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Uma assembleia por uma língua
[Vítor Meirinho]

A Assembleia da Língua (A.L.) nasceu em Santiago de Compostela como plataforma aberta de ação – segundo diz o seu primeiro comunicado – "com o intuito de coordenar esforços de pessoas e colectivos para activar socialmente uma ampla concepção galego-portuguesa da língua e da cultura". Para uma pessoa que desconheça o que se passou e se passa na Galiza, o significado profundo desta declaração pode ficar desapercebido, pois precisa ainda uma olhada sobre os seus factos históricos e presentes.

Quando Portugal iniciou a sua história como reino independente, a Galiza do norte continou a viver a sua história com o reino de Castela, o que mais tarde acabaria formando o Reino da Espanha. A língua comum que possuiam (e que, apesar de tudo, continuam a possuir) os portugueses e os galegos seguiu, destarte, caminhos diferentes. Enquanto em Portugal ela foi a língua de todas as classes, da escrita e de todos os atos de comunicação, na Galiza foi o veículo de expressão de uma maioria silenciosa, confinada nos espaços privados da familiaridade e da amizade. Como tantas línguas na Europa que vivem sob o teito da língua oficial do estado, o português da Galiza, sendo a língua da população, não foi a língua da escola, nem da liturgia, nem dos meios de comunicação social. Os galegos, marcados pela maquinal razão de Estado, escreviam uma língua que não sabiam falar e falavam uma língua que não sabiam escrever.

A língua portuguesa durou até hoje na Galiza. Quem escreve este artigo aprendeu-a da boca dos seus pais, dos amigos deles, dos vizinhos, nas ruas da cidade e da aldeia onde morou. Mas durante a sua infância nunca a falou, como também a não falavam os seus amigos, que também aprendiam, ouvindo-a dos seus pais, a língua que estes, entretanto, se recusavam a transmitir-lhes. Sendo eu um meninho falante de castelhano acreditava ingenuamente que a diferença que via no falar da geração dos meninhos urbanos e dos adultos era uma questão biológica e que quando eu fosse maior e envelhecesse também deixaria de pronunciar o n no meio das palavras, e diria irmão na vez de hermano, e que diria o na vez de el; o leite na vez de la leche... A língua dos adultos, destarte, transmitir-se-ia a nós como eu pensava que se tinha transmitido para eles.

Mas quando fomos à escola soubemos lá que a língua falada pelos nossos pais estava a desaparecer. As circunstâncias sociopolíticas faziam com a língua da Galiza, em contato com o castelhano, estivesse a recuar perante este. Explicitaram-se-nos então explicitados os motivos pelos quais uma sociedade troca a sua língua quando não se quer reconhecer a si própria, e soubemos que as diferenças entre o falar dos novos e o falar dos adultos eram tão naturais quanto natural é o sistema fiscal que sustenta os entes políticos, ou quanto são os cárceres em que em que estes encerram os seus diferentes.

Mas que é que falam os galegos? O que neste artigo chamamos de português da Galiza era, para a ideologia transmitida pela escola, a "língua galega", uma outra cousa afastada do português e diferente dele, embora ambas línguas estivessem vinculadas por um passado comum. A visão que nos transmitiam (e que seguem hoje a transmitir) da "língua galega" era a de ser uma língua pouco útil, mas gostosa e sobretudo nossa. "Nossa" é o eterno possessivo invocado quando não se pode apelar a um outro atractivo próprio, mas o "nossa" da língua galega não era (não é) como os demais possessivos. Não era o carácter nosso o que nos dava existência completa; não era o nosso desde onde olhamos para o exterior, porque esse "nosso" vivido quotidianamente era um possessivo no qual se afirmava uma língua que por ser particular e íntima já não podia ser real no dia-a-dia atual. O galego, de tão nosso e gostoso, devia ser defendido nos seus âmbitos específicos: teria o seu lugar a defender só nos museus vivos das faculdades de letras, nos livros de dialetologia arcaica, nas liturgias políticas e no imaginário simbólico de um povo que não viveu em florestas mitificadas nem adorou deuses africanos, mas invocou os seus mortos numa língua românica antropologicamente única.

Há jovens que gostam de imaginar a língua dos seus pais sustida com uma certa saudade moribunda, outros nem sequer ligam para ela. A nenhuma dessas duas categorias pertencia um amigo que me mostrou um facto até então para mim desconhecido: se pegávamos num texto escrito em português e escrevíamos esse mesmo português com ortografia castelhana resultava, com leves variações, aquilo que a escola e a administração nos fazem ver como "língua galega", diferente da portuguesa. Qualquer "tradução" de um poema galego para português (vide "Noite azul de silencio / esquina de sí mesma / ouvida polas amables [amáveis] / galerías da lúa. / Ninguén pensa a lonxana [distante] / melancolía morna / dos espellos de loito [luto] / dos teus ollos primeiros.")(1), havia de ser feita deixando as mesmas palavras escritas, mas com a sua ortografia modificada e salvando uns poucos castelhanismos. Todavia por que a escrita promovia o mascaramento da semelhança linguística que isto evidenciava? Que se queria dizer ou fazer com isso? E que significaria o facto de a legalidade não impor uma ortografia oficial para o galego-português na comunidade autónoma galega, fora de certos âmbitos, e ser contudo uma só ortografia, a castelhana, a imposta realmente, mergulhando-se os sustentadores da ortografia portuguesa num forçado silêncio?

As respostas destas perguntas levam para os objetivos da Assembleia da Língua. Queremos ter o direito de acedermos àquilo que podemos ter por sermos nós próprios. É o simples direito das pessoas a se desenvolverem plenamente no seu idioma. Sabemos que a nossa língua existe fora da Galiza nas ondas de tevê, nos jornais, nos livros, nas instituições internacionais… Os nossos pais e avós não o souberam, porque lhes foi oculto; nós sabemo-lo e queremos, já, poder ser nós próprios todo o dia. Não apenas na intimidade, nem em limitados exercícios de antropologia revivida. Sabemos que o português, além de ser nosso, é útil.

Sabemos que apenas se efectivará o direito de nos desenvolver plenamente na língua que falamos - o que é um direito básico universal - dentro da comunidade lusófona, pois só integrados a ela podemos contar com todos os materiais de que carecemos. Não será difícil compreender as diferentes perspectivas de êxito que tem uma política linguística que conta com estes meios de outra que os não tem. E pelo mesmo motivo, não será difícil imaginar que opção linguística defendem os partidários factuais da extinção da língua dos galegos. Mas nenhum objetivo social ou político pode chamar-se de justo se vai em contra do direito das pessoas a falarem a sua língua. E o discurso da globalidade e da queda de fronteiras, hoje imperante no mundo, casa mal com o mascaramento das realidades vivas que põem as pessoas em relação entre si, capacitando-as para transcenderem os seus isolamentos.

(1) Álvaro Cunqueiro, "Noivado IV", em Poemas do si e do non.

Jun.02


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