1 Em vez de pensar no 11 de Setembro do Chile, a Esquerda
devia tentar ver a realidade em que vive, agora e no futuro. Estamos
a ser arrastados para uma guerra sem lei (e daí a famigerada
questão do TPI): contra «o eixo do mal», contra
os «evildoers», contra sabe-se lá quem, a «guerra
ao terrorismo» existe mas não apresenta resultados. Os
talibans já não dominam o Afeganistão, mas isso
não passa de fraco consolo para os campeões da democracia
que os colocaram no poder. Um ano depois do ataque aos EUA, logo reduzido
a Nova Iorque para melhor apagar as imagens do Pentágono semi-destruído
com as de população civil em pânico, é
demasiado pouco. E, no entanto, mesmo no meio das maiores falências
fraudulentas de que há registo na história do mercado
livre, não se vê alternativa programática por
parte da Esquerda: só «alternativa ideológica
mas também prática», «modelo económico-social
pós-capitalista», «pós-materialismo»
etc., etc., etc., sem nada que defina, em termos positivos, uma política
própria.
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Tal como a «globalização ética»
para a Esquerda de poder, ou a «ética empresarial»
para a Direita, o 11 de Setembro chileno é para a Esquerda
de oposição apenas um modo de não ver o que se
pode fazer aqui e agora para se falar do que tem de se fazer sempre
e em todo o lado. (As comissões de ética nos parlamentos
e nos comités olímpicos mostram como não funcionar
em nada de relevante e deixar que os outros passem bem sem qualquer
ética.) O Chile de Allende serve para tapar Osama com Kissinger.
Mas seria mais eficaz, e sério, lembrar aos «realistas»,
que leram Meinecke pela metade (só Kratos, sem Ethos), que
Kissinger primou pelos seus erros - vide o caso português -
e decerto não terá lugar na História como Richelieu.
É que o realismo só é realista se não
pretender ser indiferente a alguma concepção positiva
(não meramente instrumental) de bem comum. De novo: para uma
crítica ao realismo dos pobres de espírito que hoje
é vendido, seria necessário abandonar a denúncia
e projectar algo definido e coerente. São precisas armas e
políticas comuns para haver independência relativamente
aos EUA, que durante cinco décadas perceberam que ninguém
é forte sozinho mas, agora, deixaram de acreditar nisso (compreensivelmente,
bem vistas as coisas). Se a Esquerda quer ser útil, que deixe
de ser simplesmente antiamericana: é preciso destronar a oligarquia
que reproduz na Europa o regime de «soberania dos consumidores»,
a «democracia de Madison Avenue» (Arendt), enfim, os Berluscos
e Chiracs. É preciso uma União Europeia com tudo o que
isso implica: exército, identidade, política. A Esquerda
quer ser capaz?
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Já foi. Aquilo que em tempos foi pejorativamente
chamado de desvio, e que hoje é constantemente invocado como
«modelo social europeu», tem um nome: social-democracia.
A real, não a nossa, claro. A Esquerda de oposição
será capaz de, por fim, progredir por reformas em vez de delirar
com distopias criminosas, teorizando a «repressive tolerance»?
Ou a vulgata «anti-sistema» e «radical» vai
prevalecer? Hoje até Giddens e os seus seguidores locais são
radicais…
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O 11 de Setembro é sobretudo futuro. Não o de Saddam,
esse bombo de Clinton, que espero seja curto, mas o nosso, de Europeus.
O que a «unilateralização» da política
externa dos EUA significa é o desencadear de uma crise no Ocidente,
mais séria do que a tensão entre a Europa e a África.
Será a crise que definirá a Europa do futuro. A que
pode causar a saída do RU, trocando a Libra pelo Dólar
e não pelo Euro, consumando o seu estatuto de colónia
de ex-colónia.
A única saída proveitosa será a que reforçar
uma nova Europa, com os próximos países de Leste mas
sobretudo com Rússia, Turquia, Chipre, mesmo Marrocos, uma
Europa com força suficiente para negociar com as menores restrições
políticas possíveis as suas alianças sem depender
de terceiros para depor ditadores como Milosevic. Quem faz de quinta-coluna
americana diz que se está a ir demasiado depressa, mas os americanos
também diziam que o Euro nunca iria funcionar, e no entanto…
Quais são as propostas da «verdadeira» Esquerda
para esta evolução? O fim da NATO e um desarmamento
unilateral europeu? A ausência de qualquer política de
imigração? Criticar o Pacto de Estabilidade não
é mais que fazer o jogo do esquerdismo inconsequente. Espantosamente,
os maiores problemas da Europa (e do mundo) não são
objecto de projectos concretos, quantificados e com critérios
de avaliação explícitos, por parte da Esquerda.
PAC? Ecologia? Bioengenharia? Preferem ler o Empire de Toni Negri,
e depois queixam-se de Berlusconi.
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O Chile é saudosismo. Nem foram capazes de
julgar el Pino… mas para quem se interesse pelo futuro, em nome da
Esquerda ou não, será mais útil notar que a guerra
de Washington contra a Europa já começou, assim que
o fim do comunismo permitiu à União Europeia expandir-se.
Primeiro economicamente, ainda no tempo de Clinton, agora com Bush
em questões diplomáticas como Israel, Iraque, e sobretudo
a não-acusação de americanos pelo TPI. Em comum
estas iniciativas têm um nome: despotismo. E como a História
revela (pelo menos desde Atenas e a Liga de Delos), nada garante que,
ainda nas nossas vidas, a guerra do déspota não se estenda
aos seus «aliados» mesmo no terreno militar, onde se faz
diplomacia por outros meios. Não há já anúncios
suficientes do fim da NATO, da «crise do Ocidente» e do
afastamento de Europa e EUA?
Set. 02