Ai que saudades do saudosismo!

[Carlos Leone]

1. Quem, pergunto-me, terá resistido ao Acontece especial de 2 horas espalhadas em 2 canais, especialmente depois de um início tão promissor, com dois jornalistas devotos da bola, mais o João Pinto, muito compenetrados na explicação do profundo vínculo entre o literário e o nobre ofício do tackle? Eu ainda me lembro quando o Acontece começou a acontecer, anunciado nuns spots muito mexidos, muito dinâmicos, em que uma câmara em movimento filmava o Carlos Pinto Coelho, sentado a fumar o seu cigarrinho, dizendo, muito sentido: "Não, isto não é um telejornal da cultura". Afinal, parece agora que a RTP tem o único telejornal cultural da Europa. E que cultura!

2. Tal como nas polémicas sobre crítica em que não se discute o que é crítica e o que não é (a polémica Prado Coelho/ Venâncio no DN), ou sobre ensino em que não se discute o que vem este a ser (Os Lusíadas, Deus meu!), também no Acontece 1600 ninguém pariu uma ideia, qualquer uma, sobre o que é cultura. Com uma audiência daquelas, cheia de candidatos autárquicos, gerentes, vendedores e camaleonências sortidas, não espanta.
Cultura seria discutir a espantosa juíza famalicense que manteve secreta uma decisão judiciária relativa a um caso de violação repetida de uma menor, aliás bem acolhida na "sociedade civil" local (o social democrata Presidente da Câmara declarou que só foi violação porque ela não aguentou com os 5 moços), para melhor os poder repreender oralmente. Ou o caso também nortenho de um outro julgamento, pelos vistos igualmente muito pouco interessante para a comunicação social, de mulheres que, por abortarem, ainda são objecto de punição judiciária. Cultura poderia ainda ser a taxa, os 0,2 e os 0,5, esse mistério esotérico-acusmático da governação socialista. Mas não.

3. Cultura, no Acontece, é uma espécie de MundoVIP da edição nacional: edição livresca, predominantemente; mas também edição cinematográfica, jornalística, radiofónica, musical, etc. "O pessoal conhece-se todo" em versão "então, por aqui?" Donde, não espanta que um ausente, o reincidente Pacheco Pereira - reincidente, pelo menos, para quem se lembrar de uma polémica de 1998 com Manuel Carrilho ou de uma diatribe posterior sobre a falta de edições académicas valiosas no nosso torrãozinho -, tenha vindo a Público (29/11/01) denunciar "o sistema" - ora nem mais!

E o que é este sistema? Quem são os seus Isidoros Rodrigues e os seus Calabotes, os seus majores e múltiplos Pintos? Pacheco, forte da sua erudição kominterniana, assevera que se trata de um establishment de Esquerda (não falou ele há pouco de um Estado socialista?) que evita a polémica pública para garantir subsídios à discrição. Esses estavam lá todos, os malandros, os que "constróem as primeiras páginas dos jornais culturais" (quais? E será só desses?), "com dinheiros públicos" (eis um tópico da boa Esquerda liberal…).

4. Claro que Pacheco Pereira tem razão quando se retrata "cumplicidades e compromissos e todo o imenso 'trade-off' entre encomendadores, dadores de prémios, controladores do acesso ao 'podium' mediático, subsidiadores diversos e políticos fraternais". Desde logo, conhece-os bem dos lançamentos dos seus monos dedicados a Cunhal, ou de clubes tão brilhantes como aquele de onde despontaram as inteligências fulgurantes de João Carlos Espada (teórico nacional de Harry Potter) e do director do Público. E, nisso, tem o mérito adicional da autocrítica. Mas, tal como em 1998 pouca autoridade tinha para criticar uma política cultural, a de Carrilho, depois de anos de silêncio sobre a inexistência dessa política sub specie cavaquensis, vê-lo agora promover Vasco Graça Moura, o Prado Coelho da Direita, a crítico do "sistema" é mágico. É do além, como talvez dissesse a Teresa Guilherme (sim, e qual foi o machado que cortou a raiz do pensamento da Teresa Guilherme aquando do Acontece 1600?).

O Vasco que compete com o Eduardo nas comissões avulsas. O Vasco que depois de insultar Guterres de tudo (vigarista, estúpido, demagogo, traidor, etc.) ficou impávido no seu cargo de confiança política directa do Primeiro Ministro até ser justamente posto a andar em direcção ao prémio Pessoa, atribuído pelos insuspeitos leitores da Divina Comédia que são o advogado Veiga e o magnate Balsemão. O Vasco, cujo curriculum de ordinarices e barbaridades dispersas de novo compete com as quatro décadas de miséria moral do Eduardo (este ultimamente entretido com Júlio Conrado, autor de um título memorável como "Maldito entre as Mulheres"). O Vasco, tão sério que é simultaneamente eurodeputado, ministro sombra e candidato autárquico - fora afazeres profissionais, claro. O novo camarada Vasco, enfim, que, como o nosso pobre Pacheco, está excluído do "clube privado" da Esquerda que vai dos Soares ao Bloco (se ao menos o clube fosse inglês, o Espada dava uma palavra amiga…). Excluídos?

5. O singular no retrato de Pacheco é o esquecimento: todo o friso do Acontece estaria presente, corrijo, esteve omnipresente na corte cavaquista, sem que esta necessitasse, sequer, de envergar qualquer veste cultural. O Eduardo em Paris. O Vítor a comissariar a Lx94. O verdadeiro Eduardo, sem complexos de Marx, em Roma. O José Carlos Vasconcelos com todos como sempre. Afinal, quem não esteve? Lá estiveram todos, excepto alguns que não precisavam (Soares) ou não podiam (os congressistas dos "colóquios" de Soares), como estão todos agora no Acontece, onde o próprio Pacheco só não esteve porque não pôde, como amavelmente nos informa.

Sobre a submissão geral ao poder socialista, diz Pacheco que "as excepções, também aqui, confirmam a regra". Mas quais excepções?

6. Excepção seria alguém, digamos um vice presidente do Parlamento Europeu, eventualmente social democrata, perguntar-se, ou perguntar ao seu líder, se é sequer concebível apoiar um autarca como o de Famalicão numa cultura política que se quer democrática. Ou um crítico dos media e da mediatização dos tribunais e da política perguntar a quem de direito (expressão algo problemática, em Portugal) como se explicam processos como o da miúda violada ou o das mulheres acusadas de aborto ilegal. Isso seria uma excepção cultural, porventura uma revolução cultural.

Enquanto isso não acontece, lá temos de ler diatribes contra a cultura oficial, na qual os investigadores sérios deste país, que Pacheco nos garante serem os Pulidos Valentes, as Mónicas e os Barretos, como se sabe, não têm qualquer lugar, "excluídos" que são pelos interesses do "sistema". Basta ir à Gulbenkian e confirmar, não é?

PS - No dia em que escrevo, mais uma polémica bem portuguesa, daquelas que Pacheco Pereira preza, viva de diferenças. Lá estão Hélder Macedo, Nélson de Matos e Inês Pedrosa a defecar na campa de Cardoso Pires. E agora, José? Agora talvez seja oportuno reler polémicas antigas, como a relativa ao saudosismo, entre Pascoaes e Sérgio, para ver a diferença e meditar como a (escassa) modernidade serve para tão pouco quando entregue às mãos dos Graças e dos Prados. E também tuas, Pacheco?

Nov.01