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1. Quem, pergunto-me, terá resistido ao Acontece especial de 2 horas espalhadas em 2 canais, especialmente depois de um início tão promissor, com dois jornalistas devotos da bola, mais o João Pinto, muito compenetrados na explicação do profundo vínculo entre o literário e o nobre ofício do tackle? Eu ainda me lembro quando o Acontece começou a acontecer, anunciado nuns spots muito mexidos, muito dinâmicos, em que uma câmara em movimento filmava o Carlos Pinto Coelho, sentado a fumar o seu cigarrinho, dizendo, muito sentido: "Não, isto não é um telejornal da cultura". Afinal, parece agora que a RTP tem o único telejornal cultural da Europa. E que cultura! 2. Tal como nas polémicas
sobre crítica em que não se discute o que é crítica
e o que não é (a polémica Prado Coelho/ Venâncio
no DN), ou sobre ensino em que não se discute o que vem este a
ser (Os Lusíadas, Deus meu!), também no Acontece
1600 ninguém pariu uma ideia, qualquer uma, sobre o que é
cultura. Com uma audiência daquelas, cheia de candidatos autárquicos,
gerentes, vendedores e camaleonências sortidas, não espanta. 3. Cultura, no Acontece, é uma espécie de MundoVIP da edição nacional: edição livresca, predominantemente; mas também edição cinematográfica, jornalística, radiofónica, musical, etc. "O pessoal conhece-se todo" em versão "então, por aqui?" Donde, não espanta que um ausente, o reincidente Pacheco Pereira - reincidente, pelo menos, para quem se lembrar de uma polémica de 1998 com Manuel Carrilho ou de uma diatribe posterior sobre a falta de edições académicas valiosas no nosso torrãozinho -, tenha vindo a Público (29/11/01) denunciar "o sistema" - ora nem mais! E o que é este sistema? Quem são os seus Isidoros Rodrigues e os seus Calabotes, os seus majores e múltiplos Pintos? Pacheco, forte da sua erudição kominterniana, assevera que se trata de um establishment de Esquerda (não falou ele há pouco de um Estado socialista?) que evita a polémica pública para garantir subsídios à discrição. Esses estavam lá todos, os malandros, os que "constróem as primeiras páginas dos jornais culturais" (quais? E será só desses?), "com dinheiros públicos" (eis um tópico da boa Esquerda liberal ). 4. Claro que Pacheco
Pereira tem razão quando se retrata "cumplicidades e compromissos
e todo o imenso 'trade-off' entre encomendadores, dadores de prémios,
controladores do acesso ao 'podium' mediático, subsidiadores diversos
e políticos fraternais". Desde logo, conhece-os bem dos lançamentos
dos seus monos dedicados a Cunhal, ou de clubes tão brilhantes
como aquele de onde despontaram as inteligências fulgurantes de
João Carlos Espada (teórico nacional de Harry Potter) e
do director do Público. E, nisso, tem o mérito adicional
da autocrítica. Mas, tal como em 1998 pouca autoridade tinha para
criticar uma política cultural, a de Carrilho, depois de anos de
silêncio sobre a inexistência dessa política sub specie
cavaquensis, vê-lo agora promover Vasco Graça Moura, o Prado
Coelho da Direita, a crítico do "sistema" é mágico.
É do além, como talvez dissesse a Teresa Guilherme (sim,
e qual foi o machado que cortou a raiz do pensamento da Teresa Guilherme
aquando do Acontece 1600?). 5. O singular no
retrato de Pacheco é o esquecimento: todo o friso do Acontece estaria
presente, corrijo, esteve omnipresente na corte cavaquista, sem que esta
necessitasse, sequer, de envergar qualquer veste cultural. O Eduardo em
Paris. O Vítor a comissariar a Lx94. O verdadeiro Eduardo, sem
complexos de Marx, em Roma. O José Carlos Vasconcelos com todos
como sempre. Afinal, quem não esteve? Lá estiveram todos,
excepto alguns que não precisavam (Soares) ou não podiam
(os congressistas dos "colóquios" de Soares), como estão
todos agora no Acontece, onde o próprio Pacheco só
não esteve porque não pôde, como amavelmente nos informa. 6. Excepção
seria alguém, digamos um vice presidente do Parlamento Europeu,
eventualmente social democrata, perguntar-se, ou perguntar ao seu líder,
se é sequer concebível apoiar um autarca como o de Famalicão
numa cultura política que se quer democrática. Ou um crítico
dos media e da mediatização dos tribunais e da política
perguntar a quem de direito (expressão algo problemática,
em Portugal) como se explicam processos como o da miúda violada
ou o das mulheres acusadas de aborto ilegal. Isso seria uma excepção
cultural, porventura uma revolução cultural. PS - No dia em que
escrevo, mais uma polémica bem portuguesa, daquelas que Pacheco
Pereira preza, viva de diferenças. Lá estão Hélder
Macedo, Nélson de Matos e Inês Pedrosa a defecar na campa
de Cardoso Pires. E agora, José? Agora talvez seja oportuno reler
polémicas antigas, como a relativa ao saudosismo, entre Pascoaes
e Sérgio, para ver a diferença e meditar como a (escassa)
modernidade serve para tão pouco quando entregue às mãos
dos Graças e dos Prados. E também tuas, Pacheco? |
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