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11 de Setembro:
o Chile é passado, o futuro é europeu

[Carlos Leone]


1
Em vez de pensar no 11 de Setembro do Chile, a Esquerda devia tentar ver a realidade em que vive, agora e no futuro. Estamos a ser arrastados para uma guerra sem lei (e daí a famigerada questão do TPI): contra «o eixo do mal», contra os «evildoers», contra sabe-se lá quem, a «guerra ao terrorismo» existe mas não apresenta resultados. Os talibans já não dominam o Afeganistão, mas isso não passa de fraco consolo para os campeões da democracia que os colocaram no poder. Um ano depois do ataque aos EUA, logo reduzido a Nova Iorque para melhor apagar as imagens do Pentágono semi-destruído com as de população civil em pânico, é demasiado pouco. E, no entanto, mesmo no meio das maiores falências fraudulentas de que há registo na história do mercado livre, não se vê alternativa programática por parte da Esquerda: só «alternativa ideológica mas também prática», «modelo económico-social pós-capitalista», «pós-materialismo» etc., etc., etc., sem nada que defina, em termos positivos, uma política própria.

2 Tal como a «globalização ética» para a Esquerda de poder, ou a «ética empresarial» para a Direita, o 11 de Setembro chileno é para a Esquerda de oposição apenas um modo de não ver o que se pode fazer aqui e agora para se falar do que tem de se fazer sempre e em todo o lado. (As comissões de ética nos parlamentos e nos comités olímpicos mostram como não funcionar em nada de relevante e deixar que os outros passem bem sem qualquer ética.) O Chile de Allende serve para tapar Osama com Kissinger. Mas seria mais eficaz, e sério, lembrar aos «realistas», que leram Meinecke pela metade (só Kratos, sem Ethos), que Kissinger primou pelos seus erros - vide o caso português - e decerto não terá lugar na História como Richelieu. É que o realismo só é realista se não pretender ser indiferente a alguma concepção positiva (não meramente instrumental) de bem comum. De novo: para uma crítica ao realismo dos pobres de espírito que hoje é vendido, seria necessário abandonar a denúncia e projectar algo definido e coerente. São precisas armas e políticas comuns para haver independência relativamente aos EUA, que durante cinco décadas perceberam que ninguém é forte sozinho mas, agora, deixaram de acreditar nisso (compreensivelmente, bem vistas as coisas). Se a Esquerda quer ser útil, que deixe de ser simplesmente antiamericana: é preciso destronar a oligarquia que reproduz na Europa o regime de «soberania dos consumidores», a «democracia de Madison Avenue» (Arendt), enfim, os Berluscos e Chiracs. É preciso uma União Europeia com tudo o que isso implica: exército, identidade, política. A Esquerda quer ser capaz?

3 Já foi. Aquilo que em tempos foi pejorativamente chamado de desvio, e que hoje é constantemente invocado como «modelo social europeu», tem um nome: social-democracia. A real, não a nossa, claro. A Esquerda de oposição será capaz de, por fim, progredir por reformas em vez de delirar com distopias criminosas, teorizando a «repressive tolerance»? Ou a vulgata «anti-sistema» e «radical» vai prevalecer? Hoje até Giddens e os seus seguidores locais são radicais…

4 O 11 de Setembro é sobretudo futuro. Não o de Saddam, esse bombo de Clinton, que espero seja curto, mas o nosso, de Europeus. O que a «unilateralização» da política externa dos EUA significa é o desencadear de uma crise no Ocidente, mais séria do que a tensão entre a Europa e a África. Será a crise que definirá a Europa do futuro. A que pode causar a saída do RU, trocando a Libra pelo Dólar e não pelo Euro, consumando o seu estatuto de colónia de ex-colónia.

A única saída proveitosa será a que reforçar uma nova Europa, com os próximos países de Leste mas sobretudo com Rússia, Turquia, Chipre, mesmo Marrocos, uma Europa com força suficiente para negociar com as menores restrições políticas possíveis as suas alianças sem depender de terceiros para depor ditadores como Milosevic. Quem faz de quinta-coluna americana diz que se está a ir demasiado depressa, mas os americanos também diziam que o Euro nunca iria funcionar, e no entanto…

Quais são as propostas da «verdadeira» Esquerda para esta evolução? O fim da NATO e um desarmamento unilateral europeu? A ausência de qualquer política de imigração? Criticar o Pacto de Estabilidade não é mais que fazer o jogo do esquerdismo inconsequente. Espantosamente, os maiores problemas da Europa (e do mundo) não são objecto de projectos concretos, quantificados e com critérios de avaliação explícitos, por parte da Esquerda. PAC? Ecologia? Bioengenharia? Preferem ler o Empire de Toni Negri, e depois queixam-se de Berlusconi.

5 O Chile é saudosismo. Nem foram capazes de julgar el Pino… mas para quem se interesse pelo futuro, em nome da Esquerda ou não, será mais útil notar que a guerra de Washington contra a Europa já começou, assim que o fim do comunismo permitiu à União Europeia expandir-se. Primeiro economicamente, ainda no tempo de Clinton, agora com Bush em questões diplomáticas como Israel, Iraque, e sobretudo a não-acusação de americanos pelo TPI. Em comum estas iniciativas têm um nome: despotismo. E como a História revela (pelo menos desde Atenas e a Liga de Delos), nada garante que, ainda nas nossas vidas, a guerra do déspota não se estenda aos seus «aliados» mesmo no terreno militar, onde se faz diplomacia por outros meios. Não há já anúncios suficientes do fim da NATO, da «crise do Ocidente» e do afastamento de Europa e EUA?

Set. 02


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