Pinochet
tomou o poder em 1973. Eu nasci em 1980, mas não se iludam:
entre ele e eu, há mais do que esses sete anos. Entre ele e
eu, está o intervalo em que a minha consciência se formou.
Por isso, só fixei as sílabas triangulares do nome do
general chileno alguns anos mais tarde, quando ecoavam nos telejornais
que ouvia com pouca atenção sentado aos pés dos
meus pais e avós. Ouvia-as, mas não sabia a que correspondiam.
Nessa idade, o pensamento é, por necessidade instintiva de
quem aprende a conhecer o mundo, maniqueísta: há o bem
o mal e nada que não se lhes reconduza. Pinochet, Pinochet...
a palavra era tão musical que bem podia ser nome de um actor
de telenovelas brasileiras ou de um tanguista argentino. Mas percebia-se
que algo estava mal, que a urgência dos pivots e a apreensão
das frases não anunciava muito de bom. Na minha mente infantil,
Pinochet pairava tremeluzente sobre o Mal, mas não caía
nele, porque o seu negrume não era nítido o suficiente
para que uns olhos de sete anos, ansiosos por paradigmas inteiros
de Bem ou de Mal, o distinguissem do resto da corja de ditadores que,
nesse fim de Guerra Fria, apoquentavam ambos os lados da Cortina de
Ferro.
Foi só em 1993, vinte anos depois do golpe, que o ditador se
me impôs em toda a sua dureza. Foi no dia em que descobri, por
entre as páginas do suplemento de um semanário, um dos
retratos políticos mais emblemáticos do século
XX, ao lado do sobrolho franzido de Guevara e do sorriso despreocupado
de Fortuno Sorano perante o pelotão de fuzilamento. A fotografia
é conhecida: o general, sentado por entre os seus lacaios da
Junta Militar, braços cruzados e óculos escuros, boca
torcida num esgar mussoliniano. Aquela primeira imagem do ditador
no poder é bem capaz de ser também o último documento
histórico em que se revela a faceta mais folclórica
da força e autoridade fascistas. A mensagem está lá,
geometricamente clara: um homem duro, impiedoso para com os seus inimigos,
dominava agora aquele país. Muito simples.
Mas, ao tempo dessa minha descoberta, já as coisas no Chile
tinham acalmado. Pinochet, embora continuasse Chefe Maior das Forças
Armadas, já saíra da cadeira presidencial há
três anos, dando lugar ao democraticamente eleito Patricio Aylwin.
A Comissão Nacional para a Verdade e Reconciliação
já tinha publicado o relatório em que contava em 2.279
as mortes do regime. A Caravana da Morte não mais corria. Figuras
menores da ditadura chilena eram aprisionadas. Pinochet, protegido
numa bruma de imunidade legal e medo reverencial, começava
a tornar-se num orixá, posto numa prateleira e pronto a ser
adorado pelos sempre fiéis militares. Até que, em 1998,
surge Baltazar Garzón a reter o velho militar em Inglaterra,
colocando-o em risco de extradição. Foi este o momento
em que a minha geração finalmente compreendeu a profundidade
da sinistra figura deste homem, deste antigo ditador que agora parecia
velho, muito velho. Durante vários meses, Pinochet foi a figura
contraditória que suscitou todo o tipo de perguntas: até
onde vai a responsabilidade de um homem?, a partir de que limite é
que pedir justiça se torna cruel? A história recontou-se,
a estátua de avô indefeso caiu e, à vista, ficaram
só as marcas do sangue. Os anos que abafavam o intervalo entre
o golpe de Estado e o meu nascimento eclipsaram-se como um pano que
se abre.
Eu não acredito que ninguém queira o poder só
por o querer. Prefiro pensar que, mesmo quem o toma criminosa ou egoisticamente,
só o faz porque pensa ou espera, mesmo que difusamente e sem
razões, que ele será o melhor que o poderia tomar nesse
momento. Pinochet absolutizou até à cegueira um objectivo
que, isolado, lhe deveria parecer honrado. Como o Mal é maior
do que todos nós, homens, e do que Pinochet, esse homem em
quem todos os outros reconheceram o seu lado negro... Qualquer criminoso
contribui, em maior ou menor medida, para avançar mais um pouco
a linha que nos separa do Absurdo. Já no meu tempo, Bin Laden
imaginou um terror megalómano e tornou-o real. Pinochet ajudou-o,
pois quem matou ontem ajuda quem mata amanhã. Fora das nossas
casas, como uma névoa invisível e fétida, o Mal
de hoje junta-se e conspira com o Mal de todos os tempos.
* tudear@hotmail.com
Set. 02