Spartakus em Berlim

Espartaquistas

Brecht escreveu Tambores na Noite muito cedo. Em 1919, B.B. acabava de dobrar os vinte anos e não passava ainda de um rapaz bávaro com uma actividade não muito bem definida. Interessava-se pelas artes de palco, isso era certo, e havia já começado a redigir Baal – peça com uma forte componente autobiográfica sobre o velho tema do artista enquanto marginal, em boa parte inspirada pela frequência regular das aulas de Arthur Kutscher -, mas a guerra tinha-o apanhado sem projectos imediatos e no Outono do ano anterior fora mesmo incorporado no exército. A experiência militar seria breve – por ser estudante de medicina trabalhou algumas semanas como enfermeiro num hospital militar de Augsburgo, sendo desmobilizado com o fim do conflito – mas nem por isso deixou ela de perturbar o retorno à condição civil e a maneira de Brecht observar o mundo à volta. Em Munique, onde vivia, como em Berlim e nas outras grandes cidades alemãs, para a maioria das pessoas o ambiente era agora pesado, muito marcado pela realidade da derrota, pelo regresso em massa dos soldados, por conflitos sociais cada vez mais acentuados e também por uma activa luta pelo poder. «Os tempos que correm são inseguros. (…) a desmobilização está a fazer jorrar desordem, cobiça e desumanização animalesca para dentro dos oásis dos que trabalham em paz», proclama Frau Balicke logo no primeiro acto.

Tambores na Noite, obra de juventude ainda sem as marcas do teatro épico que o autor desenvolverá na maturidade, foi primitivamente redigida nesse período de adaptação a uma paz podre, aparecendo muito marcada pela sublevação espartaquista ao dramatizar o ambiente que conduzira à revolta, as suas diversas ocorrências, a repressão e depois o refluxo do movimento. A personagem de Friedrich Murk, o anti-herói que não combatera, fizera fortuna com os lucros de guerra e ainda por cima se preparava para roubar a noiva do proletário que fora mobilizado, expõe de certa maneira o sentimento de traição e de frustração que os trabalhadores fardados, constrangidos durante anos a combaterem, sentiam naquele tempo de regresso a casa na condição de vencidos. A peça anuncia também a definição vitoriosa de uma nova ordem contra-revolucionária, manifesta quando Andreas Kragler, o soldado que fora dado como morto e tornara à pátria para a ver acabrunhada, e a casa para ver quase destruído o seu futuro, decide no final optar pelo confortável refúgio da vida privada.

A sequência da revolta não é, nem sequer fragmentariamente, narrada no texto: permanece principalmente como um rumor que ora se aproxima ora se distancia, mas do qual se sente fortemente a presença. Começa no primeiro acto com o aviso de que os revoltosos se preparam para assaltar os jornais, continua nos dois seguintes com a notícia do travar dos combates, aparece no quarto com a passagem pela rua das forças do exército regular que vão combater os revoltosos, e conclui-se na quinta e derradeira parte com o assalto final lançado pelas tropas leais ao governo contra os grupos de operários insurrectos, que a artilharia despedaça sem piedade, deixando-os sem salvação, «estendidos no asfalto como gatos afogados».

A sublevação inscreve-se porém, intensamente, no espaço envolvente da acção – parte-se das suas circunstâncias, ouvem-se-lhe os tiros, da rua chegam as estrofes da Internacional, percebe-se que o ambiente fervilha e que as coisas não são para brincadeira – mas está também presente, como uma sombra que deixara um rasto de sangue e de cólera, num estado de espírito colectivo que ainda se não diluíra, se não tinha transformado em passado, quando, nos finais de 1922, primeiro em Munique e logo a seguir em Berlim, tem lugar, numa primeira versão retocada, a estreia da peça. Esta ter-se-ia, aliás, chamado originalmente Spartakus, e é provável que tenha sido a evolução dos acontecimentos, desfavorável para os revolucionários, mas também para Brecht, que com eles crescentemente simpatizava sem todavia assumir já as suas inclinações comunistas – coisa que apenas faria em 1929 -, a determinar pelo menos parcialmente a procura de um novo sentido e de um novo título.

A acção decorre numa noite de Inverno de 1918-1919. Na versão original, os acontecimentos desenrolam-se em Novembro de 1918, mas na reescrita levada a cabo muito mais tarde, em 1953, têm lugar já no mês de Janeiro do ano seguinte, o que exacerba o dramatismo e recoloca a dimensão da traição do protagonista. Tal como foi assinalado por Jean Jourdheuil em artigo publicado na revista L’Arc, «é grande a diferença política entre as duas datas – em Novembro, é ainda o avanço do proletariado, em Janeiro a sua derrota». Em qualquer dos casos, tudo se passa sempre «contra o fundo de uma Berlim sacudida pelos movimentos espartaquistas na sua fase decisiva», anunciando a tragédia da revolução proletária esmagada, lenta mas inexoravelmente, sem provas de piedade, pelas tropas governamentais. Dando voz ao mudo desespero de uma resistência que já não tem esperança. Independentemente das nuances que permitem diferenciar sob diversos aspectos as duas versões, é esta a marca dramática fundamental da peça, tingindo Tambores na Noite com as colorações de um tempo preciso com o qual ela dialoga em permanência.

Mas afinal que género de esperança morreu com o final da história breve mas sonante, dolorosa e fortemente traumática, da revolução alemã de 1918-1919? O que queriam esses espartaquistas? Desde cedo pretenderam pôr fim à guerra pela via da revolução, combatendo o sistema capitalista que queriam substituir pelo socialismo. Contra a passividade dos dirigentes social-democratas, preconizavam a acção das massas, embora o tenham conseguido fazer só a partir de Novembro de 1918 e quase exclusivamente nas grandes cidades. Contra o nacionalismo do Partido Social-Democrata (SPD), afirmavam-se resolutamente internacionalistas. Contra o «aparelhismo» social-democrata, apelavam à confiança nas massas, permitindo uma grande autonomia aos grupos locais, recusando toda a organização centralista. Os seus militantes, quase sempre jovens e impacientes, nem sempre mediam o poderio do adversário, a capacidade de resistência dessa sociedade burguesa que se propunham fazer desaparecer. Criam-se radicais, contra as meias-tintas. Gilbert Badia lembra que os seus adversários os acusavam mesmo, com frequência, de terem um fraco pela «gesticulação revolucionária».

A via para uma compreensão mais completa do seu papel e para a percepção das repercussões históricas que o futuro lhes reservaria, remete entretanto, forçosamente, para um olhar sobre o lugar destacado que preencheram e que ainda ocupam na história da resistência anticapitalista e na tradição do movimento operário. Num texto de António Louçã publicado há alguns anos na revista História ficou anotada a aproximação seminal entre o pensamento dos revolucionários espartaquistas alemães e o dos bolcheviques russos, que acabaram por antecedê-los no choque frontal com esse poder dos representantes da ordem antiga que tanto uns como os outros pretendiam derrubar. Os bolcheviques consideravam aliás a revolução numa Rússia inegavelmente atrasada «como uma espécie de prelúdio ao que verdadeiramente importava, a revolução alemã». Esta era assim olhada, sem qualquer dúvida, como o início da queda tão necessária quanto inevitável do capitalismo mundial. Logo pelos inícios de 1902, no Que Fazer?, Lenine invocava respeitosamente a autoridade do marxista veterano alemão Karl Kaustky – nessa época ainda não apresentado como esse «renegado» a quem, muitos anos depois, Vladimir Illitch apontaria o dedo acusador – para justificar a necessidade da consciência política dever ser trazida ao proletariado a partir do exterior, e durante a revolução falhada de 1905 voltou a citá-lo, contra Plekhanov, na sua tentativa de contestar a forma como este último lamentava o recurso às armas por parte do proletariado russo. A aproximação aos revolucionários alemães ainda se acentuou – se bem que sem ruptura imediata com a corrente reformista da August Babel, que só ocorreria mais tarde – quando Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Clara Zetkin, entre outros, constituíram a Liga Spartakus, iniciando uma vigorosa campanha de agitação contra o imperialismo, o militarismo e o belicismo que os social-democratas, com os quais entretanto haviam rompido, tinham adoptado como solução diante da política de confronto entre as grandes potências europeias.

As posições teóricas de Rosa Luxemburgo, nem sempre incontestadas dentro da própria Liga, definem o sentido mais profundo tomado pelo movimento, revelando também algumas das divergências perante a estratégia dos bolcheviques com as quais, de forma curiosa, Lenine, sempre tão intransigente dentro do seu próprio partido, por diversas vezes contemporizou. Considera-se geralmente que é a partir da revolução russa de 1905 que Luxemburgo desenvolve sua teoria revolucionária. A verdade é que Greve de Massas, Partido e Sindicatos, de 1906, se constituiu até hoje como uma das principais peças teóricas sobre a relação entre a iniciativa dos partidos comunistas e o movimento de massas: «A revolução russa ensina-nos uma coisa: é que a greve de massas nem é fabricada artificialmente nem decidida ou difundida no éter imaterial e abstracto, mas é tão-somente um fenómeno histórico, resultante, em certo momento, de uma situação social a partir de uma necessidade histórica». O seu esforço concentrou-se sempre, desde essa época e até ao final da vida, em desenvolver um sentido estratégico para a acção política que permitisse o avanço das condições subjectivas para a mudança sem se afastar do compromisso com a revolução socialista. «A revolução e a greve de massas», escrevia naquela obra, «são conceitos que não representam mais do que a forma exterior da luta de classes e só têm sentido e conteúdo quando referidas a situações políticas bem determinadas».

Foi pois durante o período que vai de 1903 a 1906 que Rosa desenvolveu a sua teoria sobre democracia operária e o movimento de massas, sempre preocupada em dar respostas concretas às necessidades da luta de classes e da organização revolucionária dos operários. Foi também nesse período que traçou algumas das teses que vieram a fazer com que certos adversários dentro do próprio movimento operário e socialista a tomassem negativamente como uma «espontaneísta». De facto, ao entender que «as massas não são apenas objecto da acção revolucionária, são sobretudo sujeito», contestou de alguma forma o lugar primordial do partido de tipo bolchevique, separando-se aqui de Lenine e aceitando participar num movimento revolucionário no qual esse partido não desempenhasse necessariamente um lugar central e dirigente. Posição que os espartaquistas, aliás, viriam a assumir durante o movimento revolucionário.

Entretanto, o triunfo da revolução russa de 1917 alteraria a relação de forças, passando, gradualmente, a ser os revolucionários alemães a olharem como exemplo e estímulo a ousadia vitoriosa dos seus camaradas bolcheviques. No núcleo espartaquista, recordou ainda Louçã, Paul Levi destacou-se como um defensor entusiástico de uma aproximação à república soviética, embora Luxemburgo mantivesse algumas reservas sobre opções demasiado centralistas tomadas pelos comunistas russos, como aquelas que diziam respeito à repressão das nacionalidades e à extinção da Assembleia Constituinte, opondo-se assim à contestação sem quartel do parlamentarismo que Lenine preconizava. Seja como for, quando chegou a hora do combate, o líder bolchevique não virou as costas à «flor mais vermelha do socialismo» e esta não deixou de ocupar, até à morte trágica, o seu lugar na primeira linha.

Para compreendermos a origem imediata da sublevação alemã é preciso recuar também até às circunstâncias que, em Agosto de 1918, conduziram, com o reconhecimento formal da derrota pelas autoridades alemãs, ao final da Primeira Guerra Mundial. A frustração pela derrota na guerra, a crise económica decorrente, a influência do marxismo e o exemplo da recente vitória dos bolcheviques na Rússia concorreram então para detonar um conjunto de levantamentos populares que ocorreram na Alemanha: uma rebelião da esquadra de Wilhelmshaven, a sublevação da base naval de Kiel, a formação de conselhos revolucionários de trabalhadores e soldados em Hamburgo, Hannover, Estugarda e Munique, a proclamação da República na Baviera. A vaga de insurreição chegou mesmo a Berlim e, em 9 de Novembro, o kaiser Guilherme II acabou por abdicar, pondo fim ao longo período em que a dinastia de Hohenzollern se havia mantido no poder. Philippe Scheideman, em nome do SPD proclama então a República, mas Liebeknecht declara ao mesmo tempo, em Berlim, a materialização de uma República socialista.

Antes da guerra, o SPD era já o maior partido do Reichstag, tendo reconhecido a União Sagrada, o que significara aceitar o nacionalismo alemão no conflito que se avizinhava. Rosa Luxemburgo, sempre radical, criticou de imediato essa atitude belicista como contrária aos interesses dos trabalhadores. Em oposição à tendência dominante, surgiram então duas facções dissidentes dentro do velho SPD: o Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USPD) e, cada vez mais autónoma e activa, a Liga Espartaquista de Liebeknecht e Luxemburgo. Destacando-se cada vez mais claramente do USPD, os espartaquistas começavam então, acompanhando o que lhe parecia ser a vontade das massas populares, a preparar-se para o assalto ao poder e para a instauração de um governo revolucionário. Foi neste contexto que, percebendo a necessidade de uma força dirigente mais decidida e absolutamente autónoma, ainda em Dezembro de 1918 fundaram o Partido Comunista da Alemanha (KPD). Durante o congresso de fundação, decidiu-se não participar nas eleições gerais previstas para Janeiro de 1919 e não colaborar com os sindicatos, alinhados com as posições dos social-democratas. A principal palavra de ordem dos espartaquistas tornou-se nessa altura «todo o poder aos conselhos de operários e de soldados», exprimindo uma clara confiança na capacidade transformadora das massas em movimento.

Em Janeiro de 1919 teve então lugar a chamada Semana Vermelha: um conjunto de greves gerais sucessivas, de carácter insurreccional, vinha pondo o governo do SPD em cheque. Iniciado em Berlim, o movimento estender-se-ia rapidamente à Baviera, a Hamburgo, a Munique, à Saxónia, ao Sarre e a Bremen, onde chegou mesmo a ser proclamada uma república soviética. Sob o espectro de uma repetição do exemplo russo, foi então organizada a repressão por forças do exército e por voluntários monárquicos, chefiados pelo social-democrata Gustav Noske. Em 15 de Janeiro de 1919, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, que se haviam entretanto refugiado em casas de amigos, foram capturados e assassinados por elementos voluntários paramilitares dos Freikorps, e os seus cadáveres abandonados, deixando o movimento sem direcção e acelerando a sua derrota. Os espartaquistas foram então sistematicamente detidos ou forçados a entrar na clandestinidade, a sua imprensa foi totalmente proibida, enquanto várias divisões internas os enfraqueciam em definitivo. Em 7 de Abril de 1919 foi ainda proclamada a República dos Conselhos da Baviera, que durou cerca de um mês, mas a revolução alemã fracassara. Na peça, a Canção do Bêbedo ecoa como reconhecimento e admissão da derrota: «Os meus irmãos mortos estão, mortos estão, / e eu por um triz que estou inteiro / Em Novembro fui vermelho, fui vermelho, / mas agora é já Janeiro.»

Tambores na Noite é também sobre este day after. Quando o fragor da gritaria e dos tiros se dissipara e já nem ecos deles podiam ser ouvidos, quando não sobrava mais que o silêncio, um sentimento de vazio, uma revolta agora apenas interiorizada, quanto muito transformada em raiva ou desespero. No momento em que Kragler escolhe abandonar os seus camaradas, essa «autêntica escumalha que teme a luz do dia» da qual falava o jornalista Babusch, e, contra a revolução na qual acreditara, decide voltar para junto dos burgueses e deitar-se na «grande cama, branca e larga» com a sua noiva, sinaliza uma atitude ainda mais triste: a de quem já nem ira sente, apenas desejando participar na realidade concreta de uma ordem burguesa recomposta. «Portanto bebam e fechem a porta e não deixem entrar o vento, o vento que também tem frio, ponham mas é a tranca na porta!» Triste desenlace que, já numa diferente atitude de militância, Brecht moderará na leitura autocrítica do texto original que fez quando completou a versão de 1953 dos Tambores na Noite. Mas entre 1919 e 1920, quando o escreveu, BB, o futuro militante, o agitador pela arte, o épico, ainda não existia. Como confessará, nessa altura o «outro» Brecht ainda procurava acima de tudo sobreviver.

Rui Bebiano

Publicado no Manuel de Leitura de Tambores na Noite, de Bertolt Brecht. Encenação de Nuno Carinhas. No Teatro Nacional São João do Porto até 26 de Abril.

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