Carlos de Oliveira
Uma poesia de cintilações e frémitos

[Fernando Nunes]


Todos os dias, na abertura da janela do quarto naquela cidade antiga, estava lá a placa a anunciar: “Aqui viveu enquanto estudante o escritor Carlos de Oliveira”. Numa cidade onde um dia um poeta foi lembrado, os seus poemas deviam servir de cartão de visita a quem chega, nem que seja pelo simples facto de despertar a curiosidade pela sua leitura! É que, para além desse elemento de sinalização e decoração citadina, muito pouco ou quase nada se deu a conhecer sobre a obra do escritor. E no entanto a placa continua lá...

Alguns anos mais tarde, muito antes dos livros enfiados nos “hiper” ao sabor do mercado, era muito mais fácil alguém se aventurar nas livrarias e se perder até achar um livro que lhe restituisse o rumo, entrar simplesmente despreocupado em investir tempo e paciência, em descobrir raridades ou ninharias. Foi assim que um dia se tornou visível um livro de poesia de Carlos de Oliveira, um trabalho poético que reunia muitos dos seus poemas. Eram, aos meus olhos daquele momento, pequenas cápsulas, bem fechadas, protegidas de qualquer decifração instantânea. Continham todos eles uma estrutura densa, organizada sob o signo da complexidade, com uma sintaxe exacta, comprometida com a palavra e a aproximação ao real, enfim uma poesia de cintilações e frémitos, preocupada com a produção de coisas belas e incertas.

Ainda hoje na leitura da sua poesia nada se perde, o respeito pela palavra é total e de uma inteligência comedida, senão leia-se “Lavoisier”: “Na poesia/ natureza variável das palavras/ nada se perde/ ou cria / tudo se transforma: / cada poema / no seu perfil incerto e caligáfico / já sonha outra forma”. É de rigor que trata o trabalho poético de Carlos de Oliveira e tanto a sua prosa como a poesia vivem do equilíbrio das formas, da exactidão com que se desenha a sua harmonia no papel branco. Sinais de um apego transcendente à terra podem ser lidos em “Àrvore”: “As raízes da árvore rebentam nesta página inesperadamente / por um motivo obscuro ou sem motivo / invadem o poema e estalam monstruosas buscando qualquer coisa que está em estratos fundos / talvez poços / secretas fontes primitivas / depósitos recessos onde haja um pouco de água que as raízes procuram de página em página com a sua obssessão / múltiplos filamentos trespassando o papel (...)”.

E talvez a felicidade do seu acto poético seja encontrado em poemas de dimensão telúrica, tal como em “O Acender das Luzes”: “Quem ordena estes sonhos / coordena, conduz / os tractores cuidadosos do ocaso ; êmbolos / com frio; quando lavram / o seu frágil fio de fogo/ nas árvores, na memória (...)”. Ou ainda na fulguração e na surpresa incutida no inesperado da prosa poética de “Fruto”: “Por um desvio semântico qualquer que os filólogos ainda não estudaram, passámos a chamar manhã à infância das aves. De facto envelhecem quando a tarde cai e é por isso que ao anoitecer as árvores nos surgem tão carregadas de tempo”.

Por último, um referência algo afastada da sua produção poética, mas que revela a mesma linha de pensamento ligada à depuração e revelação do seu trabalho literário, pois tal como Carlos de Oliveira escreve em “O Aprendiz de Feiticeiro”: “Escrever é lavrar (...) E lavrar, numa terra de camponeses e escritores abandonados, quer dizer sacrificio, penitência, alma de ferro”. Este era portanto um poeta de inspiração rural, comprometido com a palavra e a sua natureza. Uma natureza tão antiga como a da pedra e a das árvores.

Jan.02