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"The Boss"
[António Gonçalves]

«Tenho todo o prazer que sejas tu a servir-me!», disse a Rainha. «Dois tostões por semana e doce no dia seguinte.»
Alice não pode deixar de rir ao dizer: «Eu não quero ficar ao seu serviço – e quanto ao doce, não me interessa.»
«É um doce muito bom», disse a Rainha.
«Bem, de qualquer maneira eu hoje também não o queria.»
«Não o comias, mesmo que o quisesses», disse a Rainha. «A regra é: doce amanhã e doce ontem – mas nunca doce hoje

Alice do outro lado do espelho


Uma das piores consequências do terrífico ataque às torres gémeas de Nova Iorque - inauguradas, sublinhe-se a coincidência, em 11 de Setembro de 1973 - foi o modo simplista e primário como se passou a conceber a democracia. Confundiu-se o sistema democrático com o sistema capitalista e considerou-se a utopia nascida na Grécia como uma tarefa acabada e cuja perfeição estaria demonstrada naquilo que vulgarmente se designa por civilização e democracia ocidentais. A ideia de que a democracia é um sistema permanentemente em construção e permanentemente questionada e questionável deixou de ser possível. Alices, nunca mais.

Em Março do ano passado Bruce Springsteen lançou, em Nova Iorque, um álbum, gravado ao vivo, "Live in New York City". Um dos temas, "American skin (41 shots)", trata da denúncia da horrível história de um imigrante africano crivado de balas pela polícia nova-iorquina do senhor Giuliani. Tendo sido alvo de diversas pressões no sentido de retirar o tema do seu reportório, Springsteen não cedeu, tendo, inclusivé, editado a letra.

O "meu" Springsteen é esse, o que se tornou conhecido por cantar alguns sonhos e desilusões dos americanos, o do Born in the USA, do Johnny 99 ou do Streets of Philadelphia, ao lado do cidadão que vive do seu trabalho, dos excluídos, partidário do rock comprometido. É certo que, como à generalidade dos americanos - a começar pelos congressistas - , lhe detecto, mesmo assim, o defeito de os seus horizontes não ultrapassarem as fronteiras da bandeira com estrelinhas do tio Sam.

Assumindo-se como porta voz da "nobreza das pessoas comuns, das pessoas reais, não das que nos contam os livros de estórias, mas das que trabalham todos os dias e todos os dias voltam a casa, que têm comida na mesa todos os dias e que fazem deste dia a dia a sua vida", Springsteen, por sensibilidade própria, ou por sentido da oportunidade, não podia, como americano e como rocker, ficar indiferente ao 11 de Setembro de 2001. (Não se lhe conhece qualquer produção relativa ao 11 de Setembro de 1973. Aceita-se. Teria, então, à volta de 25 anos e não me consta que Victor Jara fizesse parte dos seus ídolos. E, talvez, quem sabe?, tenha pensado que essa história, de, ao cantor chileno, gritarem “canta!” depois de lhe terem partido as falanges dos dedos das mãos, era inventada pelos comunistas e que o Sr. Kissinguer nada tinha a ver com o assunto.)

Em Julho deste ano, o mesmo Springsteen lançou um novo álbum, "The Rising". Os heróis das suas canções, sem deixarem de ser os mesmos, passaram a incluir as, de um ou outro modo, vítimas do 11 de Setembro de 2001. Os trabalhadores das torres gémeas, os bombeiros, os polícias - sem o, agora herói, Giuliani - , os passageiros dos aviões e ainda o orgulho patriótico, o amor, a morte, o luto, a perplexidade, o desespero, a esperança, a solidariedade tornaram-se, assim, matéria prima dos seus novos temas. Disse, a propósito deste novo álbum:

"É necessário enfrentar os verdadeiros horrores existentes porque a única coisa com que, finalmente, as pessoas ficam é a esperança, que é o que faz com que chegue um novo dia e qualquer coisa que essa dia possa trazer consigo. Não se trata de ser acrítico, trata-se simplesmente de uma esperança que se sustenta no mundo real, na vida, na amizade, no trabalho, na família, na noite de sábado (só falta a missa ao Domingo de manhã, direi eu). É aqui que sempre encontrei a fé e o estímulo. Nestas coisas concretas, não em qualquer lugar intangível ou abstracto. Toda a minha vida tentei escrever sobre esta ideia básica. Creio que, após o 11 de Setembro, uma das coisas que mais surpreendeu as pessoas foi que a vida de algum modo continuasse. Parece-me que ninguém era capaz de imaginar tantos sacrifícios". Em resumo: a pátria americana tem bom coração.

Sem querer beliscar a justeza da solidariedade para com as vítimas, nem o respeito que merecem quantos tentaram acudir à tragédia, diria que esta comunhão patriótica, esta visão dos EUA pós 11 de Setembro de 2001, sendo humanamente louvável e legítima, não é original, nem surpreende. Foi propagandeada e estimulada por todas as CNN's. Mas, porque simplista, peca por defeito. Dela estão excluídos os conflitos de classes, de interesses, de poder, que temperam e dão sabor e sentido à utopia democrática e à vida. Este depoimento é uma exemplar descrição do caldo de cultura do modo de vida americano. Do mesmo povo que perguntou “porque nos fizeram isto?” e que não perguntou porque tanta gente em todo o mundo se sentiu, naquele dia, novaiorquina. É a desideologização na sua forma ingénua. Ou, melhor, a ideologia de direita na sua forma mais benévola e muito parecida com o conformismo salazarento de que “a minha política é o trabalho”: a despolitização do dia a dia, da vida. Bush não o diria, não o diz, melhor. Por isso cala os interesses estratégico energéticos dos EUA.

Claro que continuarei a ouvir "The Boss". A minha discordância perante a sua ingénua, estreita e perigosa visão do mundo, não me impede de reconhecer os seus méritos de "rocker". E é através deste e de outros Springsteen’s que melhor percebo os EUA e a simplicidade e a ingenuidade, frequentemente primária, dum povo que se orgulha da sua bandeira e elege toda a espécie de Bush’s. Ao fim e ao cabo os discursos deste último apelam aos mesmos sentimentos que Springsteen releva na entrevista.

Não posso, porém, esquecer que tal ingenuidade é a madrastra que amamenta a santa ignorância. É essa ingenuidade, e os acanhados limites da solidariedade que a (in)formam, que, internamente, legitimam toda a espécie de ingerências, violações de autonomia e massacres por todo o globo.

Um ano depois, não esqueço, nunca esquecerei os corpos que, fugindo ao terror das chamas, se atiraram para o vazio. Aos 2969 mortos, junto a memória de um cortejo de vítimas de outros "11 de Setembro": Hiroshima, Nagasaki, Vietname, Indonésia, Nicarágua, Guatemala, Chile, Argentina, Colômbia, Bolívia, Timor, Iraque, Kosovo, Afeganistão, de novo o Iraque...; não tivessem, nestes países, sido abruptamente eliminadas e existiriam outras gentes, com a nobreza de pessoas comuns, de pessoas reais, cidadãos autênticos, alguns dos quais já ouvidos em livros e canções que nos falam de outras realidades, dos que trabalhariam todos os dias e todos os dias voltariam a casa, que lutariam pela comida na mesa todos os dias e que construiriam dia a dia o amanhã da sua vida e da dos seus filhos. Mas esses já cá não estão. Vítimas de outros horrores, estão impedidos de enfrentar os verdadeiros horrores existentes.

"Serei anti americano?", pergunto, do outro lado do espelho, a Alice. Diz-me esta que, a crer no que diz a rainha, não restariam dúvidas, mas que, a única coisa com que, finalmente, as pessoas ficam é a esperança e que, com prazer, me fará companhia.

«Alguma vez tem de ser ‘doce hoje’», acrescenta.

* 29 anos depois do 11Set1973

Desenho de Artur de Carvalho

Set. 02


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