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Requiem antes da reinvenção Algures no Afeganistão, entre explosões brutais mas longínquas, no meio das ruínas imersas em pó que nos habituámos a ver nos ecrãs, podiam contar-se um, dois, três combatentes tadjiques. Nada de substancialmente diferente daquilo que encontramos nos milhares de fotografias desta guerra do fim do mundo, não fora o caso de o homem mais próximo da objectiva exibir no colete de lã, sorrindo com uma aparência de felicidade, um enorme e reluzente crachá I Love NY. O conjunto de treze crónicas que Pedro Paixão escreveu para a revista do Público parece trazer consigo, pregado na capa, esse mesmo pin vagamente fora de sítio. Corresponde, de facto, a mais outra das muitas declarações de amor que, a partir do dia do ataque suicida, foram pronunciadas ao pés da cidade que uma boa parte dos europeus mais cultos, magnânimos por uma vez ou desde há muito rendidos, entendem ser do melhor que os Estados Unidos da América têm. O que aqui mais importa não é, porém, a geografia. São as pessoas, as formas de humanidade que se encontram por detrás dos seus diferentes rostos, observadas por um estrangeiro – pois ainda existem estrangeiros em NY! – que conhecia um pouco da vida que ia correndo ao redor das torres gémeas, com amigos reais ou imaginados que as olhavam todos os dias. E que aterrou no aeroporto J.F.K., por entre um batalhão de compatriotas que regressava ao seu trabalho americano, com a intenção de perceber em torno de quê gira agora a lembrança que poderá continuar a guardar daquele lugar cheio (subtraídos dois) de edifícios próximos dos céus. Nestes textos curtos, escritos com toda a probabilidade ao ritmo da corrente das impressões vividas, as coisas já pouco importam. Os edifícios, as ruas, os semáforos, os traços no asfalto, os anúncios das lojas, os apartamentos, os táxis, tudo parece procurar um significado apenas porque ali não estão já as mesmas vozes, as mesmas paredes, os mesmos jobs de outrora. Que nunca ou quase nunca se nomeiam, mas que o leitor sabe terem ruído para sempre naquela que não parecia ser mais do que uma bela e ensolarada manhã de Setembro. Só porque se pressente no ar um medo da morte, ou de qualquer coisa ainda pior, sobre o qual é preferível não pronunciar uma palavra. De encontros e desencontros de pessoas é construída a narrativa. Gente de Nova Iorque que partilha um esforço evidente para fazer de contas que o pior já passou e que vivia naquelas semanas o simulacro de uma vida normal. Fazendo por prolongar os hábitos diante de um cenário incompleto e em cima de um palco estranhamente instável. PP deambula por entre criaturas assim, parecendo ele próprio – apesar do evidente pudor em referir o que a maioria entende dever calar – ainda mais desconfortável do que elas na forma de respirar um ambiente que não é o seu. Dorme pouco, muito pouco, ou nem sequer dorme, enquanto "toda Nova Iorque está a tomar Ambien, um soporífero novo no mercado". Sente-se, a todo o instante, esse sono em atraso colectivo. Mas encontra-se também, neste pequeno volume recomendável de capa adequadamente cinzenta, uma tentativa de intuir o porquê de tudo isto. Não uma justificação do horror, mas a busca de alguns dos motivos pelos quais foi aquela cidade o seu objecto privilegiado. No centro a clara noção de que as Trevas odeiam Babel, sendo o contrário igualmente verdadeiro. O mesmo PP que, como nos conta, "podia ser um terrorista", revela aqui uma profunda dificuldade em entender aquela fúria de destruição, saída das profundezas do abismo sob a forma metálica de quatro objectos voadores tardiamente identificados. A simpatia do autor vai toda para aquele país que nem sequer tem nome próprio, cuja história "é marcada por muitas violências, injustiças e derrotas", mas, apesar disso, "foi o primeiro a inscrever na sua Constituição o direito à total liberdade religiosa para qualquer credo". Onde a generalidade dos habitantes se reconhece numa diversidade – omnipresente em cada um destes artigos – incomodativa para esses mesmo intermediários de um mundo uniforme do qual NY era, será, justamente a antítese. Até porque, para sobreviver, a cidade precisa continuar a viver na dupla convicção de que nada será como dantes mas, ao mesmo tempo, o mundo permanecerá com os olhos cravados na sua vibrante existência. Ouve-se
assim um requiem que sai destas páginas. Um adeus português, vagamente
solene, a uma cidade à qual não resta outra coisa senão reinventar-se.
Lá nas proximidades do rio Hudson mas principalmente na cabeça das pessoas
que a vivem ou observam. Ao lê-las percebemos que nada é como foi e que,
de facto, tudo irá começar de novo. Pedro Paixão deixa-nos uma forte impressão
desta certeza. |
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