo revivalismo e pela nostalgia, mas sim de um espaço vivo de conhecimento, de investigação e de projecção da história e dos fundamentos da cultura democrática em Portugal.

Linguagens e Heterodoxias

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Encerrou nesta 6ª Feira, 23 de Julho, a 1ª fase das candidaturas ao Curso de 3ª Ciclo (Doutoramento) em Linguagens e Heterodoxias: História, Poética e Práticas Sociais. Um curso de natureza inter- e transdisciplinar oferecido pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e pelo Centro de Estudos Sociais – Laboratório Associado. Informação mais completa pode ser encontrada aqui. Decorrerá uma 2ª fase de candidaturas entre os dias 13 e 17 de Setembro.

A Biblioteca e a petição

No dia 8 de Junho a direcção da Biblioteca Nacional de Portugal anunciou o encerramento, já a partir de Novembro e por quase um ano, dos serviços de Leitura Geral. Os Reservados fecharão por cerca de 5 meses. Anunciada desta forma, sem aviso prévio e por tanto tempo, a decisão traduzir-se-á em prejuízos incalculáveis para os investigadores e os estudantes, para quem aquele espaço é imprescindível uma vez que dele depende o andamento dos trabalhos com prazo-limite que têm em mãos. Uma petição a correr online pede que se reconsidere o plano de transferência, no sentido de se atrasar o encerramento da Biblioteca para depois de Junho de 2011 e de se fasearem os trabalhos de modo a reduzir o tempo de encerramento integral. Pode conhecê-la e assiná-la aqui.