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A caça como Viagra
[Leonel Moura]

Abriu de novo a caça e, ao que dizem, cerca de duzentos mil portugueses, quase todos do sexo masculino e algumas mulheres que concebem as suas vidas como competição e imitação da dos homens, vão sair pela madrugada de arma em punho prontos a matar tudo o que se agite à sua frente. Uns matarão pouco por falta de jeito, outros não pouparão espécies protegidas, cães, gatos e até quem se lhes meta à frente reclamando compostura. A caça é um fenómeno cultural, similar ao das touradas ou do desvario rodoviário, que não se explica só com a tradição ou os interesses económicos. Protegida e fomentada pelo Estado, apadrinhada pelos ministros da agricultura e outros bárbaros que sempre têm lugar em todos os governos, a caça permite a uns quantos exprimir o seu ódio a tudo o que é vivo e livre. Trata-se de uma actividade desenhada pelas elites, a que hoje alguns pobres, de carteira e de espírito, têm também acesso. E nós sabemos como as elites gostam de exterminar tudo à sua volta, sejam animais, sejam pessoas, só para satisfazer os seus mundanos prazeres.

Mas a continuidade desta prática cruel e insensata não se explica só com a tontaria dos abastados. Pois de outro modo, como seria possível compreender, que tanta gente, alguma dela supostamente bem formada, se possa dar ao prazer de chacinar os últimos animais, num tempo em que temos a consciência do extermínio e risco de extinção da vida natural? Como é possível ter gozo pessoal com a morte de pobres e cada vez mais escassas criaturas, quando sabemos o estado em que o planeta se encontra, precisamente por excesso de matanças e devastações?

Embora não sendo um partidário de Freud, sempre gostei mais de Wilhelm Reich, julgo que estas condutas devem muito à crescente impotência sexual dos homens nas sociedades desenvolvidas. O prazer de matar, de exibir a matança, de tourear, ou mais prosaicamente de ultrapassar os limites de velocidade, de fazer manobras perigosas ou ainda mais banalmente de
contornar as responsabilidades sociais, deriva de uma necessidade de encontrar substitutos sociais e culturais para uma sexualidade masculina em crise de identidade e objectivo.

A caça, como desporto, é uma espécie de Viagra social. Exibe uma virilidade que já não existe de facto. E tal como nas touradas ou na condução, trata-se de um jogo entre homens, não tanto para competir pelas mulheres, mas para apaziguar o sentimento de frustração e impotência em cada homem. Por isso se fala tanto do prazer do convívio, mais forte que outros certamente, porque associado a um ritual de barbaridade e morte. Onde os homens se juntam, se abraçam, se embebedam, para celebrar uma masculinidade que já não faz qualquer sentido.

Portugal que sempre se pensou como território do macho latino, tem vindo a sofrer a inevitável crise de identidade que o desenvolvimento económico e a integração europeia provocam ao impor novas perspectivas e novos comportamentos. A feminização do trabalho, a, ainda que ténue, libertação das mulheres, a exposição e aumento da homosexualidade, a exigência de rigor e honestidade, põem em causa o tipo de homem, ladino, misógino e violento, que dominou por estas paragens e que agora se bate desesperado pela sua própria sobrevivência.

Por isso, são muitos os que querem preservar esse caldo cultural, onde se misturam touradas, caçadas, condução assassina, alcoolismo, irresponsabilidade, com medo de enfrentar a realidade de um mundo que os tornou numa espécie em vias de extinção. Nem todos serão em simultâneo
caçadores e bêbados, maus condutores e aldrabões, mas partilham uma mesma cultura primeva e obsoleta que bloqueia a evolução deste país.

leonel.moura@mail.telepac.pt

Ago. 02


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