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Fukuyama, a cerzideira Cada obra do sociólogo nipo-americano Francis Fukuyama, depois de O Fim da História e o Último Homem, transforma-se, impulsionada pelos ventos que sopram do outro lado do Atlântico, num best-seller. O mesmo se passa com A Grande Ruptura: a natureza humana e a reconstituição da ordem social. À partida poderemos dizer que o seu êxito repousa, sobretudo, em qualidades que pertencem ao tecido textual: a escrita simples, e de fácil leitura, de problemas ou factos que ocorrem no mundo contemporâneo. Estes fenómenos estão já há muito mapeados e pertencem ao modo como o humano se constitui hoje em dia. Estando em cada leitor o mapa constituído apenas repousa em Fukuyama a tarefa de lhes dar carne e geografias, sejam elas físicas ou afectivas. É uma espécie de consolo para o nosso desnorte: o sabermos que não estamos sós no "em trânsito" que nos sombreia. A passagem da sociedade industrial à sociedade pós-industrial ou era da informação, começou, no entender deste autor, nos anos sessenta, tendo como causas próximas o aparecimento, distribuição e uso em grande escala do que se passou a designar por novas tecnologias. Para Fukuyama esta nova era levou a aumentos de criminalidade a que nunca tínhamos assistido, a desvio dos cidadãos do centro das grandes metrópoles, quebra das relações sociais, sobretudo ao nível das relações familiares, mais divórcios e nascimentos fora das relações contratuais e convencionais, i.e., fora do casamento, e abrandamento do rejuvenescimento das populações nos países mais desenvolvidos. Infere Francis Fukuyama destes sintomas e realidades que com o advento da era da informação, unida à construção da democracia liberal, houve uma perda na definição de alteridade, perdendo-se nesta definição a construção do OUTRO num horizonte distinto que era a base humana (mesmo no sentido religioso) e a possibilidade da permanência de um quadro ético-moral que durante séculos foi linha orientadora das relações em comunidade e, de igual modo, em sociedade. Para Fukuyama, a luta pelo bem-estar individual, o êxito e noção de sucesso, a inovação nas empresas e dos países, levaram a uma cultura do individualismo que destruiu ou provocou "uma ruptura no mundo das relações sociais". No entanto, Fukuyama constata, baseado em dados estatísticos, sobretudo dos EUA, que estamos perante uma alteração, que surgiu na última década do séc.XX, dessa grande ruptura, e que ganha figura no decréscimo da criminalidade, no menor número de divórcios e modos sociais afins, que leva a uma reconstituição de uma nova ordem social com um novo quadro ético e moral, que, no nosso entender, se assemelha ao que durante longos anos a modernidade tornou visível e esboroou. Fukuyama ao tentar
"jogar de acordo com as regras" encontra um "aspecto positivo"
que é central nas três partes do livro (A Grande Ruptura,
Da Genealogia da Moral e A Grande Reconstituição):
"a ordem social, uma vez perturbada, tende a refazer-se." Este
princípio, ainda hegeliano à sua maneira, tem porém
fundamentos que não são tão claros e explícitos
como Francis Fukuyama pretende. É este campo fundacional que aqui
queríamos esclarecer. Diz-nos o autor: "Os seres humanos são
por natureza criaturas socais, cujos impulsos e instintos mais básicos
os levam a criar regras morais que os liguem em comunidade. São
também por natureza racionais, e a sua racionalidade permite-lhes
criar modos de cooperarem espontaneamente uns com os outros" (pg.21).
A origem da moral e da ética, que Fukuyama atribui à inata
sociabilidade e racionalidade do humano, é, à partida, um
abismo. É uma tentativa de explicação errónea
mas, como diz Nietzsche na Genealogia da Moral [GM], "sensata e psicológica".
É que sendo "fatalmente estranhos a nós mesmos, não
nos compreendemos, temos que confundir-nos (trocar-nos) com os outros"
[cfr.GM], e assim produzir dessa relação uma imagem de nós
que afinal é uma imagem imposta pela nossa condição.
O erro vem, sobretudo, de considerar os efeitos como causas e esta alienação
da substância é visível também no modo como
Fukuyama observa a grande ruptura no tecido social começado nas
ideias de sociedade e liberdade que emergem na década de sessenta:
"quando as pessoas se libertaram dos seus laços tradicionais
com os cônjuges, as famílias, os locais de trabalho, os sítios
onde moravam ou as igrejas, pensaram que podiam continuar a estar ligados
pessoalmente, só que desta vez as ligações seriam
aquelas que elas próprias escolheriam. Mas começaram a descobrir
que estas afinidades electivas, nas quais podiam entrar ou sair à
vontade, as deixavam a sentir-se sozinhas e desorientadas, ansiando por
relacionamentos mais profundos e permanentes". Cremos que há
aqui um esquecimento deliberado daquilo que é essencial na crítica
do moderno: tornando visível as pontes que sustinham o horizonte
onde um humano se constituía, e que eram um quadro de valores ético-morais,
onde podemos incluir as virtudes, a ideia de bem e mal, a religião,
etc., depressa essas pontes entraram em erosão no seu "contacto
com o ar", e nada mais havia a fazer para as salvar, a não
ser, reconstruí-las individualmente, cada um em seu fragmento de
horizonte, e para as reconstruir nada mais há a fazer do que dizê-las,
escrevê-las. Portanto, o que ele encontra na degeneração
do tecido social e que pode ser apelidado de crise, não
é de agora, começou há muito, possivelmente começou
em Sócrates, como afirma Nietzsche, e pensamos que tem alguma razão.
O que os ideais da década de sessenta sustinham, se bem vemos as
coisas, era um corte nas ligações que suprimiam algumas
liberdades ou eram portadoras de uma forma de ver o humano que não
pertencia ao moderno mas era-lhe precedente. Desejando sempre relacionamentos
profundos, serem duradouros não está concebido à
partida, os meus contemporâneos mais não anseiam do que aquilo
que pertence, isto sim, à natureza do amor e a tudo o que é
essencial à vida. Quanto a "sozinhos e desorientados"
sempre estivemos mas não o sabíamos dizer. Nietzsche preconizava
em alguns dos seus livros a vinda de alguém que nos libertaria
do "ideal do presente e da sua natural consequência, o grande
tédio, o niilismo". Fukuyama não desejava ser esse
"salvador da vontade, que há-de restituir ao mundo a sua fidelidade"
[cfr.GM] mas certamente pensou que tinha encontrado o caminho para o lugar
dessa salvação, só que ele tem, como já vimos,
um "ouvido tardio" e aonde chegou era onde deveria ter começado.
Por isso se enganou. Fukuyama deseja ver uma reconstituição
da ordem social num tecido estiolado, cheio de remendos e buracos. E para
que tal aconteça basta-lhe unir, cerzir, os limites desses abismos,
reconstruir a textura do tecido unindo as pontas que ainda mostram o que
eram e aonde pertenciam, como fazia uma cerzideira no rasgo de um tecido.
Só que já não se fazem fios daqueles, e os que usa
denotam a imprecisão da escolha e da mão, modificando de
tal modo o vestuário, mesmo pelo seu ponto de vista, que se torna
impróprio para uso e consumo. |
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