A cultura contra-ataca

[Carlos Leone]

Parece haver uma lei como que trinitária nas polémicas em Portugal: no verão foi a sucessão Camões no Secundário/Eça centenário/Venâncio&EPC em torno da crítica. Agora, na ressaca da "cultura" do Acontece, mais denúncias de poderes ocultos (a escola boavisteira ganha adeptos?) na comunicação social apanhada pelo polvo e, para compor o ramalhete, mais um estudo catastrofista sobre o nosso ensino. Como diria o outro, Que Fazer?

É uma agradável coincidência ver como a denúncia do polvo mediático socialista e dos silêncios por ele imposto (Pacheco Pereira, 5/12/01) acontece precisamente no dia em que o silêncio sobre as (hipó)teses de Eduardo Cintra Torres não podia ser menor. O que não invalidará muito do que é dito pelos denunciantes, mas não deixa de ser cómico.
Cómica é também mais uma denúncia dos desmandos do nosso Ensino Secundário. Atendendo às teses daqueles que vêem na TV o grande agente de socialização actual, poder-se-á concluir que também o descalabro literário-científico-matemático dos nossos petizes de 15 aninhos é obra do secretário de Estado Arons. Mais modestamente, talvez valha a pena notar algumas singularidades desse estudo da OCDE sobre o ensino. Dizem algo bem significativo sobre o jornalismo não tutelado pelo Estado, como o do Público.

1. O Público esclarece (5/12/01, p. 2) quais os critérios usados na escala que regula o estudo (relativamente à literacia). Nada é quantitativo, tudo é adjectivo. Apenas um exemplo do tipo de diferenças imaginativas usadas nos diferentes níveis: quem ficou no nível 4, é capaz de "localizar informação implícita ou construir significados a partir de subtilezas da linguagem"; os de nível 5 (o máximo) já são capazes de"encontrar e gerir informação difícil de encontrar em textos que não lhes são familiares e avaliar de forma crítica essa informação". Donde devemos depreender que o trabalho de "construir significados a partir de subtilezas da linguagem" não é uma"avaliação crítica" da informação de um texto. Então será o quê? Os exemplos podiam multiplicar-se, mas para quê? Ainda antes da descrição dos níveis, já o leitor sabe que "o que estava em causa era, exclusivamente, a capacidade de ler e gerir informação, pelo que erros ortográficos ou gramaticais nas respostas não foram considerados pelos avaliadores". Temos então que a construção de significados a partir de subtilezas da linguagem ou avaliações críticas de informação difícil de encontrar são trabalhos que dispensam o recurso à gramática. A OCDE talvez não sirva de muito para avaliar o Ensino Secundário, mas ajuda a compreender, decerto, algumas teses de Mestrado e Doutoramento que por aí se encontram, distintas, louvadas, publicadas e gabadas…

2. Palavras para quê? Um estudo destes, a menos que o jornal não tenha explicado capazmente, é absurdo. Mas admitamos que é um problema de transmissão, admita-se que a OCDE não brinca em serviço (apesar de usar textos informativos nos seus testes em vez de épica renascentista…). Como explicar que os alunos de 15 anos de hoje tenham resultados abaixo da média internacional quando, em 1991, o mesmo teste (então realizado com alunos da mesma faixa etária, sensivelmente), colocava os portugueses acima dessa média? O melhor que se consegue especular é de natureza sociológica: em 1991 a taxa real de escolarização nessa faixa etária era de 53%, enquanto agora ultrapassa 90% - a democratização tem custos imediatos que só o longo prazo compensa, aqui como no resto. Mas, para as mentes preclaras que denunciaram a substituição dos Lusíadas por textos jornalísticos e agora se espantam com a incapacidade dos jovens em perceberem textos informativos (a sério?!), a explicação não é sociológica, é ideológica: há uma Esquerda regida pelo "eduquês" que não preza a liberdade, nem a transparência, nem a disciplina. Claro que o modo de fazer tudo isso quando se duplica a taxa de escolarização sem que as condições de vida gerais melhorem não é explicado. E para quê, afinal? Não é evidente que o rendimento das famílias não é para aqui chamado? A distinção entre ricos e pobres é pequena (claro, estudar não custa…), importante é a família cristã do prof. Espada, que "cultiva ambientes familiares estáveis, onde se valoriza o estudo, de ambientes familiares desfeitos, onde se pratica o desenrascanço" (a habitual subtileza analítica do director do Público não nos fornece, infelizmente, a fonte destes dados tão elucidativos e categóricos). A Esquerda liberal dos anos 80 já sabe que o Rendimento Mínimo Garantido não serve para nada. E até desperdiçamos dinheiro no ensino.

3. O caso não é exclusivamente português. A próspera Alemanha também está abaixo da média internacional em tudo, o que tem de significar que vai deixar de imediato de ser a locomotiva da Europa, não é? Um pouco por todo o lado, pelo que conta o Público de hoje (6/12/01) as reacções políticas são inanes. O problema da educação, pré-primária, Secundária ou doutoral, resume-se ao facto de nascerem pessoas no mundo e de não ser inteligente deixá-las à sua sorte. Nem, bem entendido, à sorte daqueles que fazem testes com critérios tão geniais como estes da OCDE.

O que diz este estudo sobre o jornalismo privado? Diz-nos que, tal como o DN, da PT (dos socialistas!) faz propaganda sensacionalista em favor de causas políticas aliás bastante defensáveis (como a redução da taxa de alcoolémia), o Público da Sonae clama "Tragédia" quando os nossos níveis internacionais estão próximos dos da Alemanha. A "Nova Cidadania" não precisa de aumentar a sua tiragem, o ministério da Educação já tem aqui bastante com que se preocupar. Para quê discutir a sociedade quando se pode urrar sobre o ensino? Valha-nos o Harry Potter (que até é mais maneirinho que o Senhor dos Anéis) na sua cruzada antipósmoderna.

PS - Claro que virá o dia, decerto não muito longínquo, em que o respeito pelas famílias estáveis excluirá do noticiário do Público casos como o da rapariga de Famalicão, com 15 anos vividos em ambiente familiar desfeito, violada por cinco colegas de famílias como-deve-ser numa sala anexa a uma Igreja. A bem do futuro da Nação.


Dez.01