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Depois de Setembro
[Leonel Moura]

Passou um ano e cabe perguntar se a estratégia conhecida por “guerra global contra o terrorismo” tornou o mundo num lugar mais seguro e se os problemas, nomeadamente os que originaram a emergência do terrorismo actual, estão em vias de solução. A resposta é, como se sabe, infelizmente negativa.

A insegurança aumentou de forma dramática. Pois que à ameaça de novos atentados ainda mais devastadores, se juntaram a histeria e manipulação dos media, a paranóia geral e a acção dos próprios governos, forças policiais e militares que têm vindo a perverter qualquer noção de estado de direito ou de direito internacional. Já para não falar da promessa de guerra iminente em que estamos. Da mesma forma, os problemas foram agravados, pois entre muitas outras coisas, onde o insanável conflito no médio-oriente é paradigmático, nasceu uma nova cruzada do ocidente contra os árabes, o que tem levado à radicalização fanático-religiosa destes.

A causa principal de um tal fracasso prende-se com o momento histórico em que o atentado atingiu os Estados Unidos. O Império foi atacado quando se encontrava mais debilitado. Um Presidente fascistóide e profundamente ignorante, arrastou o país e o mundo para a resposta primária da violência e do reforço de tudo o que há de mais reaccionário na sociedade ocidental. O ultranacionalismo, o fanatismo religioso, o estado policial. Numa escalada que só tem vindo a piorar a situação e significa uma efectiva decadência de tudo aquilo que representa o melhor da nossa civilização, isto é, a liberdade, os direitos humanos, o laicismo, o cosmopolitismo, a cultura, a inovação.

Por isso, o atentado não só derrubou duas torres fotogénicas e massacrou um número impressionante de pessoas, mas abalou, talvez irremediavelmente, as fundações mesmas da civilização ocidental. Numa inversão de posições que a maioria de nós, no ocidente, ainda não se deu conta. Se em Maio de 68 os estudantes gritavam “somos judeus alemães”, isto é, párias absolutos, hoje de súbito transformaram-nos a todos em judeus de Israel, ou seja, condutores de tanques, mas desprovidos de moral e de boa parte da razão. Quando o único argumento contra a barbárie é ainda mais barbárie, então fica claro quem efectivamente perde a disputa.

O declínio da civilização ocidental tem, como não podia deixar de ser, a sua expressão maior nos próprios Estados Unidos. País, por excelência, dinâmico, aberto e inovador encontra-se agora nas mãos dos inimigos da ciência, da livre iniciativa e da liberdade. Um patriotismo serôdio que persegue qualquer opinião crítica, um fanatismo religioso que impõe comportamentos obsoletos e promove a irracionalidade e um poder político refém da demência militarista e da mente estreita das polícias, transformaram a América num lugar inviável para a criatividade e o investimento no futuro. A América deixou de exportar novidade e passou a tentar por todos os meios impor o seu conservadorismo, como aliás se tem observado em todos os grandes debates internacionais sobre a pobreza, o tribunal internacional, o ambiente, a ciência ou a cultura.

O que, por sua vez, significa que tendo abandonado a América, o caminho da liberdade e da inovação irá despontar noutro lugar. Podia ser na Europa, não fosse a mediocridade dos nossos políticos e a apatia dos europeus, mas é provável que surja onde menos se espera. Talvez na Rússia pós-Putin e pós-mafias. Talvez no Oriente quando a China finalmente acordar. Mas uma coisa é certa, o tempo ocidental, expresso no domínio planetário da aliança Europa-América, muito provavelmente acabou em 11 de Setembro de 2001. Desde então a nossa civilização está em queda. A pique.

Set. 02


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