Por
onde queimaste os jogos magnéticos?
[Jorge
Vaz Nande]
1.
matei
na praia porque não havia salva-vidas,
anos
incontáveis desta viagem, a mesma, retomada vezes sem conta do
sítio parecido, ir e vir pela estrada esburacada por vezes, desalmada
sempre, a sombra verde do sol no teu rasto fumegante, queres sentir de
súbito o cheiro do sangue que sentes a encher-te a raiz da virilha,
a
tua pele exala um segredo maior do que tu e sabes isso, é o cheiro
dos pêlos que te começam a nascer, dos músculos que
sentes endurecer, das mãos que se começam a engrossar, a
tua voz distante, a voz que te sai encravada do canto de uma parede, queres
que as palavras te coroem o corpo de césar, seria um bom nome para
ti, sentes-te cair por dentro, a derrota que sabes que vais vencer sozinho
e sem piada no silêncio do teu quarto, césar é o teu
nome e apetece-te muito existir,
dizem
não sabes, tu pensas que sabes,
chegas
pela primeira vez, agachas-te, olhas para todos os lados, assassinarias
o bruá das ondas com os pés se soubesses que olhariam para
ti, o que é esse fogo dentro de ti, que moldas o amor com as mãos
e esmaga-lo, amor, o teu pequeno homúnculo de plasticina, agachas-te,
sentes
a areia nas mãos, entrar-te-á pelos sapatos como um dia
a paz na alma, tens lastro atrás de ti, não sabes o que
esperar, levantas a cara para o sol, fechas os olhos e pensas
bang,
acordas,
chamam-te, o dia iluminou-se, afastas-te, cheira-te o sal na t-shirt,
sentes o queixo endurecer, o maxilar mais férreo, olhas para a
verdade morena do início das pernas dela, imaginas uma noite vermelha,
corres,
a
areia molhada, iglus coloridos longe de ti, estás agora no sítio
mais longínquo em que te lembras de estar,
de
um lado, a vaidade,
do
outro, alguma mulher,
terceira
oportunidade – mas não,
o
que pensas não se concentra, antes afasta-se de ti com a velocidade
vertiginosa das paixões, uma bola de plástico bate-te contra
a cabeça, alguém se ri, tu gostavas de recordar como se
chora
2.
bom
dia, é do take-away,
hoje
servimos papel
3.
O
sol introduz-se pelos buracos da persiana e pousa na pele dele, iluminando
precisamente o ponto mínimo em que permanece coagulada uma réstia
de sangue do mosquito que ele esmagou ontem à noite. Tem as coxas
e os antebraços bronzeados, a cara também. Dorme involuntariamente,
como quem suga um rebuçado. À frente, a pequena televisão
em que só consegue apanhar dois canais, outro mais ou menos.
Está a passar algo com música, não interessa -
ele dorme.
De
vez em quando, o reflexo de um carro. Devagar, a mão escorrega-lhe
para o sexo. Sonha com a mão da loira de biquini azul claro a
acariciar-lhe a omoplata.
É
gordo. Pequenos rolos de carne, os braços. Arabescos tiquetaqueantes
entre o nariz e a boca. A loira não é a melhor de todas.
Acorda
4.
Confesso.
Sinto-me gorda, estou deitada na cama, o edredon cheira a lavado de
fresco e agrada-me deixar cair as lágrimas nele. No quarto ao
lado, os miúdos, os dois gémeos, brincam aos cowboys com
o amigo invisível que inventaram. Fizeram-no índio e,
neste momento, discutem sobre qual deles o matou primeiro.
Hoje
de manhã, levei-os à igreja. Vesti-lhes as boininhas de
algodão branco, os calções acizentados, as camisas
azuis marinhas. À entrada, pus o dedo à frente da boca
– eles calaram-se. Atravessámos uma coxia emoldurada por
crentes de calções cor-de-rosa pelo joelho e t-shirts
deslavadas. Sentámo-nos, o padre falou, eles mordiscavam os polegares,
levantámo-nos, sentámo-nos, voltámo-nos a levantar
e, quando finalmente nos ajoelhámos, eu apertei as mãos,
que Deus me ajude, apertei as mãos uma contra a outra, mesmo,
mesmo, com força, até que as unhas pintadas de branco
marcassem com sangue a carne, e rezei, rezei para que estas férias
acabem depressa, para que os meus filhos deixem de ser o apêndice
negro que me impede de ser mulher, para que os homens voltem a olhar
para o meu corpo com cobiça enquanto apanho sol e para que o
meu marido volte depressa e se canse do perfume barato de hipermercado
que cheirou no pescoço da cabra velha que comeu na barraca vaga
da fila de trás. Agora choro na minha cama, o rímel escorre-me
das pestanas e mancha o forro bege da almofada, as mãos doem-me,
vou ter de as desinfectar com álcool, as marcas vão ficar
e o meu verão será destruído porque vou ter as
mãos numa vergonha e raios partam o filho da puta do Álvaro
mais a vaca da Helena, que nem tem nada que vir para a praia porque
já passa o ano todo metida na merda do solário
5.
gostava
de recordar como se chora porque um mês de engano não chega
para preencher as expectativas de quem gosta de se esquecer,
eu
nunca o aprendi,
nem
sei porque penso nisto, nem sei, consigo descobrir algo de belo quando
o sol se põe no mar queimado, mas não pretendo dizê-lo,
não há nada suficientemente preciso que eu possa querer
dizer,
quando
era pequeno, gostava da senhora que a meio da tarde trazia a caixa de
bolos porque não pretendia ser mais do que era, um engano, tudo
era um engano em suplício, ai de quem não lhe reconheça
a importância, uma caixa que se abria e, então, aprendia-se
algo que nos varava o coração,
olho
com atenção para o asfalto, há um ligeiro fumo
que se vai desprendendo, de vez em quando há um lagarto a aventurar
o rabo serpenteante na berma, olho para baixo, tenho os pés magros,
um
fantasma vermelho que rebenta no retrovisor antes de passar, cria o
seu vento com asas de fogo gélido, um dia o meu cabelo cairá
como o do meu pai e esse será um dia feliz porque saberei que
me devo preparar para morrer,
para
morrer, espero um agosto das minhas dúvidas, o momento em que
esteja maduro como uma duna vazia, o limão a azedar caído
no chão, um cérebro crestado, agora sinto-me irremediavelmente
todo, fecho os olhos, acendo a alma, o carro balança, um sonho
que não sei se sonho, o sujo que não sei se sujo, acendo
a alma e cubro o que não sei com um lençol, o pó
não polui o pó, as cinzas não queimam as cinzas,
de
qualquer maneira, tu és tu e eu sou eu e este fim é o
nosso fim,
este
é o fim de não sabermos.
Jul.02
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