Bar 420
[Eduardo Bettencourt Pinto]


O corpo, cansado, afundara-se na cadeira. Tínhamos dado, de bicicleta, um passeio magnífico pelas praias de Copacabana, Ipanema e Leblon. Nunca havíamos estado num sítio assim, tão belo. Nem mesmo o Stanley Park, em Vancouver, me deslumbrara tanto. O quente da brisa, a finíssima areia da praia, o voleibol praticado por meninas esbeltas tentando desafiar a gravidade, o escultor da areia, muito escuro, muito abstraído sonhando castelos e reis junto ao passeio, pedindo, num cartaz de papelão, ajuda para o empreendimento, eram imagens soltas que iam perfazendo um universo novo e sedutor.

O certo é que, após tanto pedalar, as pernas, dormentes, pediam descanso.

Mas ao fim do dia, qualquer cidade se torna estranha, sobretudo quando não existem referentes sociais que acomodem os nossos momentos mais sombrios. Havia, claro, noites quentes de samba. Os bares de Ipanema estavam, por exemplo, cheios. Mas há noites em que a única música que soa bem é a voz de algo inexplicável. Por exemplo: um abraço repentino de alguém que já não víamos há muitos anos. Ou certa música, que nos recorde um momento, qualquer instância sublime. Um bem-estar sem especial razão. Algo assim, metaforicamente sentido.

Eu sou um homem dos trópicos. Sinto-me em casa quando ando de sandálias, calções, t-shirt e entre as sombras rumorejantes de uma palmeira. Quando da brisa, morno, vem o doce crepitar de um samba ou de um merengue, assalta-me uma estranha plenitude. É uma espécie de útero emocional. Um regresso ao princípio dos tempos.

Às vezes, porém, tenho a profunda nostalgia do mar. Desse azul infinito, portentoso, magoado pela distância e pelos mitos que são o mar dos Açores. Das casas da ilha beijadas pelo vento, do cheiro verde húmido pingando do silêncio, dos milheirais em Setembro, no Nordeste.

O mar pode também ser uma metáfora. Sobretudo para aqueles que não o vêem da janela, como eu.

A mais bonita que eu ouvi foi a de um amigo meu, homem da rádio e da poesia dos Açores, Sidónio Bettencourt. Após uma visita a Angola disse-me, num telefonema transcontinental: «Angola é um mar de terra!».

Aqui, nestes dias quase sempre escuros de Pitt Meadows, vivo — vivemos —num mar de chuva.

Estávamos portanto sentados no Bar 420, um recanto de esquina, simpático e acolhedor onde a cidade, descontraída, chegava para a proverbial conversa, regada com cerveja fresca, «sucos» tropicais e a nacional caipirinha.

O empregado, um jovem simpático cujo rosto brilhava ao cimo de uma camisa de um branco imaculado, trouxe-me duas caipirinhas e refrescos para a Rosa e o Mauro.

A dado momento, um senhor de meia-idade na mesa ao lado, virou-se para nós:

— Desculpem, são portugueses?

Era um homem alto, aprumado, com uma camisa fina às riscas, óculos que escondiam uns olhos tristes e um tom de pele alvejado pelas quentes areias de Copacabana.

— Representamos três países: Angola, Portugal e Canadá. Somos um pouco de cada lado.

O cavalheiro esboçou um sorriso. Estendeu-nos a mão:

— Eduardo. Português de todo o lado!

Parecia coincidência a mais. Indiquei-lhe a cadeira vazia:

— É meu xará! Aliás, o meu nome é José Eduardo. Mas trate-me só por Eduardo.

Vendia jóias. Decepcionei-o logo:

— Geralmente só compro livros. Detesto o oiro e os diamantes. Aprecio as esmeraldas porque são aguadas e belas como os olhos de algumas mulheres. Mas nunca compraria.

— Não me diga que regressa ao Canadá sem pelo menos oferecer um cordão de oiro à sua senhora!

Não gostei da chantagem. Mas já estou habituado. Numa noite em Montreal, há muitos anos, bebíamos vinho tinto num restaurante português enquanto olhávamos a placidez branca cobrindo a rua. Passava da meia-noite.

Esperávamos ansiosos pelo caldo verde e pelo chouriço. Entrou de repente um tipo com um cesto cheio de rosas vermelhas. Do sobretudo, negro, resvalaram para o chão flocos de neve. Tirou duas rosas, repartiu-as pelas senhoras e depois olhou para nós, os homens, à espera do pagamento.

— Planeio regressar um pouco mais bronzeado, sim, mas sem cordões de oiro. A não ser que seja o senhor a oferecer — disse-lhe, constrangido.

Quem vive no Canadá ou nos Estados Unidos é rico. Pelo menos é essa a percepção que me fica pelos comentários que vou ouvindo um pouco por todo o lado. A verdade é que se eu fosse rico, não o ostentaria. Teria até uma certa vergonha. Há demasiada fome neste mundo, por um lado; e excessiva gente obesa, por outro. Algo está gravemente mal. Interessa-me, sobretudo, ser feliz. Há quem durma pouco, a engendrar mecanismos e métodos para enriquecer depressa prejudicando os outros. Não gosto.

Certa vez em Lisboa, num Banco, em resposta ao comentário que fiz sobre o câmbio, o funcionário, com um indisfarçável sorriso de desprezo, muito empolado, disse:

— O dólar desceu e ainda vai descer mais. Quem aparecer por cá, que se habitue ao preço real das coisas.

Peguei no dinheiro, dobrei-o, agradeci o «favor» e saí. Estava Sol. Fui por aí, em antítese ao poema de José Régio, alvejado com o rancor que se tem às aparências.

O meu interlocutor do Rio era um homem sensato. Pediu desculpa pela insistência e mudámos de assunto.

Falámos horas a fio. Quando reparámos, éramos os únicos que lá estávamos. Levantámo-nos quando os empregados começaram a recolher as cadeiras.

Aparecia todas as noites, impecavelmente vestido, cortês, solícito. Contou-nos histórias incríveis de Angola, entre o fumo do cigarro e os finos.

— Escrevi um livro, sabe, mas não me interessa publicar — revelou a certa altura. — Interessa-me sobretudo viver.

Despediu-se de nós no hotel. Os seus sapatos, à medida que se ia afastando, soavam como um samba triste.

A noite carioca tornou-se mais profunda. Eu tinha, para ler nessa noite, o livro Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, seleccionados por Italo Moriconi.

Encontrei estes versos, de João Cabral de Melo Neto:

«O dia? Árido.
Venha, então, a noite,
o sono. Venha,
por isso, a flor.

Venha, mais fácil e
portátil na memória,
o poema, flor no
colete da esperança.»

Que solidão levava o Eduardo sob a camisa? Não sei. O eco das suas histórias, contudo, ainda me fascina nesta quente noite de Junho.


Jun.02