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Os Maus Caminhos
[Jorge Vaz Nande]

Pinochet tomou o poder em 1973. Eu nasci em 1980, mas não se iludam: entre ele e eu, há mais do que esses sete anos. Entre ele e eu, está o intervalo em que a minha consciência se formou. Por isso, só fixei as sílabas triangulares do nome do general chileno alguns anos mais tarde, quando ecoavam nos telejornais que ouvia com pouca atenção sentado aos pés dos meus pais e avós. Ouvia-as, mas não sabia a que correspondiam. Nessa idade, o pensamento é, por necessidade instintiva de quem aprende a conhecer o mundo, maniqueísta: há o bem o mal e nada que não se lhes reconduza. Pinochet, Pinochet... a palavra era tão musical que bem podia ser nome de um actor de telenovelas brasileiras ou de um tanguista argentino. Mas percebia-se que algo estava mal, que a urgência dos pivots e a apreensão das frases não anunciava muito de bom. Na minha mente infantil, Pinochet pairava tremeluzente sobre o Mal, mas não caía nele, porque o seu negrume não era nítido o suficiente para que uns olhos de sete anos, ansiosos por paradigmas inteiros de Bem ou de Mal, o distinguissem do resto da corja de ditadores que, nesse fim de Guerra Fria, apoquentavam ambos os lados da Cortina de Ferro.

Fortunato Sorano diante do pelotão de fuzilamento Foi só em 1993, vinte anos depois do golpe, que o ditador se me impôs em toda a sua dureza. Foi no dia em que descobri, por entre as páginas do suplemento de um semanário, um dos retratos políticos mais emblemáticos do século XX, ao lado do sobrolho franzido de Guevara e do sorriso despreocupado de Fortuno Sorano perante o pelotão de fuzilamento. A fotografia é conhecida: o general, sentado por entre os seus lacaios da Junta Militar, braços cruzados e óculos escuros, boca torcida num esgar mussoliniano. Aquela primeira imagem do ditador no poder é bem capaz de ser também o último documento histórico em que se revela a faceta mais folclórica da força e autoridade fascistas. A mensagem está lá, geometricamente clara: um homem duro, impiedoso para com os seus inimigos, dominava agora aquele país. Muito simples.

Mas, ao tempo dessa minha descoberta, já as coisas no Chile tinham acalmado. Pinochet, embora continuasse Chefe Maior das Forças Armadas, já saíra da cadeira presidencial há três anos, dando lugar ao democraticamente eleito Patricio Aylwin. A Comissão Nacional para a Verdade e Reconciliação já tinha publicado o relatório em que contava em 2.279 as mortes do regime. A Caravana da Morte não mais corria. Figuras menores da ditadura chilena eram aprisionadas. Pinochet, protegido numa bruma de imunidade legal e medo reverencial, começava a tornar-se num orixá, posto numa prateleira e pronto a ser adorado pelos sempre fiéis militares. Até que, em 1998, surge Baltazar Garzón a reter o velho militar em Inglaterra, colocando-o em risco de extradição. Foi este o momento em que a minha geração finalmente compreendeu a profundidade da sinistra figura deste homem, deste antigo ditador que agora parecia velho, muito velho. Durante vários meses, Pinochet foi a figura contraditória que suscitou todo o tipo de perguntas: até onde vai a responsabilidade de um homem?, a partir de que limite é que pedir justiça se torna cruel? A história recontou-se, a estátua de avô indefeso caiu e, à vista, ficaram só as marcas do sangue. Os anos que abafavam o intervalo entre o golpe de Estado e o meu nascimento eclipsaram-se como um pano que se abre.

Eu não acredito que ninguém queira o poder só por o querer. Prefiro pensar que, mesmo quem o toma criminosa ou egoisticamente, só o faz porque pensa ou espera, mesmo que difusamente e sem razões, que ele será o melhor que o poderia tomar nesse momento. Pinochet absolutizou até à cegueira um objectivo que, isolado, lhe deveria parecer honrado. Como o Mal é maior do que todos nós, homens, e do que Pinochet, esse homem em quem todos os outros reconheceram o seu lado negro... Qualquer criminoso contribui, em maior ou menor medida, para avançar mais um pouco a linha que nos separa do Absurdo. Já no meu tempo, Bin Laden imaginou um terror megalómano e tornou-o real. Pinochet ajudou-o, pois quem matou ontem ajuda quem mata amanhã. Fora das nossas casas, como uma névoa invisível e fétida, o Mal de hoje junta-se e conspira com o Mal de todos os tempos.

* tudear@hotmail.com

Set. 02


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