Real, demasiado surreal

[Carlos Leone]

Para quem duvidasse da utilidade que as comemorações podem ter, o centenário de José Régio, este ano celebrado entre os limites das faculdades de Letras, merece bem uma menção nesta hora tão absurda de uma polémica sobre o surrealismo português que mais parece saída da Assembleia da nossa República. Como era de prever, dados os eventos e os participantes, o centenário do nascimento de Régio passou ao lado de tudo e de todos, por motivos bem compreensíveis: limitado ao mundo dos estudos literários, quase exclusivamente académicos (e que sentimento Régio não teria se soubesse…), incluindo figuras que se destacaram pelos contributos prestados à desinformação sobre Régio e a "Presença" (maxime Eduardo Lourenço), sobrevalorizou-se o Régio criador (poeta, romancista, dramaturgo) e ignorou-se o crítico, maior, que também foi. Ora, muito a propósito, vê-se agora, com o triste espectáculo protagonizado por instituições supostamente respeitáveis como o Museu do Chiado, o MEIAC e a Fundação Cupertino de Miranda, os lamentáveis efeitos do esquecimento das lições presencistas sobre arte e crítica. Em questão uma exposição sobre surrealismo português apresentada no Chiado, levada ao MEIAC e agora em exibição (em versão modificada) na Fundação de Famalicão.

Que lições? Desde logo, a necessária independência do juízo estético de todos os preconceitos ideológicos, políticos, pessoais, institucionais, etc. Ou seja, a autonomia de crítica e criação face a outros domínios de acção e reflexão, não por um qualquer "umbiguismo" (Cunhal contra Régio em 1939), mas devida a um indispensável princípio de honestidade intelectual e, sobretudo, moral - esse, afinal, o sentido último, ético, de Régio quando escrevia sobre "sinceridade". Esse, de igual modo, o espírito da "Presença", ainda que sem a unidade que Gaspar Simões lhe atribuía e, sim, com as matizes várias que Casais Monteiro salientava.

O alegado isolamento numa torre de marfim da "Presença" é uma mistificação doutrinária do comunismo português na sua luta pelo domínio nos meios intelectuais da oposição, como bem atestam os percursos individuais dos principais nomes da única revista do modernismo crítico em Portugal. E, na realidade, se algum outro grupo intelectual devia ser sensível a isto, devia ser o do Surrealismo, também ele perseguido pelos neorealeiros do seu tempo. É por isso confrangedor ver agora Cesariny a invocar motivos (não se trata de argumentos, na verdade apenas são apenas ressentimentos) de ordem ideológica para negar a possibilidade de uma determinada obra ou certo autor serem surrealistas. Ainda mais confrangedor, na verdade inacreditável, é ver que quem se presta a legitimar esta barbaridade é o nosso mais interessante historiador da Arte, Bernardo Pinto de Almeida.

Sem grandes conhecimentos no meio, e indisposto a recorrer aos poucos que estão ao meu alcance, limito-me a constatar o que os jornais (Público) evidenciam. A saber:
1. Cesariny não pensa, apenas sentencia (coitado do Casais Monteiro, que gostava tanto de dizer que os artistas eram, ao menos potencialmente, os melhores críticos!);
2. As sentenças de Cesariny não são objecto de discussão, mas apenas fonte de partidarização em torno de aspectos formais (legitimidade da exposição em causa) e de aspectos pessoais (as relações de BPA com as pessoas do Chiado); nada se diz sobre a natureza da questão - é ou não António Pedro autor de obra surrealista?
3. A inconsequência total de todo o folhetim, no fim do qual todos vão continuar nos seus respectivos lugares sem ninguém ser responsabilizado por nada nem se sentir obrigado a nada. Não é só uma questão de descrédito das instituições, é uma questão de irresponsabilidade pessoal elevada a expressão colectiva. Não é surrealista, é só português.

Claro, quem não tem necessidades práticas (dinheiro, prestígio, postos) envolvidas no caso não se priva de falar livremente e como a circunstância exige: a censura (é o termo) a António Pedro, diz José-Augusto França, "é uma pulhice, que tem os seus autores e os seus cúmplices". Não os refere, claro, mas presume-se que se refira a Cesariny, no primeiro caso, e a Pinto de Almeida e Perfecto E. Quadrado no segundo. Se assim é (e especialmente se assim não for), porquê o silêncio quanto aos nomes? Portugal, pátria de heróis… Um dos presumíveis cúmplices, vendo entretanto o buraco onde se meteu, já diz que doravante só fala de questões de História de Arte - até que enfim, meu caro Bernardo!

Triste cena, esta em que os surrealistas se censuram por motivos ideológicos. Triste ano este em que se vê como a única Escola crítica que alguma vez tivemos (sem sequer recorrer às importações teóricas do costume), a de Régio e poucos mais, está esquecida por completo. Ou quase. Leia-se, no Público de 10 de Novembro, o artigo de Helena Matos. Ao menos fora dos suspeitos do costume um pouco de sinceridade.

Em 2002, passam 30 anos sobre a morte de Adolfo Casais Monteiro. Uma segunda oportunidade para falar da "Presença" com ela merecia e este ano se evitou.

P.S. Para que não restem dúvidas nestas coisas, aquelas dúvidas que interessam muito aos "entendidos", desde já se informa que este artigo corresponde a uma solicitação do editor (não especificamente sobre este tema) e que, dos envolvidos nesta querela surrealista, apenas conheço Bernardo Pinto de Almeida, por quem tenho grande estima, intelectual e moral, e com quem não comunico há mais de um ano.

Nov.01