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Depois do tempo dos Titãs
[Carlos Leone]

A Filosofia da Técnica tem uma importância ambígua, por motivos que aqui apenas se referem: primeiro, o facto de ser recente; segundo, a sua aparente menor relevância quando cotejada com a Sociologia ou a História da Técnica, supostamente mais práticas; por fim, a sua tendência, comum a outras disciplinas filosóficas recentes (como a hermenêutica, p. ex.) para se deixar - ou mesmo querer - subsumir noutras disciplinas mais antigas e imponentes, maxime metafísica. Para evitar estes escolhos, pode ser útil pensar a técnica a partir de textos não-filosóficos. Como um ensaio de George Orwell, intitulado «Poetry and the Microphone»(1), escrito em 1943 e publicado em 1945.


I. A técnica e a sua naturalidade

Orwell fala neste texto da sua experiência na rádio da BBC durante a II Guerra Mundial, referindo-se a uma emissão de meia-hora de duração dedicada a leitura e comentário de poesia inglesa contemporânea (ou quase). Este programa visava atingir apenas uns poucos milhares de ouvintes, maioritariamente estudantes universitários indianos usualmente hostis a qualquer propaganda pró-inglesa, por se considerar que este público era estratégico não só no prazo imediato mas também para o futuro da presença inglesa na Índia. Cada emissão tinha o seu tema próprio, sendo que o próprio programa tinha uma estrutura de leitura e discussão de poemas muito simples e servia-se de expedientes elementares (ainda hoje em uso, as «cortinas») para sonorizar toda a conversa e leitura. Na sua prosa exemplar, Orwell descreve tudo isto nos três primeiros parágrafos, introdutórios.

Só quando (p. 240) é feita a observação da utilidade eventual deste tipo de programas para popularizar a poesia chega Orwell ao seu tema e, com ele, nós que nos interessamos por filosofia da técnica. Segundo Orwell, a leitura radiofónica de um poema não afecta só a percepção que o público tem da poesia mas também a percepção do próprio poeta; será este ponto que interessa para o ensaio e para nós. Desde logo, encontramos uma constatação familiar: «É um lugar comum dizer-se que nos tempos modernos - digamos, nos últimos duzentos anos - a poesia perdeu gradualmente a conexão que tinha com a música e com a palavra falada. Precisa da impressão para chegar à existência, e não se espera de um poeta que, enquanto tal, ele saiba como cantar ou sequer declamar, tal como não se espera que um arquitecto saiba estucar um tecto. A poesia lírica e retórica quase deixaram de existir e é já dada por adquirida uma hostilidade por parte do homem comum relativamente à poesia em qualquer país em que todos saibam ler. E onde tal abismo existe é sempre sua tendência aumentar, pois o conceito de poesia como algo originariamente impresso e inteligível apenas para uma minoria, encoraja a obscuridade e a 'esperteza'.» (pp. 240/1) Aqui interrompo a leitura e noto que em Portugal a perda do lirismo é mais recente (a partir dos anos 50 e 60) e que, talvez também por isso, a hostilidade mencionada não é tão nítida: o poeta mantém uma «aura», aliás procurada por multidões de versejadores, embora esta seja atribuída quase sempre a mortos - veja-se o caso dos poetas do Orpheu - e só muito recentemente, com a nossa versão anãzinha da sociedade do espectáculo, aos vivos (ainda que nestes muitas vezes haja motivos políticos e pessoais envolvidos, ao que não será estranho a deriva profissional de tantos poetas para o ensino universitário(2)).

Este cenário sombrio pode, crê Orwell, ser alterado através da difusão radiofónica regular de poesia. E acrescenta: «Mas a vantagem especial da rádio, o seu poder para seleccionar a audiência certa, e remover a timidez e o medo do palco, deve ser notado.» (p. 241)

É esta a naturalidade da técnica (e muito do pensamento «prometeico» sobre a técnica (3) passa por aqui): pela rádio, uma audiência até pode ser de milhões que, em termos práticos, cada ouvinte escuta individualmente, num recolhimento impossível, por exemplo, num comício e, portanto, sente a poesia como sendo lida para si. Caso não a queira escutar, basta mudar de posto, logo, é de presumir uma disponibilidade de quem escuta tanto mais conveniente quanto o poeta não a sente, isto é, não fica sob o efeito da reacção do seu público, para ele invisível, ao contrário do que sucede numa leitura pública no sentido usual do termo. Orwell lembra o modo como o público influencia sempre o orador, e fá-lo de um modo brilhante(4); e de seguida salienta que na rádio essa influência não existe pois o poeta sente (sic) que se dirige a um público interessado e desse modo trabalha a sua poesia como som e não como mancha gráfica, reconciliando em alguma medida a poesia com o homem comum.

Hoje sabemos ainda mais (o que não significa melhor) sobre isto: toda a pressa em colocar online as bibliotecas, em editar em video, cdrom, dvd, etc, os «conteúdos» culturais mais eruditos decorre da consciência da justeza desta tese - mas a poesia, especialmente a recente, permanece circunscrita ao papel, com edições de luxo cada vez mais frequentes que só a marginalizam mais do grande público. Esta preocupação com novas formas de socialização da arte e, em particular da Literatura, revela ainda como o papel prometeico da técnica e da tecnologia são intensos, ainda que nem sempre de forma consciente: tal como estranhamos quando a luz não acende e tentamos ignorar as notícias inquietantes sobre as radiações dos telemóveis, pressupomos sempre que o que é novo na técnica é capaz de gerar novas formas de sociabilidade, isto é, de transmissão geracional de património cultural estabelecido. Mas mesmo estas observações são derivadas - na verdade, para darmos tudo isto por adquirido, nem pensamos que o uso corrente de electricidade nada tem de natural, é muito recente e ainda não universal.


II.
A técnica sobre as artes

Orwell é claro quanto ao problema específico da poesia: «Não pode haver qualquer dúvida que, na nossa civilização, a poesia é de longe a mais desacreditada das artes, a única arte, com efeito, na qual o homem comum se recusa a discernir qualquer valor.» (p. 242) Este parece-me ser um juízo demasiado grave quer para a poesia quer para o homem comum, mas a perda da função social da poesia é já de há muito tempo visível e nota-se desde logo na afirmação do romance como género literário moderno; recentemente, um grupo de laureados Nobel elegeu como obra-prima da Literatura Universal o Quixote de Cervantes e não qualquer obra de Homero ou Virgílio, Dante ou Goethe, Milton ou Pessoa. Podemos lamentar o facto, mas ele persiste, tal como a técnica persiste na sua evolução apesar das elucubrações sobre o seu efeito na escrita, seja na forma de máquina de escrever seja na de processador de texto. Mais relevante é perceber que na vida moderna a função social da arte não se processa pelos meios tradicionais (a oralidade) mas por meios técnicos, os meios de comunicação social, de comunicação de massas, de informática. Não que tudo o que se faça nesses meios seja arte, há mesmo imensa «ciberarte» que não passa do registo de videojogos, ou nem isso, sendo nada mais que entretenimento. Mas, independentemente de juízos concretos específicos, subsiste a miscigenação do papel social da arte com as funções sociais da comunicação técnica e isto nãos e resolve com usos retóricos da interrogação de Adorno sobre a possibilidade da poesia depois de Auschwitz(5). É disso que Orwell fala com uma antecipação notável, ainda que até hoje não comprovada nos seus efeitos.

Pouco depois (na mesma página), Orwell acrescenta: «Vale a pena determo-nos para reflectir sobre se, por conseguinte, não será possível mesmo agora resgatar a poesia da sua posição especial de a mais odiada das artes e conseguir para ela pelo menos o mesmo grau de tolerância que existe para a música.» De seguida, Orwell entende ser necessário começar por perguntar de que modo e até que ponto é a poesia impopular, o que é metodologicamente correcto mas, para nós, leitores de 2002, merece um pequeno comentário. Nem George Orwell nem ninguém podia prever a mutação única produzida em grande medida pela técnica (com a electrificação dos instrumentos) e pelo modo de vida urbano exponenciado pela técnica que logo a partir da década de 1950 sofreria a mais universal e poderosa das artes, a música. Não é preciso ser schopenhaueriano para reconhecer à música uma expressividade, imediatez e sugestividade superiores a qualquer outra forma de arte (ainda que boa poesia seja melhor do que má música, claro). Ora, essa mutação ocorreu na sua forma mais nítida e generalizada no domínio da música popular, de cujas várias raízes, desde a música de coreto até aos cantos das igrejas baptista do sul dos EUA, saiu aquilo que ganhou o nome de rock e que entretanto albergou em si inumeráveis tendências e variantes. Este acontecimento, com toda a probabilidade o acontecimento cultural central do século XX, marca não só a História da Música mas também o da influência da técnica sobre a vida quotidiana das pessoas, no modo de criação, difusão, recepção e relação afectiva e intelectual com a música no seu todo, enquanto forma de arte maior. Que essa mutação inclua uma reabilitação de uma arte poética que Orwell já declarara moribunda (o lirismo) é fácil de perceber por algo que lemos de seguida: da sua experiência já não como autor mas como ouvinte de canções patrióticas na BBC, Orwell nota que o público nada tem contra a 'boa má' poesia, isto é, aquele versejar que pretende entreter através do recurso à rima e à métrica sem incorrer em poetar: «A poesia não é apreciada por estar associada a ininteligibilidade, pretenciosismo intelectual e um sentimento geral de Domingo-num-dia-de-semana. O seu nome cria o mesmo tipo de má impressão que a palavra 'Deus' (…)» (p. 243). E, então, sugere: «Se a poesia pudesse ser introduzida no grande público de tal modo que a fizesse parecer normal, como aquelas porcarias que acabei de ouvir presumivelmente parecem normais, então parte do preconceito contra ela pode ser superado.» de facto, foi isso que o rock, desde os anos 50 fez: boa má poesia (e, ocasionalmente, poesia de eleição) capaz de ficar no ouvido do público e integrar a vida de milhares de milhões de pessoas de todas as culturas como algo normal, normalmente bom. Mesmo se o lirismo de quase todas as letras é primário, a guitarra eléctrica compensa (6).

Naturalmente, não falta a consciência das dificuldades, pelo que Orweel menciona a ideia de T.S. Eliot de popularizar a poesia, em especial a poesia dramática, através do music hall; Orwell prefere a rádio pelo tipo de anonimato que permite ao próprio poeta brilhar, mas reconhece que a própria técnica envolve uma dificuldade relacionada com a percepção que o público tem dela, a saber, estar identificada com porcarias irrelevantes. Também nós temos experiência disto, a pretexto do serviço público de TV e, do mesmo modo que, segundo Orwell, a própria ideia de rádio remetia para ditadores e para locutores de vozes melosas, também para nós a TV é concursos e notícias sobre 'casos da vida'(7). Ainda assim, o estado da arte não deve obscurecer as potencialidaes futuras, e Orwell vê na necessidade, mesmo para indústrias como a do rádio e a do cinema, dominadas por governos e por grandes empresas (cuja lógica burocrática é comum, «tendo por fim destruir o artista ou, pelo menos castrá-lo», como se lê na p. 244), são necessários criadores especializados nos meios necessários para a criação (em rádio, cinema, acrescentemos a TV, etc.), criação não só intelectual mas também técnica, uma inevitabilidade em «todas as outras artes e meias-artes de que um Estado moderno complexo necessita» (p. 245). Logo, antecipa, como os criadores necessitam de um mínimo de liberdade para poderem trabalhar, tenderá sempre a surgir filmes e programas totalmente inadequados do ponto de vista burocrático e, entre eles, a poesia poderá adquirir o seu espaço. Este hipótese não é tida por Orwell como uma inevitabilidade, ele não era propriamente aquilo a que se convencionou chamar um «marxista vulgar»; na verdade, ao concluir o seu ensaio, lembra apenas que a burocracia da rádio, que acompanhou o surgimento desta, nunca pensou nesta eventualidade e que por isso existe pelo menos a hipótese de, no futuro, a rádio não ser associada de imediato à voz do Dr. Goebbels. Nisso não se enganou, felizmente(8), e é por esta hipótese optimista, prometeica, que termino.

O optimismo com que no século XIX e ainda no século XX se falava e escrevia sobre a superioridade de umas civilizações sobre outras perdeu-se justamente na Guerra durante a qual escreveu este ensaio que comentei. E o papel da técnica durante essa guerra foi desconcertante no seu efeito sobre a boa consciência europeia: a destruição generalizada, o genocídio organizado, a racionalidade da acção militar, e, por fim, a arma atómica causaram na filosofia europeia uma crise de identidade. Esta não foi única, como a referência de Adorno à poesia sugere; mas que tenha sido Adorno a fazer a célebre pergunta e que a filosofia da técnica se tenha desenvolvido, tal como os seus subcampos (ecologia, bioética), no pós-guerra, de início debaixo do manto legitimador da antropologia existencialista e, pouco depois, autonomamente, permite perguntar, hoje, se o prometeanismo em que tanto do nosso inconsciente colectivo relativamente à técnica se funda, não é hoje risível. Depois de séculos de contactos da Europa com o seu exterior, da América do Sul (Padre António Vieira, Frei Bartolomeu de las Casas) à China (Leibniz, os Iluministas), sem que as crises de consciência alterassem demasiado os usos ocidentais (veja-se a chacina da «nação índia» da América do Norte no século XIX), não terá sido o poder da técnica a desequilibrar a matriz politica da Europa, fundada na tensão entre etnias e religiões, de um modo literalmente irreversível? A ser assim, a filosofia da técnica será já hoje a herdeira da política, da ética, da antropologia e, com todos os equívocos que o termo sempre causa, da ontologia. Um nova mitologia?

Évora, 11 de Junho, 2002

(1) Orwell, G. (2000), Essays, Penguin, Londres.

(2) E temos ainda as polémicas regulares, sobretudo no Verão, sobre literatura: em 2001, as vítimas foram Camões e Eça. Estas ocasiões constituem o folclore do género, mas merecem atenção.

(3) Sobre este termo e a sua relação com o pensamento «fáustico», cf. Martins, H. (1997), Hegel, Texas e outros ensaios de teoria social, Século XXI, Lisboa (espec. Parte III). Para uma panorâmica geral dos textos de Martins sobre este tema, cf. Leone, C. (2001), «Axiologia Tecnológica», in EPISTEME, nº7-8-9 (2001), ed. Univ. Técnica de Lisboa, Lisboa, pp.107-122. Notar sobretudo a distinção entre "erro" e "incerteza".

(4) Sobre conferências e leituras públicas, ver o texto de Fernando Castro Flórez in Zentralpark, nº2, Angelus Novus, Coimbra-Braga, 2000 (pp. 24-28).

(5) A este respeito, uma entrevista invulgarmente feliz a Manuel Gusmão, poeta e professor de Literatura na UL, foi publicada no último número da revista Ler (nº 54).

(6) Sobre a estética do Rock, ler Bruce Baugh in Zentralpark nº1, 1999, id, ibid, pp. 41-50.

(7) Sobre os mass media em geral e o pdoer na palavra dele face às imagens, já escrevi eu: Leone, C. (2000), «Retórica e Oratória nos Media», in Ribeiro Ferreira, J. (org.) (2000), Actas do congresso «A Retórica Greco-Latina e a sua Perenidade» (Univ. Coimbra, 1997), ed. Fund. Eugénio de Almeida, 2000 (vol. II, pp. 873-877).

(8) Alguns exemplos de rádio a estudar podem ser: Berlin, I. (1999), The Roots of Romanticism, Chattus & Windus, Londres (ed. com CD que contém a leitura radiofónica por Berlin de um dos seus ensaios); Lourenço, M. S. (org.) (1995), A cultura da subtileza, ed. Gradiva, Lisboa; Zeldin, Th. (1998), Conversation, The Harvill Press, Londres (trad. port., Elogio da Conversa, Gradiva, Lisboa, 2000).

Jun.02


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