As metáforas
podem ser perigosas. Por exemplo, a “guerra contra o terrorismo”.
Começou por ser uma guerra metafórica, tanto como o
são a guerra à pobreza ou a guerra à ignorância.
Essas guerras-como-curas são objectivos em si mesmos e não
podem nunca ter fim. Ora, é esse o risco: que a guerra contra
o terrorismo, metáfora entretanto transformada em acto, nunca
venha a ter fim e se converta num fim em si mesmo.
Para mim e para os meus contemporâneos, as palavras ‘terrorismo’
e ‘terroristas’ fazem ecoar memórias antigas. Portugal combatia
“os terroristas” em África, como antes o havia feito a França
na Argélia, a Inglaterra na Índia ou em Israel, ou os
americanos no Vietname. Muito antes, aliás, já os britânicos
haviam lutado contra os terroristas adeptos da independência
das colónias na América, e acredito que também
os Lusitanos de Viriato tenham sido qualificados como terroristas
pelos romanos. Mas essas minhas memórias incluem mais: nesse
tempo em que Portugal combatia os “terroristas” em África (e
em que Mandela era um perigoso terrorista na África do Sul),
era-nos dito que se fossemos firmes “até ao fim”, o terrorismo
não triunfaria.
Essa insistência na firmeza foi uma patética expressão
de fundamentalismo míope. Temo que estejamos hoje a viver um
remake dessa miopia, resultante do choque entre dois fundamentalismos:
o wahabbita islâmico e o protestante puritano. Tão íntimos
um do outro que já houve quem parodiasse o nome dos seus líderes:
George Bin Laden e Osama Bush. Um ano volvido sobre os atentados de
11 de Setembro, o essencial é superar o fechamento que cada
um destes dois discursos procura na sua firmeza redentorista e encontrar
os pilares de uma alternativa de análise racional como caminho
para a paz. A pergunta fundamental a fazer, de ambos os lados, não
é “como os podemos exterminar?”, mas sim “o que precisamos
de fazer para prevenir novos 11 de Setembro?”. Sugiro que essa alternativa
passa por quatro aspectos principais.
Em primeiro lugar, uma desminagem do futuro. É crucial
desarmar as minas colossais da fome, da intolerância e da insustentabilidade.
Falar de “países em desenvolvimento” é cada vez mais
reconhecidamente um eufemismo quando, dos 50 países com rendimento
per capita mais baixo, cerca de 23 têm perdas absolutas de rendimento
e tardarão 77 anos, nas condições presentes,
a atingir o rendimento actual da Grécia. Não é
senão grotesca uma “guerra ao terrorismo” que, ignorando a
centralidade desta realidade bipolar, contribui dramaticamente para
a acentuação do seu potencial de ressentimento e, com
ele, a sua violência explosiva.
Em segundo lugar, a consolidação e democratização
das instituições multilaterais internacionais.
É imperioso canalizar para a justiça o julgamento dos
responsáveis, e não permitir que se adoptem soluções
“de conjunto” que envolvem a morte de civis inocentes e alimentam
infinitamente a violência. O Tribunal Penal Internacional e
o Tribunal Internacional de Justiça no plano judicial, a ONU
no plano político e instituições económicas
reformadas (capazes de operar um corte com o eixo do mal neo-liberal
FMI-OMC-Banco Mundial) são imprescindíveis para uma
governação global democrática inscrita em horizontes
de paz.
Em terceiro lugar, a adopção da política
– e não da guerra – como suporte da mudança. Nos
últimos 100 anos, os países desenvolvidos sujeitaram
o mundo a duas guerras mundiais e a 40 anos de sequestro sob ameaça
de destruição nuclear. É preciso evitar que,
uma vez mais, a guerra seja encarada como a base que impulsionará
as mudanças necessárias. Para as inadiáveis reformas
económicas, fiscais, ambientais e culturais é necessário
menos maniqueismo agressivo e mais debate político.
Em quarto lugar, uma aposta estratégica na educação
para a paz. Contra o recrudescimento do fascínio pelas
soluções finais, a alternativa da cultura da paz passa
pelo reforço da formação de competências
em três domínios: a prevenção de conflitos
(com especial importância para as políticas de cooperação
e de diálogo intercultural); a solução pacífica
de conflitos (especialmente mediação e arbitragem);
e a reconstrução pós-conflito (articulando actores
locais e externos, governamentais e não-governamentais).
Portugal tem uma consciência histórica recente dos becos
sem saída a que levou a miopia da “guerra contra os terroristas”.
O desafio de uma alternativa aí está.
* Núcleo de Estudos para
a Paz (CES / FEUC)
Set. 02