À luz natural
Sobre a poesia de António Salvado

[Luís Cláudio Ribeiro]


"A paisagem
ferve de lume e solidão"

António Salvado* vem desde o princípio da segunda metade do séc.XX mostrando que a expressão lírica, a mais universal das formas poéticas, sobretudo até ao século passado, viceja não num deslumbramento emotivo, mas na abertura de passagens, para cuja acção é preciso uma chave, eu diria um dom, para um real que sendo em cada dia mais abstratizante se quer nesta forma mais concreto e substantivado.

Estas passagens, que se encontram na obra de António Salvado, não invalidam a experiência de alguém que estando a uma porta contempla o mundo, sobretudo aquilo que nesse mundo é parte integrante de uma comunidade, onde estão inscritas realidades, pessoas e ideias. Nesta poesia os elementos naturais não são apenas, como o não são na verdadeira poesia lírica, a figuração de um sentimento, o que se passaria a designar como naturezas-mortas, mas o rastro de uma convivência, de uma solidariedade que se exprime em poesia. Esta formulação seria impossível noutro registo que não o da poesia: lendo-a notamos que cada poema representa uma parcela de uma visão do mundo, mas por outro lado ele é a unidade irredutível desse mesmo mundo num lugar e num tempo. Assim, a obra de António Salvado é coordenada por dois grandes eixos, que aliás são eixos bem humanos, demasiado humanos: o tempo e o espaço. Subdividindo o primeiro eixo, encontramos uma espécie de calendário em que os objectos se mostram no presente, no passado e no devir: diga-se, no entanto, que é a projecção do passado na criação poética a mais fundamental divisão nesta poesia, um pouco como para nós são as estações do ano se as narrarmos como as aprendemos na infância.

Há assim sempre um aspecto nostálgico que transporta, como quase sempre acontece, uma espécie de dor que invade o poema mas que tem a força de nos faz seguir o poema, na margem, a par e passo. Depois há o espaço. E daqui emergem dois grandes temas: o do corpo, sobretudo o do amor, e o da natureza ou dos elementos naturais (que está presente em quase todos os livros deste autor. O último tem por título Flor Álea, uma decomposição que deriva da floralia romana, festas em honra da Flora, e o primeiro chama-se A Flor e a Noite). A representação dos espaços naturais e, sobretudo, dos elementos que estão subjugados à imobilidade, é o centro da maioria dos poemas de António Salvado, como se essa imobilidade não representasse mais do que um destino já sabido à partida e que mesmo assim se quer constituir até ao último grau ("igual raiz nos prende funda à terra", pg.23, Flor Álea). O que não é diferente daquele que tendo soltado os tornozelos, Édipo somos, quis em liberdade possuir o seu destino, para o bem e para o mal. Mas a poesia deste autor, ao contrário da de outros, emerge de uma liberdade livre, e em vez de ficar "presa" à errância de si, prefere encontrar passagens para o real, não para o ordenar, isso não é a função da poesia, mas para lhe encontrar uma possível ordenação (Os Dias, Árion, 2000). Quem erra, no entanto, não é o poeta mas um sentimento que lido já não reside nele mas em cada leitor: é a qualidade (ou faculdade) da poesia que leva a que esse sentimento não esteja depositado no poema, isso significaria que o escritor ficou na domesticidade dos versos, mas que emirja em nós enquanto seus leitores e em múltiplas expressões.

Visto que o poema é ele-mesmo errância, nunca pode ser expressão de uma emoção singular. Assim sendo estaria morto à partida. Por isso a poesia de António Salvado, mesmo falando-nos de "campos" desconhecidos, acorda ou faz nascer em nós o que adormecido ou nada era; ensina-nos a estar nessa comunidade de que há pouco falámos, em comunhão com as coisas, em acordo ou desacordo com elas, mas nessa comunidade de vivos. E esta estética não é mais do que a expressão de uma outra forma mais poderosa e que aprofunda a literatura, e com ela o humano, que é a forma ética.

* António Salvado nasceu a 20 de Fevereiro de 1936, em Castelo Branco. O seu primeiro livro é de 1955. Contam-se na sua bibliografia mais de meia centena de obras. A sua extensa obra poética encontra-se quase toda reunida em 3 volumes, editados pelas edições A Mar Arte, Coimbra. Recentemente saiu na Sirgo, Castelo Branco, tradução sua de alguns poemas do poeta espanhol, Claudio Rodriguez, e na mesma colecção um conjunto de poemas seu que tem por título Quadras (im)Populares e Sábios Epigramas.

Jan.02