O
Presidente da República decidiu finalmente pronunciar-se sobre
os touros de morte de Barrancos. Durante anos a fio deixou passar
a vergonha do mês de Agosto, evitando tomar posição
ou dar o seu contributo para solucionar uma questão que nada
tem de local e diz respeito à sociedade portuguesa no seu todo.
Uma vez que promulgou as leis que confirmam a proibição
desta forma bárbara e primeva de matança de touros,
fez-nos supor que estava de acordo com elas. Viemos agora a descobrir
que não é assim.
Na sua breve declaração em Barrancos Sampaio disse duas
coisas: que em nome da tradição acha bem que se continue
a torturar e matar touros, mesmo se isso implique infringir uma lei
da república; que uma vez que existe quem não cumpra
a lei, sugere que esta deva ser acomodada, em regime de excepção,
à ilegalidade.
É grave que um Presidente da República promova o incumprimento
da lei. É grave que um Presidente da República estimule
um pequeno grupo de pessoas a humilhar os tribunais e os vários
responsáveis pela aplicação da lei. É
grave que um Presidente da República dê o seu apoio à
palhaçada sazonal das acções policiais inconsequentes.
Neste Agosto quando voltarmos a assistir às cenas tristes de
Barrancos e à ridicularização de juizes e de
polícias, sabemos que o nosso Presidente é, pelo menos,
moralmente conivente e responsável.
Mas, apesar disto que não é coisa pouca, não
me parece residir aqui o mais grave da inesperada atitude. A lei é
importante, mas mais importante ainda é saber que tipo de sociedade
queremos para Portugal e com quem podemos contar no partido da civilização.
Ficou agora claro que Jorge Sampaio não faz parte desse partido,
já que também pensa que a tradição é
um valor superior à civilização. Num país
atrasado como o nosso, em que muitos problemas derivam precisamente
da falta de cultura e de civilização e de excesso de
tradição e de maus hábitos, é lamentável
ter um Presidente que defende a barbárie só porque ela
é praticada há muito tempo. Cabe perguntar como pensa
o Presidente exercer então o seu magistério de influência
no sentido da modernização do país? Como espera
convencer os automobilistas a cumprirem o código, os alcoólicos
a moderarem o seu consumo, os maridos a pararem de bater nas mulheres,
os estudantes a aplicarem-se nos estudos, as pessoas a pagarem os
seus impostos, os empresários a deixarem de explorar trabalhadores
ilegais? Que educação está o senhor Presidente
da República a promover quando acha bem que uma criança
de Barrancos assista todos os anos à cena dos touros ensanguentados
a serem arrastados perlas ruas? Que magistério e que influência
retira Jorge Sampaio da orgia de crueldade e sangue destas festas?
Nenhum argumento, conjuntural ou local, consegue iludir o que está
realmente em jogo. Ou queremos evoluir como sociedade, ou queremos
manter um atraso feito de misérias sociais e culturais. A questão
de Barrancos não é um problema local. Mas uma opção
colectiva e nacional por onde passa a incessante batalha daqueles
que defendem os valores da modernidade contra o peso do tradicionalismo.
É pena que os que lutam por um Portugal mais civilizado e moderno
não possam contar com o actual Presidente da República.
É pena que Jorge Sampaio tenha abandonado o partido da civilização
a troco de uma salva de palmas. Mas nesta, como em tantas outras coisas,
a luta continua. Agora também contra o Presidente da República.
leonel.moura@mail.telepac.pt
Jun. 02