
Neste dia 11, um ano após o drama centrado no par de torres
de aço, betão e vidro que dominou outrora a paisagem
de Manhattan, jornais e televisões vão pingar sangue.
Fotos para lembrar a dor e o pasmo, croquis que vão mostrar
o pormenor, análises interessantes ou banais, maioritariamente
repetitivas. Por estes dias, poucos irão lembrar aquela outra
manhã, contada no cinema por Helvio Sotto e Costa-Gravas, em
que as tropas de um tal Pinochet Ugarte, comandante-em-chefe e traidor,
cercaram e bombardearam La Moneda, matando o presidente Allende e
pondo fim à experiência, única então, de
um poder de estado obtido pela esquerda num quadro de democracia e
legalidade. Todavia, teriam existido algumas vantagens em aproveitar
este e outros 11 de Setembro, ou outros 12 e 13, ou um 29 de qualquer
mês, para reflectir sobre a actualidade e o futuro do antigo
ideal corrido a metralha naquela manhã de medo em Santiago.
É que a renovação da esquerda, de que hoje se
fala e de que o mundo precisa, passa pelo inventário do seu
passado. Embora não apenas, convém que se diga, das
suas derrotas e perversões. No divã é preciso
correr o filme todo.
Aproveitemos então o momento, quando se questiona de novo o
que separa esquerda e direita. E se desenha um grande ponto de interrogação
à frente da esquerda que aí vem. Será, talvez,
uma forma de relembrar que ela não é, como jamais foi,
apenas Brejnev, Pol Pot, Fidel, Craxi, José Sócrates
ou Jerónimo de Sousa.
1.
Nos anos 80 tornou-se moda afirmar que a separação entre
esquerda e direita teria deixado de fazer sentido. Concluiu-se na
altura que, fora dos compêndios de história, as duas
palavras não serviriam senão para marcar o compasso
militar e orientar o trânsito. Assim ganhava forma a ideia de
uma gestão da sociedade, na qual o “princípio da competência”,
necessariamente situado ao centro, aferiria a acção
dos governos e a intervenção dos cidadãos. O
suposto fim das ideologias criara um tempo sem utopias, passando a
intervenção pessoal e descolorida do tecnocrata a pautar
a imagem pública da prática política. Um tédio,
mas um tédio “que funcionava”.
Esta moda, como acontece com todas as modas, passou. Mas continua,
fora do prazo de validade, a influenciar a forma de pensar de muita
gente, cansada da actividade partidária sem paixão,
de políticos volúveis ou da pura incompetência,
que vêem nos governos essencialmente técnicos, “competentes”,
a solução mágica para os problemas. É
esta a ideia dos responsáveis dos nossos partidos institucionais,
quando exibem o melhor sorriso de plástico e abanam as bandeiras
da “competência”, da “capacidade”, da “responsabilidade”. A
política aterrou assim sobre o deserto do qual se evaporou
o antagonismo fundador que, em 1789, separara nos Estados Gerais os
poderosos do Terceiro-Estado.
A “terceira via” foi, no fundo, o rótulo inventado por sectores
da esquerda com vontade de o deixar de ser – embora precisando do
eleitorado que o carimbo de esquerda assegurava – para designar a
suposta modernização da social-democracia e do socialismo.
Reconciliar-se-iam a flexibilidade económica e as leis do trabalho
que haviam feito a prosperidade da economia americana com a protecção
social conquistada ao longo de gerações pelos europeus,
humanizando o capitalismo mas reforçando-o o poder do dinheiro
e as desigualdades. Como numa história do Tio Patinhas com
banda sonora de Vangelis Papathanassiou. Este caminho, que colocou
de parte a tradição da esquerda como margem de causas
e roteiro do futuro, tem vindo a dar os resultados que se sabe, deixando,
no Reino Unido como em Portugal, os seus afáveis defensores
num beco sem saída.
2.
Foi este impasse que justificou o texto de Mário Soares, aparecido
no Expresso em Agosto e que provocou um rosário de
respostas pouco imaginativas. Mas porquê tanto barulho? O artigo
até nem trazia ideias substancialmente novas, se tomarmos como
termo de comparação debates recentes dentro do pensamento
social situado à esquerda. Mas acontece que elas foram avançadas
por alguém que tem o passado que tem e o peso que todos conhecemos,
afirmando, neste tempo de águas turvas e de completa indefinição
por parte dos partidos e movimentos da esquerda, a inevitabilidade
de uma clara separação dos caminhos que a separam da
direita.
Numa das réplicas, surgida no Público e assinada
por Miguel Reis, catedrático, enunciaram-se da pior forma possível
os contornos da separação. Poderiam, segundo o professor
Reis, considerar-se características de esquerda as nacionalizações,
o primado do Estado sobre o indivíduo, a valorização
do trabalho, um leque salarial apertado, saúde, educação
e protecção no desemprego e na velhice como encargos
do Estado, impostos altamente progressivos, etc. Inversamente, seriam
emblemas da direita as privatizações, o primado do indivíduo
sobre o Estado, a maior valorização do capital, um amplo
leque salarial, saúde, educação e protecção
na velhice como negócios privados, impostos pouco progressivos.
Este raciocínio simples limita a separação entre
os dois campos a uma opção meramente programática:
mais sociais e estatizantes, ou mais individualistas e liberais. Seria,
pois, apenas a coloração formal das políticas
a marcar a diferença. Mas, como escreveu Bobbio, os termos
“direita” e “esquerda” não designam apenas ideologias distintas,
configurando também “interesses e opiniões acerca
da direcção a dar à sociedade”. E, além
disso, “não são termos que designem conteúdos
definitivamente assentes”. No fundo, ao contrário daquilo
que sugere a dicotomia apresentada, são termos que nos fazem
confrontar todos os dias com uma caracterização complexa
do mundo e a constante reflexão sobre as pessoas queremos a
habitá-lo. Mais complicado, mas muito mais interessante.
No seu artigo, Soares esboçara uma resposta possível
a esta dúvida, acentuando o papel de determinadas questões
de princípio. Serão elas, escreve, a diferenciar os
dois pólos, separando, quanto à visão que possuem
do mundo, os partidários de um e do outro. Considerando que
o património da esquerda é inseparável de uma
liberdade não adjectivada (liberdade simplesmente, sim, e daí?),
anotou que o integram outros valores importantes e irrenunciáveis:
“a solidariedade, a igualdade de oportunidades, a justiça
social, o laicismo, a concertação social, as conquistas
do movimento sindical, obtidas ao longo de século e meio de
ásperas lutas, a previdência social, como responsabilidade
irrenunciável do Estado, a defesa do ambiente, a luta em favor
dos excluídos”. Menos consensual em relação
às ideias desmemoriadas em voga junto da sua própria
família política, Soares recordaria que o Maio de 1968
e as transformações económico-sociais e culturais
que o seguiram, “veio trazer ao património da esquerda
outros valores, digamos, existenciais, extremamente importantes: a
participação directa dos cidadãos na vida política
(...),, a defesa dos equilíbrios ecológicos do planeta,
gravemente ameaçados, o direito à diferença,
a liberdade sexual, a defesa de grupos minoritários, como os
homossexuais, o estímulo ao associativismo...”. Concluindo
que a esquerda deixou de se definir apenas no plano político,
passando a fazê-lo também “pelo posicionamento das
pessoas face à sociedade, à moral, à forma de
viver e de conceber o futuro”. Isto é, a tudo.
Não partilho de muitas das opções passadas e
presentes do ex-PR, mas penso que aqui ele tocou a questão
no que, neste momento, ela tem de essencial. Basicamente, lembrou
que à esquerda e à direita se definem sensibilidades
e culturas plurais mas divergentes, que correspondem a formas, também
elas distintas, de interpretar o mundo e de o viver.
O estado de confusão em que se encontra o nosso mapa político
deve-se pois, não à existência de posições
contraditórias, mas precisamente ao facto delas terem sido
apagadas por políticas supostamente “competentes”, mas essencialmente
conciliadoras e cegas, que se limitam a gerir o presente tal como
o merceeiro gere a loja, em vez de apresentarem projectos distintos,
coerentes, para a grande superfície ocupada pelo futuro. A
construção de plataformas para a afirmação
de políticas de esquerda, transformadoras, plurais e solidárias,
atentas aos desafios novos e aos problemas com os quais neste momento
nos confrontamos, deve pois assumir aquilo que a separa da direita
inevitavelmente conservadora, autoritária, individualista.
A mesma que, com outras caras e sotaque, andou pelas ruas de alguns
bairros selectos de Santiago do Chile, a exigir a libertação
de Augusto Pinochet, o velhinho sacana e assassino.
3.
Mas aquilo que de pior pode fazer a esquerda é imaginar que
uma das coisas que mais claramente a distingue da direita é
a referência a valores do passado, generosos ou quiméricos,
que a razão destruiu e a história nos tem obrigado a
rever. Essa esquerda tem, ao lado de mil combates justiceiros para
tirar aos ricos e dar aos pobres, um passado no qual inúmeras
injustiças e monstruosidades foram também produzidas,
devendo as condições que as fabricaram e justificaram
ser olhadas de frente, sem complexos ou silêncios. Lembrem-se
os crimes sistematicamente documentados no Livro Negro do Comunismo,
objecto de um horrorizado exorcismo por muitos dos profetas da “esquerda
nova” que tocam a rebate ao mínimo indício de profanação
do passado que mitificaram, ou a compactuação com o
terrorismo internacional, demonstrada com silêncios que desculpabilizam
os actos sanguinários, desesperados e politicamente estúpidos
do Hamas, das FARC ou da ETA. Não é possível
construir-se uma sociedade aberta e mais justa em cima de fantasmas
não apaziguados como estes, que continuam a alimentar o seu
imenso poltergeist.
Porém, é ao mesmo tempo a esquerda, visceralmente igualitária
como a dos sans-culottes, que concentra em si a atracção
por um futuro mais justo, dentro deste universo no qual os desequilíbrios
e as injustiças se multiplicam. É ela que abriga a humanização
e a regeneração do mundo, em nome de valores e de preocupações
que são um indício da evolução da espécie,
contra a barbárie individualista e neo-liberal que pretende,
por entre palavras pias, reconduzir este mundo azul e verde ao estado
pré-Leviatã de guerra de todos contra todos.
Defende a solidariedade, o seu santo dos santos, que presume a aproximação
das pessoas sem hierarquia de raça, condição,
cultura ou cor política. Defende a liberdade de pensamento
e de expressão, contra a tirania do único e do colectivo.
Defende o inconformismo como recusa do injusto e do desinteresse pela
injustiça. Defende a prática cultural como instrumento
de uma opinião pública capaz de elevar os índices
de participação dos indivíduos e das comunidades.
Defende a qualidade de vida contra a loucura desenvolvimentista que
se prepara para destruir o planeta. Defende os direitos dos povos
a buscarem o seu próprio destino ou a entregá-lo a outrem.
Defende o fim de todas as formas de violência e de exclusão,
mesmo aquelas concebidas em nome de uma luta que se presume justa.
Defende o fim da luta de classes pois fala em nome da espécie.
Claro que o enunciado de propostas tão belas remete para uma
dúvida particular: que lugar ocupa aqui a relação
com o poder? Um poder que pressupõe, como lhe é próprio,
a manipulação institucional da violência? A redução
da margem de actuação da direita será, em primeiro
lugar, o motivo que determina a actuação. Neste sentido,
a esquerda é “contra” algo de objectivo, que está aí,
mas é também “por” algo que se constrói todos
os dias e que jamais saberemos que coisa é. Embora saibamos
já que não é a vitória definitiva da “verdade
revolucionária”.
Precisa por tudo isto de estabelecer aproximações e
pactos destinados a proporcionar uma gestão da sociedade. Mas
deve, ao mesmo tempo, trabalhar em todas as áreas, em todas
as organizações, todos os dias, combatendo pelos valores
em que acredita. Deve ser atenta, inquieta e criativa, não
se limitando a assomos eleitoralistas ou a rebates ocasionais de consciência.
Deve ser aquilo que verdadeiramente é nas fábricas,
nas escolas, nos tribunais, no parlamento, nos salões dos ministérios,
nos hospitais, nos quartéis.
Provavelmente, foi por causa de não ter agido com esta determinação
e este sentido politico do quotidiano que a esquerda plural, no Chile
de Allende, foi capaz de deixar as armas nas mãos dos seus
próprios carrascos. Uma lição, talvez, para este
11.
11 de Setembro de 2002
* rbebiano@netcabo.pt
Set. 02