Camus fotográfico

Camus_avant

Tanto quanto a obra escrita, a projecção visual da presença física de Albert Camus incorporou sempre o contraste entre o lado diurno, solar, e um outro, mais reservado e taciturno. As muitas fotografias que dele ficaram, o rastro que sobrou das suas aparições públicas, constantes apesar de um desejo reiterado de privacidade, mostram também essa dupla face, que transparece ainda no modo como os outros – os que o admiraram, muitos, e os que o odiaram, muitos também – se foram relacionando com os dois rostos.

Nos anos 40, o escritor surgia refulgente, a good looking guy com êxito entre as mulheres, uma versão melhorada de Humphrey Bogart como se lhe refere o biógrafo David Sherman, cuja silhueta sóbria funcionava como protótipo do intelectual combatente. Não muda: sobretudo impecável, fato de bom corte, camisa clara, gravata, os cabelos puxados para trás, por vezes um cigarro Gauloise. Em A Queda, Clamance, o protagonista, declara o charme como «a forma de obter uma resposta sem ter colocado nenhuma questão clara», insistindo no modo como a exibição da harmonia, do «autodomínio sem esforço», fazia com que as pessoas que o olhavam «confessassem, por vezes, que tal as ajudava a viver». É este lado, solar mas tranquilo, que Camus evoca em O Verão: «Quando morava em Argel, suportava o inverno pois sabia que numa noite, numa certa noite pura e fria de Fevereiro, as amendoeiras do vale dos Cônsules se cobririam de flores». A tranquilidade manifesta nas fotografias não é porém esforço de poseur, como ocorreria com muitos dos da geração que nele decalcou atitudes, mas antes traço de uma personalidade capaz de fazer coincidir a disposição reflexiva com a energia activa e militante, vista pelo escritor como resultado da sua origem mediterrânica.

Já a reverberação de um semblante sombrio, muitas vezes desolado, começará a acentuar-se após a publicação, em 1951, de O Homem Revoltado, determinante para a ruptura com Sartre e com intelectuais de uma esquerda que jamais deixou de ver como sua. Muitos, especialmente os próximos do PCF, cortaram relações com ele e passaram a hostilizá-lo sem rodeios por não lhe perdoarem a concepção ética do acto de rebelião, contrária à subordinação do indivíduo ao colectivo. O isolamento – apesar do êxito público de algumas peças, apesar do reconhecimento trazido em 1957 pela atribuição do Nobel – surge acentuado, visível, nas fotografias de uma época que não mais lhe devolveu a energia e a esperança dos anos que haviam ficado para trás. Em Albert Camus – Solitaire et Solidaire, uma belíssima fotobiografia preparada com comovente carinho pela filha Catherine e editada em 2009, esta conta um episódio ocorrido nos últimos anos. Um dia, adolescente, encontrou o pai sentado num sofá de casa com o rosto fechado, aparentando desalento, e perguntou-lhe: «Papá, estás triste?». Camus respondeu: «Não estou triste, Catherine, estou apenas só.» As fotografias dos anos finais mostram-nos repetidamente este lado marcado pelo desconsolo. E todavia, olhado em perspectiva, o álbum da sua vida não revela um escritor recolhido, fechado na sua biblioteca, mas antes um homem em movimento que caminha e avança, razoavelmente seguro do percurso que escolheu.

Publicado na revista LER de Fevereiro de 2011.

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