O historiador mudo


Desde que alguém passou a ocupar parte da vida a reunir e a dar um sentido a fragmentos do passado, expondo-os aos olhos dos outros, existe uma reflexão sobre a função e a condição de quem a essa tarefa se dedica. Numa entrevista publicada em 1997 na Sciences Humaines, Jacques LeGoff falava de três grandes obrigações, que de algum modo interferem nas circunstâncias com as quais o historiador convive: investigar, ensinar e divulgar. O modo de o fazer, ou de o não fazer, é que define os diferentes pontos de vista. Seria fastidioso, e seguramente pouco motivador para a leitura casual e instantânea que se faz no espaço de um blogue, a exposição e o debate das diferentes conceções, tendências ou atitudes que sobre esse papel complexo têm sido produzidas e divulgadas. Mas vale a pena olhar para um lado do assunto que se presta a frequentes equívocos. Principalmente numa época como esta que cruzamos, na qual, apesar do recuo da História como saber nos programas escolares, nas preocupações dos governantes e na consideração pública, a palavra dos historiadores continua a ser utilizada, ou cirurgicamente manipulada, como instrumento de legitimação do discurso político, tanto do lado dos que procuram conservar o poder como da parte dos que o tentam conquistar.

O lado que aqui quero destacar prende-se com uma certa sacralização da própria condição profissional do historiador, visto como um intérprete especialmente qualificado, como uma espécie de sacerdote, que retira do tempo que passou, dos documentos e memórias que este foi doando, uma leitura capaz de explicar ou de dar um sentido universal, supostamente inquestionável, ao conhecimento construído do passado. Esta ideia surge com a própria procura, desenvolvida por muitos historiadores a partir do positivismo comteano, de uma eventual capacidade para gerar «verdade», logo infalibilidade, a propósito desse mesmo passado. Trata-se de uma leitura incompleta, que exclui a experiência do grande número de outros historiadores que, em particular a partir da década de 1970, começaram a contestar essa posição, reconhecendo que afinal o conhecimento histórico, como todo o conhecimento, é relativo, transitório e sempre sujeito ao confronto, sem que tal ponha em causa o trabalho de investigação criteriosa e a busca da objetividade possível.

Este não é, porém, o problema principal. Se assim fosse, este debate permaneceria fechado no universo académico, onde, apesar do conservadorismo e do dogmatismo por vezes imperantes, o debate e a divergência são sempre possíveis. O problema reside no facto de o grande peso que em alguns locais ainda mantém a imagem «sacral» do historiador, tender a retirar-lhe direitos de cidadania, forçando-o, como «sacerdote da verdade», como testamentário do passado, a não abandonar o seu papel, a não caminhar por módulos de leitura do mundo que não tenham uma dimensão reconhecidamente historiográfica. Ou, pior, que possam sujar-lhe as mãos e a reputação com a interferência do presente.

Já me tem sido apontado esse pecado, não sei se mortal, se venial. É que, para além de considerar que a História é necessariamente alimento da cidadania, e também de estudar temas de história muito recente que são obrigatoriamente «quentes», por vezes difíceis, sujeitos a um escrutínio mais cerrado e emotivo, escrevo frequentemente em registos – no campo da opinião, do ensaio ou da criação – que se encontram associados a outras lógicas de rigor, de demonstração e de enunciação. Quando me meto por tais campos, e particularmente quando isso acontece na confluência de um assunto mais polémico, lá ressurge ocasionalmente o argumento segundo o qual um historiador, precisamente por sê-lo, «não pode» ou «não deve» falar disto ou daquilo, desta ou daquela maneira mais livre e subjetiva. Assim diminuindo, de acordo com tal lógica, a sua função primordial de intocável e paramentado intérprete. Não o fazendo, isso sim, permaneceria no seu lugar sagrado, convenientemente encapsulado no tempo. Sacerdote triste e solene, «sério», sem acesso à opinião livre, sem correr o risco da imperfeição e do erro. Convenientemente castrado, mudo, inócuo. Como cidadão e, em consequência, também como historiador.

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