Propõe-se
comummente que o cristianismo possui uma mensagem social revolucionária.
Em geral, aponta-se o carácter comunitário, se não
comunista, da Igreja Primitiva como a mais perfeita expressão
daquela mensagem radical. Quase do senso comum, essas propostas não
possuem uma base histórica objectiva.
Dois séculos antes do nascimento de Jesus, o esclavagismo pequeno-mercantil
iniciava o seu domínio sobre o mundo romano e, apenas dois
século após a sua morte, entrava em crise para, a seguir,
ser superado pelas relações feudais de exploração.
Na Antiguidade, o escasso desenvolvimento das formas de existência
social levava a que a religião fizesse parte da tomada de consciência
do homem acerca da natureza e da sociedade. O messias esperado pelos
judeus era também e sobretudo o líder carismático
que libertaria Israel do tacão romano.
A essência das religiões determina-se por sua posição
objectiva diante das contradições sociais. No Mundo
Antigo, tudo o que fortalecia a luta dos cativos contra a ordem esclavagista
assumia uma essência progressista. E, portanto, tudo que contribuía
para o fortalecimento daquele modo de exploração possuía
força contra-revolucionária.
Centuriões e torturados
Também a história da Antiguidade se sintetiza na história
da luta entre amos e cativos. Foi efectivamente a incessante oposição
do escravo à escravidão que lhe abriu caminho à
servidão da gleba e, a seguir, à emancipação
pessoal do produtor feudal, processos luminares no esforço
milenar do trabalhador pela sua superação social.
Na Antiguidade e no Mundo Feudal, a Igreja Primitiva, a Igreja Romana
e a Igreja Feudal estiveram de forma irretorquível ao lado
da ordem esclavagista. Definitivamente, o cristianismo construiu-se
como visão de mundo dos centuriões e jamais dos torturados.
Em carta aos Corintos, o apóstolo Paulo pronunciou-se pela
escravidão e servidão voluntária: "Que cada
um permaneça no estado em que foi chamado. Tu que foste chamado
sendo escravo, não te preocupes [...]; [...] mesmo quando possas
recobrar tua liberdade, ao contrário, aproveita teu estado
de servidão, porque aquele que foi chamado sendo escravo é
um alforriado do Senhor [...]."
Em epístola aos Efésios, assumiu o papel de feitor virtual,
defendendo a dedicação do servo ao trabalho, mesmo longe
dos olhos do amo. "Escravos, obedeçam a seus senhores
terrenos com respeito e temor, com sinceridade de corações,
como a Cristo. Obedeçam-lhes não apenas para agradá-los
quando eles os observam, mas como escravos de Cristo, fazendo de coração
a vontade de Deus [...]."
Em carta a Filemon, Paulo foi igualmente claro a propósito
da resistência do cativo. Quando o escravo Onésimo resolveu
fugir e teve a má idéia de se refugiar na casa do patriarca,
o apóstolo devolveu-o sem dó ao dono, após convertê-lo
ao cristianismo, aconselhando o amo a ser benévolo para com
o fugitivo, já que era agora um irmão em Cristo!
Deus dos esclavagistas
O apoio indiscutível à ordem esclavagista e o seu rompimento
com o etnicismo e nacionalismo judaico permitiram que o cristianismo
se transformasse na religião oficial do Império Romano,
ordem de vocação mundial assente sobretudo
na exploração do trabalhador escravizado.
Entre os medievalistas, hoje não há mais dúvida
sobre o prosseguimento na Europa das relações esclavagistas,
como produção subordinada, até os anos mil, quando
já dominavam plenamente as relações feudais de
dominação. Também nessas épocas foi incondicional
a adesão da Igreja ao esclavagismo.
A Igreja feudal continuou a proclamar a igualdade espiritual dos homens
no reino de deus e a desigualdade nos reinos da terra. Para ela, a
servidão material fora criada e querida pelos céus.
A carta do apóstolo Paulo ao esclavagista Filemón justificou
a negativa eclesiástica do direito de refúgio das igrejas
e monastérios aos cativos e a imposição da obrigação
de devolver o fugitivo ao senhor.
A Igreja pôs seu poder espiritual a serviço da subjugação
do escravo. Em Viagem ao fundo das consciências: a escravatura
na época moderna, Maria do Rosário Pimentel lembra:
"No concílio de Granges, no ano de 324, a Igreja definiu
claramente a sua posição ao pôr sob pena de excomunhão,
todo aquele que por piedade induzisse um escravo a fugir, a desprezar
o seu senhor ou, simplesmente, a não o servir respeitosamente
de boa vontade."
Pobre escravo, rica Igreja
A Igreja apoiou e locupletou-se com o trabalho servil. Ela foi uma
das grandes exploradoras de cativos dos tempos medievais. Na Espanha,
paróquia que possuísse dez escravos era tida por pauperrima.
A tal ponto assentou a Igreja a sua riqueza e poder no cativo que
os concílios proibiram que abades e bispos o emancipassem.
O servus era propriedade da Igreja e, portanto, de deus.
A ninguém se permitia diminuir o património divino!
Santo Agostinho [354-430] ampliou a filiação cristã
da escravidão ao justificar a instituição como
expiação, em geral, do pecado original e, em particular,
como registro-pena de culpa individual, querida por deus. Ninguém
seria escravo injustamente. "A causa primeira da escravidão
é o pecado que submeteu o homem ao jugo do homem e isso não
se realizou sem a vontade de deus que desconhece a iniquidade e soube
repartir as penas como pagamento dos culpados."
Castigo divino
Santo Isidoro de Sevilha [c. 560-636] solucionou as contradições
da lição agustiniana, já que a explicação
da escravidão como decorrência do pecado original questionava
a função absolutória do baptismo. Para ele, a
escravidão era pena e redenção imposta àqueles
homens que, por sua maldade, não possuíam condições
de viver livres. A eles, deus concedera a misericórdia de pertencerem
a um amo, as suas consciências vivas nesse mundo terráqueo.
Dizia o padre piedoso: "Devido ao pecado do primeiro homem, Deus
infligiu a pena da servidão ao género humano: àqueles
aos quais não convém a liberdade, concedeu-lhes misericordiosamente
a servidão. E, mesmo sendo o pecado original lavado para todos
os fiéis pela graça do baptismo, não obstante,
Deus, o justo, repartiu entre os homens dois géneros de vida
distintos, fazendo que uns sejam escravos e outros amos, de maneira
que a tendência dos escravos a fazer o mal seja refreada pelos
seus amos." Assim, retomava a lição aristotélica
de imperfeição essencial do escravo.
Em Del esclavismo al feudalismo en Europa Occidental, o medievalista
francês Pierre Bonnassie sintetizou a política da Igreja
em relação à escravatura durante a Idade Média
europeia: "Origem divina da escravidão; perversidade genética
dos escravos; necessidade da servidão como meio de redenção
da humanidade pela penitência: [foram] ideias que se converteram
em lugares comuns."
Então, em que se apoia a falsa interpretação
do carácter socialmente libertador do cristianismo? Como já
foi dito, ela deve-se à promessa de libertação
espiritual, na vida de lá, para aqueles que se submetessem
à sujeição na existência de
cá. Processo no qual assentam os movimentos espiritualistas,
contra os quais se erguem as visões materialistas de mundo.
O que é de César e o que é de deus
Retomando as lições dos filósofos estóicos,
o cristianismo separou o espírito e o corpo, o mundo material
e o espiritual, criando uma vida após a morte, o que lhe possibilitou
reconhecer o servo como membro da comunidade cristã espiritual
no mesmo momento em que a sociedade humana real o marginalizava.
O mesmo apóstolo Paulo que subscrevera o direito de propriedade
sobre o cativo confirmava a sua humanidade – "Deus não
faz excepção a ninguém". Porém, no
momento que o reconheceu como cristão, negou-lhe o direito
ao sacerdócio, salvo excepções. Uma discriminação
radicalizada nos séculos seguintes.
A fraternidade espiritual cristã era assim dissolvida pela
objectivação quotidiana de instituições
e representações que justificavam a apropriação
pessoal do trabalhador escravizado e a expropriação
de seu trabalho excedente como decorrências naturais da sua
inferioridade essencial, querida por deus.
Ao substituir a sua liberdade na vida real, por emancipação
numa vida virtual, a Igreja e o cristianismo contribuíram para
construir um dos mais poderosos ópios dos oprimidos,
na feliz e sempre pertinente trouvaille marxiana. Favoreceram
o esgotamento das contradições sociais da vida material
em angustiada sublimação subjectiva. Apoiaram a fuga
do oprimido do mundo real e o seu refúgio num mundo irreal.
Mesmo sendo o racionalismo materialista a mais acerada arma dos oprimidos
na luta pela sua emancipação, o engajamento social individual
supõe apenas uma consequente oposição à
opressão. Uma franca e leal discussão entre crentes
e não crentes irmanados na luta social também contribuirá
para a mais rápida e plena consecução do paraíso
terráqueo imperfeito onde o homem será amigo do homem.
* Mário
Maestri, 54, é historiador. E-mail: maestri@via-rs.net
Jun.02