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Em artigo recente na Folha de São Paulo, sob o título de Ciência e Moralidade, o físico Marcelo Gleiser escreveu que “no início do século XXI, a clonagem e a possibilidade de construirmos máquinas inteligentes prometem até mesmo uma redefinição do que significa ser humano. Na medida em que será possível desenhar geneticamente um indivíduo ou modificar a sua capacidade mental por meio de implantes eletrónicos, onde ficará a linha divisória entre homem e máquina, entre o vivo e o robotizado?...”, e mais adiante, ao fim, “no futuro não muito distante, teremos de lidar com o que significa ter uma máquina que pensa...”. Importa-nos por ora o que transcende, no citado artigo, o mundo das ciências que se chamavam de exactas. Frequentes vezes, e tão frequentes que de um ponto de vista estatístico poderíamos dizer sempre, cientistas fracassam quando tentam ir mais longe do que lhes autoriza o seu trabalho em áreas especializadas. Nem é preciso lembrar Laplace, que ao fim de uma demonstração matemática concluiu que Deus existe. Bastaria lembrar a concepção em voga no início do século XX de que nada mais havia a descobrir no mundo da física. Foi preciso que um filósofo lhes puxasse as orelhas, ao expor o luminoso pensamento de que “a realidade é inesgotável”. Puxão que pareceria de um bruxo, de tal maneira as descobertas posteriores só vieram e vêm a comprovar o seu acerto, se não se fundasse em algo mais histórico, portanto mais humano, do que as limitadas relações de factos pesquisados. O espaço breve deste artigo, para não dizer a (in)competência intelectual de quem lhes fala, impede o aprofundamento da exposição dos erros da ciência física que ambiciona a totalidade. De passagem, anotemos que poetas, escritores, têm por vezes sido mais brilhantes descobridores que os próprios cientistas. A passagem não-linear do tempo, por exemplo, a retomada de acontecimentos idos sem que se entre numa artificial e artificiosa máquina do tempo, encontrou a sua acabada expressão no romance de Marcel Proust. A fina lâmina que separa o prazer do sofrimento, verso de um soneto de Shakespeare, antecipa em séculos o conhecimento da acção das drogas sobre um dependente. A Metamorfose, de Kafka, é mais eloquente, e eterna, que o melhor tratado sobre relações familiares, ao narrar o trato que a família dá aos seus excluídos. Goethe, em Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, alcança as modernas teorias pedagógicas, ao realizar um romance que é uma teoria do conhecimento encarnada. (“Não é obrigação do educador de homens preservá-los do erro, mas orientar o errado; a sabedoria dos mestres está em deixar que o errado sorva de taças repletas o seu erro”). Diríamos que os exemplos se sucedem até ao infinito, se a palavra infinito não trouxesse um cheiro de sucessão numérica. Digamos então: esses exemplos, recuperados ao acaso na lembrança, já não insinuam que melhor acertam os criadores das artes porque não amesquinham o objecto que estudam? Dizendo de outra maneira: incorre também em amesquinhamento, portanto em erro flagrante, o cientista que eleva coisas à altura do homem. E esta crítica que fazemos não é um simples imperativo moral. Ou um bater de pés birrento para berrar contra o que por força vem. Esta crítica, permitam o abuso da palavra, é ciência. Pois o que viria a ser uma “máquina pensante”? – Ora, aquela máquina que raciocinasse, que tomasse decisões, conversasse, e escrevesse ela própria este artigo. Isto significa que essa máquina relacionaria factos da sua própria história, perdão, queremos dizer, organizaria os dados gravados na sua memória, perdão, queremos dizer, ordenaria dados no seu arquivo, e desses dados arquivados tiraria conclusões, perdão, geraria um novo dado que não estava gravado, e desse novo produziria acções, perdão, optaria, perdão, daria manifestação absolutamente imprevisível, vale a pena dizer, manifestaria o que não estava programado. Ou seja, a máquina pensante é um produto que se autoconstrói, que se faz a si mesma. Vale dizer, ainda, a máquina pensante é, ela própria, uma criadora de outra máquina. E essa reprodução não é aquela de dois espelhos frente à frente. Ela reproduzir-se-ia melhor do que se produziu, mas à margem da história, das relações com o ambiente físico: ela seria um abstrato ideal numa sala ideal, sala solta, suspensa, num espaço tão ideal que se tornaria vazio. Compreendam, isto não é um paradoxo. Isto é uma abstração oca do conhecimento do fenómeno humano. Lembra uma projeção bárbara. À antiga divinização do homem, ao presente antropomorfismo dos deuses, põe-se no seu lugar a espera de uma humanização dos circuitos integrados. É qualquer coisa mais que bárbaro. Lá no fim do seu artigo, o professor Marcelo concede, ao escrever, “no futuro não muito distante, teremos de lidar com o que significa ter uma máquina que pensa ou, mais realisticamente, uma máquina tão veloz que simula o pensamento.”. Esta é a concessão de quem antes esperou tudo, de quem esperou o impossível, mas agora se satisfaz com o que lhe parece razoável. Concede em receber, em lugar da máquina realmente pensante, uma simulação, querendo dizer uma imitação de pensamento. Se fosse possível uma evolução das máquinas, se pensarmos nas máquinas desde a maquininha de calcular de Pascal, a coisa mais natural, perdão, a coisa mais maquinal seria um inteligentíssimo microcomputador que usasse todos nós, idiotas humanos, para executar as aborrecidas tarefas de somar, multiplicar e dividir números. Vale a pena dizer, alcançaríamos uma inversão anedótica. Mas no reino das possibilidades que se materializam, existem problemas, se não me engano, em razão de falhas dos meus próprios circuitos. Em poucas palavras, queremos dizer: o que seria essa imitação do pensamento? Executar operações maçadoras, trabalhosas, que exigem tempo sem acrescentar um mínimo de criação à tarefa? – Não, isto já se faz, e nem em pensamento poderia ser um. O quê, então? Para não cair numa enfiada retórica, numa imitação miserável de Vieira, imaginemos o que seria a máquina de imitar pensamentos: ela seria aquela que imitasse a reflexão, o voltar ao passado, para dele extrair, ver o que antes não vira, concluir, antever, criar e criar-se. Sentimos, neste passo, que descrevemos acções do pensamento apenas, mas a própria natureza da imitação ainda não. Apenas descrevemos o modelo a ser copiado. Seria algo que reproduzisse o já feito? Não falo de fotografia, falo de algo que reproduzisse o processo de “fabricar” a Mona Lisa. Seria isto? Permitam: um clone de Da Vinci em chips coordenados e autónomos? Perdão, pois a nossa intenção não é a de fazer rir. Sejamos então mais primários: deveríamos ter um objecto que reproduzisse o processo de a partir de duas informações conhecidas gerar uma terceira, até então desconhecida. Mas isto ainda não é o reproduzir, porque seria uma coordenação típica do pensamento. Então regressemos: a imitação do pensamento, para ser imitação, seria a reprodução de processos realizados fora da máquina. Mas para que isto se desse, é imperioso que conhecêssemos antes como, de que forma, isto se dá. Teríamos portanto que estudar mais o homem, no governo do homem, para o homem e pelo homem. E para isto jamais seremos, como espécie, obsoletos. Somos imprescindíveis para a nossa superação, para nós mesmos. Somente para o amesquinhamento somos dispensáveis. Urariano Mota é escritor, autor do romance Os Corações Futuristas Jul.02 entrada | opinião | leituras | artes | plural | abc | arquivo |