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O partido da civilização
[Leonel Moura]

O Presidente da República decidiu finalmente pronunciar-se sobre os touros de morte de Barrancos. Durante anos a fio deixou passar a vergonha do mês de Agosto, evitando tomar posição ou dar o seu contributo para solucionar uma questão que nada tem de local e diz respeito à sociedade portuguesa no seu todo. Uma vez que promulgou as leis que confirmam a proibição desta forma bárbara e primeva de matança de touros, fez-nos supor que estava de acordo com elas. Viemos agora a descobrir que não é assim.

Na sua breve declaração em Barrancos Sampaio disse duas coisas: que em nome da tradição acha bem que se continue a torturar e matar touros, mesmo se isso implique infringir uma lei da república; que uma vez que existe quem não cumpra a lei, sugere que esta deva ser acomodada, em regime de excepção, à ilegalidade.

É grave que um Presidente da República promova o incumprimento da lei. É grave que um Presidente da República estimule um pequeno grupo de pessoas a humilhar os tribunais e os vários responsáveis pela aplicação da lei. É grave que um Presidente da República dê o seu apoio à palhaçada sazonal das acções policiais inconsequentes. Neste Agosto quando voltarmos a assistir às cenas tristes de Barrancos e à ridicularização de juizes e de polícias, sabemos que o nosso Presidente é, pelo menos, moralmente conivente e responsável.

Mas, apesar disto que não é coisa pouca, não me parece residir aqui o mais grave da inesperada atitude. A lei é importante, mas mais importante ainda é saber que tipo de sociedade queremos para Portugal e com quem podemos contar no partido da civilização.

Ficou agora claro que Jorge Sampaio não faz parte desse partido, já que também pensa que a tradição é um valor superior à civilização. Num país atrasado como o nosso, em que muitos problemas derivam precisamente da falta de cultura e de civilização e de excesso de tradição e de maus hábitos, é lamentável ter um Presidente que defende a barbárie só porque ela é praticada há muito tempo. Cabe perguntar como pensa o Presidente exercer então o seu magistério de influência no sentido da modernização do país? Como espera convencer os automobilistas a cumprirem o código, os alcoólicos a moderarem o seu consumo, os maridos a pararem de bater nas mulheres, os estudantes a aplicarem-se nos estudos, as pessoas a pagarem os seus impostos, os empresários a deixarem de explorar trabalhadores ilegais? Que educação está o senhor Presidente da República a promover quando acha bem que uma criança de Barrancos assista todos os anos à cena dos touros ensanguentados a serem arrastados perlas ruas? Que magistério e que influência retira Jorge Sampaio da orgia de crueldade e sangue destas festas?

Nenhum argumento, conjuntural ou local, consegue iludir o que está realmente em jogo. Ou queremos evoluir como sociedade, ou queremos manter um atraso feito de misérias sociais e culturais. A questão de Barrancos não é um problema local. Mas uma opção colectiva e nacional por onde passa a incessante batalha daqueles que defendem os valores da modernidade contra o peso do tradicionalismo.

É pena que os que lutam por um Portugal mais civilizado e moderno não possam contar com o actual Presidente da República. É pena que Jorge Sampaio tenha abandonado o partido da civilização a troco de uma salva de palmas. Mas nesta, como em tantas outras coisas, a luta continua. Agora também contra o Presidente da República.

leonel.moura@mail.telepac.pt

Jun. 02




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