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Ardis
de uma vocação talvez romântica Persona, de Eduardo Pitta, é um exercício memorialista de travo confessional, escrito sob a forma de três contos morais. Parece haver quem espere do livro bastante polémica e sensação, sobretudo pela linguagem explícita e pela acção (homo)sexual. Sucede que nada há no livro que mereça escândalo: nem entre jovens nem entre soldados se espera linguagem cuidada, que a existir seria uma liberdade literária totalmente inverosímil. Do mesmo modo, ler estes contos como se a sua moral estivesse na questão do Império e do seu fim também pode parecer apetitoso, mas a lição não é institucional, antes pessoal. Portugal, do Minho a Timor ou não, nunca chega a estar em causa. Nem, de resto, a sociedade em geral (tantas vezes caricaturada para efeitos contestatários na arte gay). A moral da história de Afonso é outra, bem mais púdica. Disse púdica e disse bem. Na verdade, apesar do sexo constante, persiste sempre uma reserva de ordem íntima, sutentada na escrita pelo "desprendimento da maturidade". Íntimo, aqui, é aquilo que releva da ordem interior do sujeito, por oposição ao privado, que se prende com as relações entre sujeitos (em rigor, é do privado que se faz a matéria destes contos). A esfera pública, por seu turno, tende a figurar como cenário, pintado em tons diversos: encanto, repugnância, saudade, curiosidade, etc. Ora, a moral de Persona é a que se deixa entrever como o essencialmente íntimo entre a matéria privada de cada conto. Uma moral de experiências pessoais (persona, justamente), insusceptível de generalizações sociais, sejam elas gays, pós-coloniais ou outras. De início, o dia em que Marilyn Monroe morreu, Marilyn. Na superfície das coisas, conto de descoberta sexual. Na realidade, confissão de descoberta identitária bem mais completa. Nele não é Tiago quem importa, mas o psiquiatra: "Ao psiquiatra contou a escapadela. "Não há nada que deva envergonhar-te, nada." Foi um encontro decisivo que não voltou a repetir-se: "Não temos nada a corrigir." Nesse dia, Afonso percebeu quase tudo." Não por acaso, nos dois restantes contos Afonso já é maior — já foi vacinado. Depois, Kalahari. O deserto simboliza bem a fundamental esterilidade do sexo. É um conto já não de descoberta mas de experiência. Já sem tropeções na inexperiência, já sem temores. Mas sem alegrias óbvias, pois Ralph e o seu jeep são simples acaso — "Ambos sabiam que o Kalahari tinha sido um truque, um truque no meio do temporal." E os truques pouco importam. Tempestade, portanto. Diz-se Pesadelo, título do terceiro conto. O mais longo, carregado de digressões que lhe dão o ar de retrato histórico quando, efectivamente, servem sobretudo para reactivar o passado de Afonso. Esquema memorialista, tal como o tráfico incessante de corpos, afinal apenas reveladores de uma "atitude". A moral vem aqui à superfície. Persona é a história de uma perda — perda de uma vida, de um modo de vida — e Pesadelo é a narrativa do abandono: "Nunca nada seria a mesma coisa." Persona é
a memória da perda da inocência. Mas só a pode escrever quem a
reconquistou, ao menos um pouco. Não é pouco. Decididamente, o mundo recomeça. |
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