Solidão e felicidade em Camus

«Não sou um filósofo, só sei falar daquilo que vivi», escreveu o autor de A Peste no terceiro volume dos Cahiers. A afirmação condensa um dos dois argumentos nucleares de A Felicidade em Albert Camus, de Marcello Duarte Mathias, primeiramente editado em 1975, do qual saiu há pouco tempo uma 3ª edição revista, acrescida de um prefácio atualizado e de três novos textos. Na verdade, e tal como se empenha em demonstrar o escritor e embaixador, «raros casos terá havido de uma tão completa osmose entre um autor e uma obra e de uma tão íntima associação entre os dois e o seu tempo». Se a leitura deste ensaio explica de um modo inequívoco essa interligação, mantida por Camus em tudo aquilo que escreveu, mostra também que ela teve consequências «para o bem e para o mal, como se diz». De facto, a imposição da coerência entre a vida e a obra, forçando atitudes de independência, determinou –sobretudo no confronto com os rígidos ambientes da esquerda filo-marxista do pós-guerra que o escritor frequentou – polémicas e ruturas dolorosas com aqueles com quem percorrera parte importante do seu caminho literário, filosófico e político. O resultado foi uma proscrição que só muitos anos após a sua morte começou a ser anulada. O obituário saído no Times em janeiro de 1960 intitulava-se com propriedade «A man who walked alone».

O outro grande argumento destacado por Marcello Mathias prende-se com um aspeto, central em Camus, que contraria a dimensão de tragédia e de solidão habitualmente associada, não sem grande dose de justeza, ao seu trajeto pessoal. Reconhecendo sempre a contiguidade entre a vida e a morte, e escrevendo com ela omnipresente na sua linha do horizonte, o escritor esforçava-se por combater a segunda, na medida exata em que o combate lhe permitiria fruir a plenitude do que acreditava ser a vida. Assegurava no ensaio L’Été: «Há assim uma vontade de viver sem nada recusar da vida que é a virtude que eu mais venero neste mundo.» É esta dimensão de existência plena – empenhada tantas vezes em causas, mas ao mesmo tempo na fruição das coisas – que, como bem mostra Marcello Mathias, constitui a essência da conceção camuseana de felicidade, erguida como «o sentimento-motor, o substrato-base» da sua narrativa do mundo. Como perspetiva solar da existência, bebida nas manhãs mediterrânicas uma vez calcorreadas, em silêncio, entre as ruínas de Tipasa, na sua Argélia natal. As mesmas manhãs de um «verão invencível» que, por ironia de um improvável destino, voltarão no último romance, Le Premier Homme, guardado, ainda por concluir, na pasta que Camus transportava consigo quando do acidente fatal.

A atualidade deste livro virá, em larga medida, da «reabilitação» política e intelectual de Camus que se encontra em curso. À sua transformação, de uma certa forma, em ícone de uma época, «uma espécie de Humphrey Bogart com bom aspeto» como se lhe referiu Elizabeth Hawes no recente Camus: A Romance. Virá também do que a sua obra, aqui detalhada, poderá oferecer aos novos leitores: principalmente «densidade lírica, força moral, paixão exclusiva pela vida que se traduz numa ânsia sempre renovada de felicidade». Mas advirá ainda do conhecimento extensivo e profundo, feito de leituras e de releituras, que Marcello Mathias vai revelando ao leitor, incentivando-o, através de uma escrita com marca d’água camuseana, a percorrer a via aberta pelo escritor franco-argelino. Uma via possível, se traduzida num modo de estar marcado pela coragem de ir contra a corrente. Aceitando, pois não poderia ser de outra forma, os riscos inerentes a esta escolha.

Marcello Duarte Mathias, A Felicidade em Albert Camus. D. Quixote. 280 págs. Publicado na LER de Setembro de 2013.

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