Ana Paula Inácio
Os Invisíveis, Quasi edições
2002, 116 pp.




 

Aqueles que sofrem
[Carlos Bessa]


Há livros que gostaríamos nunca mais acabassem. Não só porque fim é uma palavra terrível. Mas também porque é como se algo dentro de nós, depois de ter encontrado um modo nosso de falar, que nos surpreende e emociona, se interrompesse e nos voltasse a ficar interdito. Conversas assim, raras, intensas, fazem-nos sentir outros e é pois com tristeza que assistimos ao seu término. Os Invisíveis, primeiro livro de prosa de Ana Paula Inácio (n.1966) é um desses livros. Comove-nos, escava nos terrenos lodosos da alma e remexe nessa ferida com o cuidado cirúrgico de um especialista. Lê-lo é uma experiência intensa. No entanto e à primeira vista estamos perante histórias de gente comum. Tão comuns que certos acontecimentos podem até ter sido vividos por nós com características semelhantes. Viver, contudo, não significa necessariamente pensar. E talvez se dê o caso de, avassalados pelas mil pequenas coisas do dia-a-dia, nunca nos ter passado pela cabeça que certos momentos foram uma experiência de crueldade, até porque certas crueldades não possuem código penal, tampouco são notícia ou encontram espaço entre o vendável. Ora os doze contos deste livro são sobre a crueldade. Ou, se se preferir, são sobre a ficção em que vivemos, sobre a quimera da soberania de indivíduos à deriva na barca de Caronte. São sobre essa sempre qualquer coisa que nos distrai, ocupa, toca e faz sair de nós mesmos e nos mergulha no infame, na invisibilidade.

Doze contos. Doze histórias breves. Muito breves. Com homens e mulheres à deriva. Seres vulgares, mas seres humanos. Com pensamentos e sentimentos. Todos no descontentamento de si ou do que os rodeia. Todos perdidos no espaço e no tempo que lhes coube em sorte. E de que a autora fala com contida emoção, desdobando a meada de uma solidão sem esperança, enquanto entre o cáustico e o enternecida nos torna cúmplices ou carrascos da vida dessa gente.

Mais do que retratar pessoas avassaladas pelo nada, sem outra coisa além da casa ou da rua e mesmo aí perdidas, invisíveis, aborda com um hábil e delicado sentido de observação a vida tal como é vivida por quantos são, quase sempre e só, consumidores de sonhos, derrotados de esperança. Gente que vive além do trabalho, do amor, do diálogo, pois essas são formas de êxtase que lhes foram recusadas, por excesso ou por falta, e a quem não resta nada senão a morte esplendorosa, porque chave de um além que é o fim do sofrimento. Indivíduos que se colocam, pois, entre parêntesis e mantêm a ilusão de viver. Indivíduos encerrados e condenados ao covil dos hábitos, com existências terrivelmente monótonas, qual castigo que sofrem em silêncio. Não se trata de masoquismo, porque não retiram daí nenhum prazer, mas da assunção de uma tragédia e tragédia grandiosa porque cheia de gente. Uma tragédia onde raramente se ouvem queixumes, pois são mais os desabafos e quase sempre breves, num desfastio próprio de quem se habituou a sofrer.

A branca passividade que caracteriza as personagens de Ana Paula Inácio transforma-as em personagens-alma. O seu desespero não tem visão, cegas que são ao seu quotidiano, até porque assim o tornam mais leve, como mais leve se lhes torna o percurso pelas linhas que aparentemente alguém lhes traçou e das quais nunca se desviam. No entanto, pressente-se nelas um certo desejo de evasão. Ambicionam todas secretamente a morte. Quais almas que desejam o regresso à origem.

A morte, o feitiço da morte, surge-nos num plano metafísico. O involuntário e silencioso sofrimento em que vivem e que armazenam tem como horizonte um algo (pois não chega nunca a ser nomeado) maravilhoso que as resgate do sem sentido dessa existência e lhes ofereça o antídoto contra as doses massivas de dor de que é feito o seu quotidiano interior e exterior. A autora pode, na brevidade e contenção que a caracterizam, dizer-nos que as pessoas «nunca olham para cima», sugerindo a ausência do religioso que afasta os indivíduos do seu interior ou notando que os seres activos de agora já não são artesãos de carácter mas apenas fazedores de dinheiro, entretidos e devorados com e pela pressa e posse. As suas personagens são o outro lado, os que não têm nada de verdadeiramente seu, excepto a percepção da beleza como prémio, da vida social como possibilidade e momento de alguma ternura. Coisas que lhes são recusadas, ora por si próprias, dado as desfeitas imagens de si, ora pela baixa ou nula auto-estima, ora pelas sevícias e humilhações que sofrem, nos empregos, na família, no amor. E sempre se sentem «no lugar errado», mesmo quando criaram filhos, mantiveram de pé uma casa, estenderam a mão ou o corpo às necessidades de outros. Curiosamente, muitas têm cães como companheiros de infortúnio ou espelho de um mesmo uivo.

A família como lugar de protecção e como espaço de violência; as relações ambíguas e tensas entre mães e filhas; o protegido lugar dos machos (pais ou filhos); as rotinas, as encenações e as pequenas mentiras comparecem nos contos deste livro juntamente com as marcas do que sói chamar-se o Portugal profundo, todo feito de ancestralidades, pequenas e poderosas oligarquias, superstições e terrores, bisbilhotices, vizinhos, velhos, idiotas do lugar, tendência para as efabulações e delírios. Assim, os pequenos lugares do mundo rural e provinciano, o litoral e o interior, os arredores das grandes cidades, a capital, a emigração, os shoppings são aqui os cenários onde se encerram os diversos graus de violência e de indiferença.

Não por acaso, a Natureza surge em toda sua verdade como espaço de confronto, de luta pela sobrevivência, onde tanto têm lugar o frio como o calor, ou as temperaturas amenas. A Natureza e alguns casos particulares, como o de uma coelha que devora as suas crias, num conto onde a ironia, o caricato, o patético se fundem magistralmente.

Ler este livro é, sem dúvida, um encontro com a comoção, pois é como se, e parafraseando Cioran, Ana Paula Inácio tivesse compreendido tudo e os contos fossem quase lágrimas. Janelas que se abrem para um mundo de frustração que, num tom ora desencantado ora terno, nos dá a ver a vida de gente que se abandona aos condicionalismos e aos compromissos do quotidiano, ao mesmo tempo que se rende ao silêncio e à indiferença, como a mulher que se confunde com um grão de areia, o homem que se transforma em faúlha de jornal ou o que advém mancha de tinta. Podemos mesmo falar de um compulsão para o suicídio, como cúmulo de penumbras entrevistas, como abandono à perfeição. E uma das tónicas destas histórias é o constante chamamento da terra que sentem algumas personagens. Chamamento a uma paz anterior e interior.

Os Invisíveis entronca num ramo onde se encontram quatro dos nomes maiores da nossa literatura, Agustina Bessa-Luís, Graça Pina de Morais, Irene Lisboa e Maria Judite de Carvalho. Autoras cuja escrita amplifica o mundo, ao mesmo tempo que nos emocionam. E a emoção, para quem não saiba, é uma interpretação da realidade.

Ana Paula Inácio, que nos tinha dado já dois livros de poesia de grande fulgor (As Vinhas de Meu Pai e Vago Pressentimento Azul Por Cima), surge agora com uma obra que a coloca entre aqueles autores que guardamos no coração. Uma obra onde impera o silêncio, o sofrimento, a solidão e a morte. Tudo numa linguagem que, como uma carícia, modela a dor e no-la resgata. Que torna visíveis alguns dos mecanismos em que se articula a sociedade. Que demonstra o carácter único e irrepetível de cada pessoa. Que se constitui como uma ponte de compaixão para com o humano.


Jun.02