O homem por detrás do ícone

TrotskyO perfil histórico de Lev Davidovitch Bronstein, Trotsky, incluiu sempre os estigmas do herói e do mártir. A luta contra Estaline e o estalinismo concedeu-lhe desde cedo – e não apenas entre os seus seguidores – uma certa imagem pública de bolchevique «autêntico», que não traiu mas foi traído. Isaac Deutscher descreveu-o como o «rebelde par excellence», justamente para se referir às características que o transformaram, a partir de 1921, num crítico do regime que de forma decisiva ajudara a estabelecer. Terá sido essa silhueta de «eterno revolucionário» a determinar o efeito internacional de sedução que projectou junto de sucessivas gerações de comunistas e outras pessoas de esquerda desconformes em relação aos rostos do paradigma marxista-leninista. O papel decisivo na Revolução de Outubro e na criação do Exército Vermelho, a aptidão como orador, o valor literário dos seus escritos, associados a um estilo pessoal elaborado que o aproximava mais do intelectual do que do duro combatente maximalista, contribuíram também para fixar a representação encantadora do homem de letras dedicado a uma causa pela qual viria a dar a própria vida. Porém, nada disto seria suficiente para lhe assegurar a imortalidade. O passo definitivo foi dado pelo projecto político próprio, fundado na defesa de uma revolução permanente lançada à escala mundial contra a perspectiva do «socialismo num só país», e na percepção de uma «crise da direcção do proletariado» que tornava imprescindível um combate sem tréguas contra a degenerescência burocrática. A repressão brutal destas ideias e dos seus partidários, imposta por Estaline, acabaria por acentuar a noção de exemplaridade, de pureza revolucionária, mais tarde revigorada por biografias de pendor intensamente elogioso e hagiográfico como a de Deutscher, editada entre 1954 e 1963, e a de Pierre Broué, saída em 1988.

A leitura heróica e apologética da vida e da obra de Trotsky enfrentou entretanto, nos últimos vinte anos, uma conjuntura delicada: a abertura dos arquivos soviéticos permitiu o lançamento de olhares mais detalhados e menos categóricos sobre o seu trajecto pessoal e político. Em consequência, duas importantes biografias procuraram refundar a sua imagem pública. Trostsky – The Eternal Revolutionary foi publicada em 1992 por Dmitri Volkogonov (ed. inglesa de 1996 pela Free Press), que usufruiu da posição privilegiada como director do Instituto de História Militar soviético para aceder a um grande número de documentos inéditos e ao testemunho de familiares e de ex-agentes do NKV, revisitando o caminho percorrido pelo biografado. Já Trotsky – A Biography, de Robert Service, saída em 2009 (ed. Macmillan), amplia ainda mais essa busca, acompanhando os momentos mais importantes da vida do revolucionário bolchevique mas prestando grande atenção a aspectos complementares da sua actividade privada. Sobretudo àqueles, relacionados com a formação e as leituras, as amizades e inimizades, os amores e a existência familiar, que possibilitam uma percepção mais completa do homem oculto por detrás do ícone.

Diferentes no conteúdo e no estilo, as duas obras coincidem na ampliação, com evidências esmagadoras, dos factores menos benignos do trajecto pessoal de Trotsky. Evoca-se assim o seu papel na justificação do terror revolucionário contra os primeiros dissidentes e todos os «inimigos de classe», na repressão sangrenta da revolta dos marinheiros de Kronstadt, na defesa da irredutibilidade do Exército Vermelho diante das populações civis, ao mesmo tempo que se denuncia a enorme arrogância pessoal, a insensibilidade nas relações humanas, o cuidado obsessivo com a construção pública da imagem, o esforço tenaz para esconder a origem judia, a incapacidade para gerir situações que exigissem atenção aos pormenores e às pessoas enquanto pessoas. A estes elementos pode ainda juntar-se um factor que contesta as asserções do «trotskismo cultural», assente na lenda de um Lev Davidovitch contrário aos cânones do realismo socialista: Service procura mostrar como o seu influente ensaio Literatura e Revolução, escrito em 1924, foi essencialmente «um trabalho de reducionismo político», criando as condições para aquilo que viria depois em termos de controlo da actividade literária e artística pelo Partido e pelo Estado. Destas duas biografias sobressai pois a sugestão de que se Trotsky tivesse levado a melhor sobre Estaline nem por isso a experiência totalitária, ainda que orientada num outro sentido, teria deixado de pesar sobre a União Soviética. Mas isto, claro, jamais poderá ser provado. E por isso será categoricamente negado por quem continua a encontrar inspiração nas suas palavras.

[Revisitação de um texto publicado na revista LER de Julho-Agosto de 2010]

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