O intelectual público

Tony Judt

«Um historiador (ou qualquer outra pessoa) sem opiniões não é muito interessante, e seria de facto estranho que faltassem ao autor de um livro sobre a sua própria época pontos de vista incómodos sobre as pessoas e as ideias que a dominaram.» A afirmação é de Tony Judt e surge no posfácio de Pensar o Século XX, o seu derradeiro livro. De certo modo, ela explica o cenário de fundo diante do qual todo o volume se desenrola: o de uma extensa viagem, sob a forma de um diálogo do autor com o historiador americano Timothy Snyder, através da sua própria vida, do seu percurso profissional, das suas escolhas, e ainda, apesar da obra ter sido concluída alguns dias apenas antes da morte anunciada, dos planos que tinha e em relação aos quais não deixava de revelar um admirável entusiasmo e uma inexplicável esperança. Denunciando em todas as situações, em cada uma das posições que tomou e dos projetos nos quais se envolveu, uma curiosidade, uma agudeza crítica e uma autonomia que pontuaram as suas escolhas e se descobrem agora no seu legado.

A conversa entre os dois – com Snyder sempre contido no papel de interlocutor, uma vez que o diálogo se centrou na vida, no trabalho historiográfico e nas opiniões públicas de Judt – teve como motor a formulação de duas motivações que o historiador britânico assumiu a partir de determinado momento. Por um lado, a noção de ter adquirido, com a sua colaboração regular na New York Review of Books e depois no New Republic, um certo papel como «intelectual público», do qual se esperava sempre uma posição perante as novidades editoriais e as grandes questões do seu tempo; e, por outro, o plano para escrever aquela que deveria ser uma grande história cultural e intelectual do século XX, propósito entretanto inviabilizado com a sua incapacidade física para o levar a cabo. Aquilo que o leitor irá encontrar nesta espécie de «livro falado» será pois uma tentativa de, em simultâneo, produzir um balanço pessoal e enunciar o núcleo dos temas, problemas, interrogações e eventuais conclusões que deveriam presidir à concretização dessa obra inacabada.

O resultado é uma obra na qual se combina autobiografia e história, e onde Judt vai mostrando como a escolha dos diferentes assuntos que foi trabalhando nos seus estudos – os intelectuais franceses do pós-guerra, o fascismo, o comunismo, Israel e o sionismo, o nacionalismo, a tradição erudita da Europa de Leste, as vicissitudes da social-democracia, a missão do historiador enquanto intelectual público – foi sempre, em primeiro lugar, o resultado de uma combinação de preocupações políticas e da sua atividade como professor e investigador, com escolhas suscitadas por viagens, gostos e encontros, casuais ou programados, com pessoas, territórios, instituições, livros, ambientes e ideias que marcaram a experiência pessoal do seu tempo. Alguns dos pensadores-heróis que assumiu como referências – Camus, Arendt, Koestler, Kolakowski, Hobsbawm, Keynes, Levi, Blum e Milosz – são recorrentes nos seus trabalhos, mas outros, inúmeros, vão sendo aqui revelados, deixando claro que Tony Judt tinha já muito adiantado o trabalho que o levaria à obra que já não pôde escrever. Mostrando também que a crítica da sua trajetória como historiador das ideias, fundada numa acusação de «ligeireza», se revela profundamente injusta. Sendo verdade que as preocupações de Judt pela dimensão narrativa e pelo papel público da História, bem como por uma variedade de temas, o afastaram de um academismo «monotemático», caro a outros historiadores, a sua efetiva erudição, aqui percetível, revela de que modo, apesar da luz dos holofotes, permaneceu acima de tudo um leitor, um professor e um investigador. Que jamais esqueceu o facto de não ser possível cada um apreciar e conhecer verdadeiramente a diversidade do seu século «se não partilhar as suas ilusões».

Tony Judt com Timothy Snyder, Pensar o Século XX. Trad. de Marcelo Felix. Edições 70. 424 págs. Versão revista de artigo publicado na LER de Fevereiro de 2013.

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