O impertinente de serviço

George Orwell

George Orwell conviveu toda a vida – porque a percorreu na fase crítica da inquietante «era dos extremos» que preencheu a parte maior do século vinte – com a hostil incompreensão sempre dirigida aos que pensam de forma pessoal, definindo um padrão de comportamento ético avesso às absolutas certezas, à ditadura das maiorias ocasionais ou à orientação mecânica dos cata-ventos. Por isso a sua ação, as suas convicções e a sua memória foram sempre, tanto durante os anos de intensa atividade como jornalista e escritor quanto (e talvez sobretudo) após a sua morte, acompanhadas de difamações e de equívocos, certas vezes de rancores completamente insanos. Embora o tenham sido também de paixões profundas por parte de quem se foi aproximando dos ideais libertários, do amor pela humanidade do mundo e do direito ao testemunho que Orwell sempre reivindicou. Mas a semente do mal foi permanecendo: os conservadores e a direita julgaram-no e julgam-no como perigoso esquerdista, enquanto a esquerda estalinista e os «idiotas úteis», subservientes do velho Kremlin, bem como os seus esparsos herdeiros contemporâneos, o consideraram um «espião», um divisionista e um snob.

Dois livros editados em Portugal e que com algum esforço ainda poderão ser encontrados nas livrarias, ajudam-nos a repor a verdade adulterada e a compreender melhor as convicções, atitudes e escritos do autor: George Orwell. Uma biografia política, de John Newsinger (da Antígona), e A Vitória de Orwell, de Christopher Hitchens (da Verbo, desculpando com esforço a tradução medíocre). Deixam-nos reconhecer a constância da sua personalidade independente e a forma como ela cresceu no combate contra quem pretendia vergá-la a todo o custo. É Hitchens quem refere o seguinte episódio. Em 1938, Orwell foi vetado por um departamento oficial do domínio britânico na Índia quando um diário local quis integrá-lo como editorialista e procurou obter alguma informação sobre o tipo de pessoa que ia contratar. Questionado pela direção do jornal, A. H. Joyce, diretor de informação do India Office, respondeu então da seguinte forma: «A meu ver, não subsistem dúvidas sobre as suas capacidades enquanto editorialista, embora me pareça que deva preparar-se, perante aquilo que me parece ser uma perspetiva dominantemente de esquerda e provavelmente extremista, para lidar com alguém com uma grande força de caráter, que criará dificuldades assim que surgir um conflito de opiniões.» Como seria de esperar, o escritor ficou sem o emprego já apalavrado e com menos algumas libras mensais de rendimento. Mas é justamente por causa dessa sorte de atitude que o lembramos através deste episódio.

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