O mundo compósito de M. M.

Marshall McLuhan

Numa crónica saída há dias no suplemento Atual, Pedro Mexia adiantava um conjunto de reflexões e de dados sobre a personalidade de Marshall McLuhan (1911-80) que eu desconhecia. Sobre como alguém reconhecido mundialmente, ao longo de décadas, ou pelo menos desde a publicação em 1962 da Galáxia de Gutenberg, como o profeta primevo e maior da tecnologia aplicada à comunicação eletrónica, era na verdade um homem «antigo, conservador, católico devoto, puritano, distante». Conheço de alguma forma este tipo de mal-entendido, determinado por quem tem dificuldade em aceitar a complexidade do humano, das escolhas e das formas de vida combinadas de um modo não linear ou imprevisível. Cedo comecei a interessar-me por computadores e pela sua interação em rede. Fui pedindo emprestados ou comprando revistas e manuais, fiz alguns cursos (no mais recuado, em 1976, ainda aprendi linguagem Cobol), depois comecei a interagir com outras pessoas, na era pré-Internet, através das chamadas BBS. Por essa altura comprei o primeiro PC, mais tarde um modem lento e ruidoso, uma primeira conta de acesso à Internet (salvo erro, em 1994, com tráfego pago ao bit), depois um portátil, a seguir um primeiro PDA, um scanner manual, e por aí afora, quase sempre penetrando em tecnologia usada apenas por algumas orlas e à qual, por interesse e opção que impunha sacrifícios económicos, lá fui aderindo.

Curiosamente, esta foi, durante perto de duas décadas, uma atitude bastante incompreendida, vista por muitas das pessoas com as quais me ia cruzando, algumas delas até, por estranho que pareça, com conhecimentos desenvolvidos em áreas do saber informático, como uma excentricidade, uma esquisitice praticada com laivos de exibicionismo, uma modernice perigosa, incomodativa ou condenada ao insucesso para a qual nem valeria a pena olhar mais do que três segundos. E no entanto sempre o fiz por curiosidade e interesse, genuíno julgo, pela mudança das coisas. Jamais como forma de rejeição do mundo tátil no qual nascera e crescera. O mundo dos livros em papel, dos recortes de jornais, dos cadernos de Almaço, dos dossiês em cartão pardo, das canetas de aparo, dos lápis de cores, da cola Peligon e da tinta Pelikan, das máquinas de escrever, das caixas de sapatos servindo de ficheiros, do gosto pelos prazeres antigos, associados à escrita, à leitura e a uma aproximação ao conhecimento intemporal que ainda conservo. Contra a imposição do «ou/ou» ou a rejeição do «nem/nem», acredito pois que vale a pena preferir o cumulativo «e/e». Parece-me mais completo e próximo das realidades compósitas e emaranhadas, de transição veloz e sempre problemática, que vamos atravessando na nossa nave tripulada e que McLuhan, do silêncio do seu gabinete escuro e de austera mobília, foi capaz de intuir e de projetar.

Vamos brincar à leitura

O leitorDesconfio muito da maioria dos estudos que atestam o crescente interesse dos jovens portugueses pela leitura. Dando de barato que em regra falamos de indivíduos que têm entre 15 e 24 anos, é uma evidência que o grau de relacionamento com o ato de ler se tem vindo a ampliar, quanto mais não seja porque têm vindo também a crescer em volume e distribuição geográfica os espaços e os suportes que impõem a presença do texto, da palavra escrita, no quotidiano das pessoas. Jovens ou não, claro. Admito até que a perceção do valor social da leitura tenha crescido em ligação com o alargamento da escolaridade e o aumento do número de cidadãos e de cidadãs com maior formação académica. Mas já questiono o crescimento de um padrão de leitura sólido e que integre de facto a formação e os hábitos dessas pessoas.

O problema, a meu ver, advém desses estudos se fundarem em inquéritos com perguntas vagas sobre se o inquirido lê ou não, se acha ou não importante que o faça, se planeia ou não fazê-lo no futuro. Brincando um pouco, diria que se me perguntarem se é útil ou se gostaria de fazer uma viagem pela Antártida para ver os pinguins e observar um continente a derreter-se, eu afirmarei que sim, apesar de não ter a menor intenção de ir amanhã de manhã marcar a viagem e comprar um anorak. O que me parece é que este tipo de estudos requer, para ser válido, uma observação ampla e continuada, e a materialização de respostas mais objetivas a perguntas como «que géneros lê e em que percentagem?», «quais os livros que leu de facto no último ano?», «lê-os na totalidade ou só parcialmente?», «com que frequência desiste a meio da leitura de um livro?», e outras que com mais algum esforço decerto ocorreriam. Continuar a ler

Uma outra Revolução Francesa

Liberté, Égalité, Fraternité

Desde as obras clássicas de Carlyle, Michelet e Tocqueville, tem permanecido fortíssima a carga política e ideológica que caracteriza a historiografia da Revolução Francesa. Sendo claro que todo o texto histórico é sempre um texto político, a forte vinculação do tema aos debates e contradições em curso nas sociedades nas quais as diferentes interpretações foram produzidas tem sido uma constante. O bicentenário de 1989, dado o seu forte impacto simbólico, catalisou o combate em torno dos trajetos e dos sentidos da Revolução, contrapondo então, embora com diferentes nuances, as abordagens «progressistas» e «reacionária». Em particular, o modo de tratar dois aspetos precisos – o papel da violência revolucionária e a caracterização conspirativa ou circunstancial dos acontecimentos – continuou então a separar as águas. Cidadãos, de Simon Schama, só agora editado por cá mas publicado justamente nesse ano, não fugiu ao confronto. Todavia, encarou-o de uma forma original, o que valeu ao historiador britânico a incompreensão da maioria dos seus pares e de quase toda a crítica. Mais de vinte anos depois, no prefácio que escreveu especialmente para esta edição portuguesa, lembra com ironia a perturbação que a obra causou: «Roger Chartier classificou-o como ‘reaganismo’ nas páginas do Le Monde, o que significou que fui imediatamente felicitado nas páginas do Le Figaro.» Continuar a ler

Um bom princípio de conversa

Tzvetan TodorovNum registo meio pedagógico meio trocista, dizia-me há tempo um colega que «iluminismo não é palavrão». Não posso estar mais de acordo com o aviso. A afirmação cega e desgovernada do relativismo radical, associada à ideia completamente estúpida segundo a qual a tradição cultural do ocidente é estruturalmente pobre, impura e nociva, tem levado muita gente honesta mas por vezes mal informada a ignorar o papel historicamente emancipatório da filosofia das Luzes, desconsiderando os seus princípios basilares. Noutra direcção, vozes vindas dos sectores mais retrógrados do pensamento contemporâneo chegam, como o fez o papa João Paulo II, a julgá-lo responsável pela edificação das «ideologias do mal», do nazismo e do comunismo em particular, que deixaram no século XX o seu rastro negro. Pior, olham-no como instrumento fundador de um conceito de liberdade, tolerância e democracia que pretendem pôr em causa. Já Tzvetan Todorov vê futuro nos três princípios que, em L’Esprit des Lumières, de 2006, considera condensarem o valor funcional da corrente: 1) a valorização da autonomia do indivíduo face à intervenção dos poderes; 2) a deslocação do humano para um lugar central na interpretação do mundo; 3) a aceitação da dimensão universal de valores e sociabilidades que concorrem com a diferença cultural. Qualquer um destes princípios pode ter no BI o seu lugar de nascimento, mas transcende-o obrigatoriamente. Todorov reconhece assim a presença dos traços essenciais do iluminismo em tradições culturais originárias da Índia, da China ou do mundo islâmico. Não se trata, pois, apenas de uma mania europeia. Continuar a ler

Dostoievski nas nuvens

Fiódor DostoievskiUma das avaliações póstumas de Dostoievski condenou-o a um novo exílio siberiano. Até 1953, os manuais universitários em vigor no seu país ajuizavam-lhe a obra como «expressão da ideologia reaccionária burguesa individualista». O fundamento da acusação e da condenação liminar não se encontrava tanto nos enredos dos seus romances ou na evocação neles contida de valores caducos próprios de um tempo que a revolução bolchevique pretendera superar, mas sim na tipologia dos seus heróis, preocupados com a fidelidade aos princípios e aos objectivos mesmo quando as circunstâncias os faziam vacilar. O próprio autor comentou um dia que o seu mal, o seu tormento, provinha de «uma doença incurável chamada consciência», enfermidade própria de quem tinha pouco sentido prático e preferia viver nas nuvens, como um sonhador. «E vocês sabem o que é um sonhador, cavalheiros?», deixou-nos nos Escritos Ocasionais, «é um pecado personificado, uma tragédia misteriosa, escura e selvagem, com todos os seus horrores frenéticos, catástrofes, devaneios e fins infelizes». Depois continua: «Um sonhador é sempre um tipo difícil de pessoa porque é enormemente imprevisível: umas vezes muito alegre, outras vezes muito triste, às vezes rude, noutras ainda terno e compreensivo, num momento um egoísta e noutro capaz dos mais honrados sentimentos (…). Não é uma vida assim uma tragédia? Não é isto um pecado, um horror? Não é uma caricatura?». A noção da tensão entre aquilo que se é e o que profundamente se deseja ser faz parte da matriz dos heróis dostoievskianos, e é ela que os torna inextinguíveis. No Mito de Sísifo, Camus comentou que todos eles se interrogam sobre o sentido da vida, sem excessivo pragmatismo, vincando que «é nisso que são modernos: não temem o ridículo». Não pode existir melhor elogio à grandeza de viver de absolutos, combatendo sempre por ser-se melhor do que aquilo que se é.

Vídeo

Indignar-se

Stéphane Hessel

Custa pouco mais do que um maço de cigarros o livro de Stéphane Hessel, best-seller em França, que chegou agora às nossas livrarias. Indignai-vos! é a declaração de um imperativo, escrita por alguém que tem suficiente autoridade moral para o fazer: aos 93, herói da Resistência francesa, sobrevivente dos campos de concentração nazis e um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o autor continua lúcido e tão atento aos motivos para a indignação do nosso tempo quanto aos dos anos durante os quais, em vez de se calar, de pactuar, de desistir, arriscou a vida por causas imprescindíveis. Continuar a ler

A grande ilusão

comunismo

A historiografia das últimas duas décadas integra um grande número de obras e de autores que se ocupam com o trajecto do comunismo enquanto projecto e experiência, transmitindo uma multiplicidade de abordagens apenas possível devido aos acontecimentos súbitos e inesperados que antecederam a queda do Muro de Berlim e que esta precipitou. A abertura dos arquivos antes reservados dos antigos «países socialistas» e o fim dos medos impostos pela Guerra Fria possibilitaram estudos audaciosos e com uma forte carga de novidade. Muitos investigadores centraram então no tema o seu trabalho, desenvolvendo projectos que em poucos anos deram excelentes resultados. Não é este, todavia, o caso do historiador e cientista político britânico Archie Brown, que há mais de 40 anos, muito antes da vaga irromper, se dedicou a estudar o comunismo e as experiências de poder moldadas no exemplo da Revolução de Outubro. Ascensão e Queda do Comunismo é assim uma obra de síntese ligada a muitos anos de pesquisa de arquivo, trabalho de campo e reflexão. Desta combinação resulta aquilo que noutras condições seria difícil obter: um trabalho sóbrio e conciso que nem por isso deixa de informar, de oferecer novidade e de aliciar o leitor. Continuar a ler

Camus fotográfico

Camus_avant

Tanto quanto a obra escrita, a projecção visual da presença física de Albert Camus incorporou sempre o contraste entre o lado diurno, solar, e um outro, mais reservado e taciturno. As muitas fotografias que dele ficaram, o rastro que sobrou das suas aparições públicas, constantes apesar de um desejo reiterado de privacidade, mostram também essa dupla face, que transparece ainda no modo como os outros – os que o admiraram, muitos, e os que o odiaram, muitos também – se foram relacionando com os dois rostos. Continuar a ler

Entre sombras e silêncios

sussurros

Em crónica saída na revista New Statesman, o escritor ucraniano Andrei Kurkov descreveu Sussurros como «uma fascinante enciclopédia das relações humanas», considerando-o, a par do Arquipélago Gulag, de Soljenitsine, e dos Contos de Kolima, de Varlam Chalamov, como «um dos maiores monumentos literários do povo soviético». Não se trata de uma hipérbole, pois esta é, de facto, uma obra soberba e inovadora. Convém no entanto desvanecer um eventual equívoco: este não é mais um dos muitos estudos históricos sobre Estaline, o estalinismo e as suas vítimas facultado pela abertura dos arquivos que se seguiu à Glasnost. Mergulhando nas sombras, surge antes como uma abordagem da vida diária das pessoas comuns determinada pela engenharia social do «homem novo». O próprio título traduz uma das dimensões da vida quotidiana na antiga União Soviética: «sussurro» era o ténue som emitido por alguém que desejava passar despercebido e escondia a sua voz, mas na língua russa é também o modo de soprar ao ouvido da polícia aquilo que alguém disse, uma prática vulgarizada a partir da década de 1920. A atenção prestada às particularidades da vida privada e o privilegiar da palavra murmurada configuram assim a dimensão mais claramente inovadora deste livro de Orlando Figes, necessariamente apoiado no valor documental da memória individual. Justificando o recurso sistemático a cerca de 500 entrevistas, Figes declara mesmo o testemunho oral como mais fiável do que as evocações escritas, uma vez que pode sempre ser cruzado com outros e directamente confrontado com os factos. Continuar a ler

Elogio da bicicleta

Bicicleta

No Éloge de la Byciclette (Payot, 2008), o etnólogo Marc Augé afirmou que «o biciclismo é um humanismo». Mais do que óbvia a analogia, em forma de gracejo, com o título da famosa conferência de Sartre (O Existencialismo é um Humanismo, de 1945, saída em livro no ano seguinte) na qual, em debate com o marxismo – para quem o humanismo «esquecia o homem concreto» –, o filósofo de Paris lançou as bases para uma certa popularização do «existencialismo francês». O humanismo do qual ali se falava nada tinha, porém, a ver com a noção, nascida no século XVI e difundida depois pelos iluministas, mas para ele ultrapassada, do valor do indivíduo como «fim em si mesmo» e como «valor superior». Sartre falava antes do homem como um ser «para o qual os valores existem» e do humanismo como uma atitude que, por esse preciso motivo, lhe conferia uma dignidade particular. Continuar a ler