|
|
Sobre
uma biografia O subtítulo da obra informa o leitor que se trata de "uma biografia política". O facto de ser "uma" e não "a" é, ou seria, caso não se tratasse de um artifício retórico de autodefesa, relevante para o que nos interessa: é o primeiro elemento que encaminha a recepção deste trabalho para o da sua integração na actual reabilitação do fenómeno estritamente político (embora o "estritamente" seja, no caso, problemático) nas ciências sociais e, muito em particular, na historiografia. As declarações públicas do autor a respeito da sua obra e a respeito de outros autores como António Barreto, Maria Filomena Mónica ou Vasco Pulido Valente não deixam margens para dúvidas; trata-se aqui da recuperação do modelo narrativo da História tradicional, com heróis, vilões, batalhas, tragédias (escassas comédias), enganos funestos e ainda mais funestos acertos, antevisões sombrias de realidades entretanto vividas - a biografia revela-se deste modo o veículo literário apropriado, mesmo ideal, para reciclar um modo de fazer história em que muito se desinvestiu na segunda metade do século XX. Desinvestimento justo ou infeliz, não importa aqui. Certo é que estes dois volumes da biografia política são indubitavelmente a mais bem sucedida expressão pública (e bem junto do público, a avaliar pelo sucesso de vendas) daquilo a que talvez já se possa chamar a "escola ICS", filial local de alguma historiografia europeia de tendência reaccionária (não limitada aos países de língua inglesa, ao contrário do que por vezes se pensa). Nesta escola há desde a competência de Rui Ramos à escrita romanesca de Pulido Valente, desde a simplicidade de Filomena Mónica à teorização esforçada de Fátima Bonifácio. Haveria outros nomes, mas não é a fulanização que importa. Decisivo é perceber a influência pública, em especial através de meios de comunicação social tradicionais (predominantemente a Imprensa dita de referência), que este tipo de pensamento voluntariamente retrógrado (é o termo) dispõe hoje não só na Academia mas junto do grande público, naquilo que é a recuperação de esquemas mentais tradicionalistas, aliás muito cultivados pela historiografia de regime no Estado Novo, erigidos em torno de "figuras históricas" e de "acontecimentos únicos". Se a questão do seu sucesso mediático é facilmente compreensível para quem tiver um mínimo de treino na descodificação do funcionamento dos meios de comunicação, a dimensão académica do fenómeno suscita um desafio propriamente teórico à história das ideias e é por isso mesmo que importa pensar o que estes dois volumes já deixam perceber. Em "Álvaro Cunhal", a biografia é o género literário, a história política é a escola teórica. No entanto, a matriz teórica é mais compósita do que esta linearidade deixa supor. Na trama biográfica imbricam-se elementos da história das instituições, também ela ainda pouco relevante em Portugal (mas na qual reencontramos, em alguns trabalhos, Maria Filomena Mónica) e mesmo da história das ideias. Em rigor, não podia ser de outro modo. Mesmo num trabalho orientado para o cruzamento de investigação (o registo da história política) com divulgação (a trama romanesca fornecida, brilhantemente, pela biografia), o edifício não poderia ambicionar o reconhecimento inter pares sem fazer uso de um meio para caracterização da época em que decorre a acção e de outro para a sua avaliação. O primeiro consiste na análise (pouco mais que rudimentar, na realidade, mas com indicações bibliográficas pertinentes para análises mais desenvolvidas) das principais estruturas sociais em Portugal, sobretudo aquelas com que o PCP mais directamente teve de se confrontar: os meios oposicionistas, a Igreja, o Estado Novo (e, neste, o Estado paralelo da PIDE), e, não menos importante, em determinadas alturas, o próprio PCP. Na economia argumentativa da obra, apenas um destes elementos, o Partido Comunista, merece tratamento diferenciado e específico, sendo os restantes analisados no decorrer da exposição do autor, consoante as necessidades da narração e da leitura. Em todo o caso, e dada as complexas relações entre todas estas instituições entre si, faz-se aqui um esboço de história das instituições tanto mais importante quanto ele está em falta na historiografia portuguesa. Sobre o PCP, em particular, é praticamente imprescindível. O que só vem reforçar a dimensão de história das ideias presente neste trabalho. Como, infelizmente, sucede em quase todo o trabalho em história das ideias em Portugal, a teoria ("história e teoria das ideias") fica para trás. A estes respeito, nada de novo. Não por acaso, foi a história das ideias, e não a história dos conceitos, que se desenvolveu entre nós, e o resultado é visível em obras como esta, em que a história das ideias tinha um terreno completamente aberto (a história da ideia de comunismo em Portugal). Temos assim um reforço pela biografia da corrente dominante das história das ideias, na qual a história se sobrepõe, como que de forma evidente, às próprias ideias. Por outras palavras, também nestes dois volumes se preferiu a contemplação do cenário histórico à sua análise teórica. É um abandono demasiado frequente no pensamento português, já ocorrido no projecto abandonado de Eduardo Lourenço que chegou até nós na forma de Os Militares e o Poder (pensado como um tríptico sobre os militares, a burguesia e a Igreja). Em todo o caso, a simples narrativa histórico-biográfica, com o seu enredo de grandes batalhas ideológicas, clandestinidade, violência, peripécias múltiplas, rivalidades pessoais (pouco exploradas, dado o carácter político da biografia), revela um mundo político cuja acção decorria de forma muito diferente do actual partidarismo parlamentar. Mundo esse cujas ideias raramente são discutidas, pois são expostas com uma naturalidade que o autor talvez associe à imparcialidade do historiador ou a alguma forma política de realismo (se se confundir este com cinismo), falhando-se por este equívoco uma discussão ainda por fazer, dada a estreiteza teórica do pensamento português (não só historiográfico; já muitos, desde Eduardo Lourenço a Boaventura de Sousa Santos, se queixaram da nossa falta de imaginação teórica), do radicalismo político em Portugal. Um mundo perdido, quase esquecido, onde tudo, inclusive o rapto, a tortura e o assassinato servia de arma disponível a todos (sem excepção ) os envolvidos: Estado Novo, PCP, potências estrangeiras. Desse mundo apresenta-se aqui o retrato, tão fiel quanto possível, das muitas hesitações e inconsistências no percurso histórico do comunismo português, quase sempre sob influência directa ou indirecta de acontecimento ligados ao movimento comunista internacional. Notar as contradições e apresentar documentos que as comprovam é importante, mas de alguém com a preparação teórica de José Pacheco Pereira seria sempre possível esperar mais. O preço que a obra paga pela opção político-romanesca desta biografia que, mais do que de Cunhal, é nestes primeiros dois volumes do próprio PCP, de numerosos militantes seus hoje apagados (literalmente) pelo Partido pelo qual deram a sua vida, faz-se sentir em várias ocasiões. No primeiro volume, na menção superficial à polémica nas páginas da Seara Nova entre Cunhal e José Régio, a qual marca um facto decisivo na vida cultural, social, portuguesa do século XX, a implantação, a consagração, do neo-realismo (o eufemismo que os comunistas portugueses congeminaram para se referirem ao realismo socialista apesar da censura) nos meios intelectuais. Longe de ser um caso isolado, trata-se de um episódio central na vida artística (mais do que unicamente literária) portuguesa, cuja importância intrínseca se veio a confirmar já na década de 1950, na chamada polémica interna do neo-realismo, à qual Cunhal vem pôr um fim, ainda e sempre ideológico, a partir da prisão (sob o pseudónimo Fernando Vale). Talvez o próximo volume da biografia permita recuperar a questão e dar-lhe a importância que teve na altura e que manteve até bem depois do 25 de Abril de 1974. Outros exemplos poderiam ser aduzidos (um similar é o que abre o segundo volume, a polémica entre Cunhal e Abel Salazar), mas mais do que uma rapsódia de motivos de queixa avulsos, é possível ensaiar uma explicação, teórica, para as limitações globais das opções efectuadas pelo autor. Na aparência, a atenção à linguagem é grande. O primeiro volume, que cobre o período de juventude de Cunhal (1913-1941), qual Bildungromans, tem como frontispício uma citação de Leo Strauss (de Persecution and the Art of Writing) que incide sobre os processos mentais da linguagem, tanto na acção como na reflexão, e sobre os seus efeitos no trabalho, na arte, da escrita. Desafortunadamente, nem nesse primeiro tomo nem no segundo, que se reporta à década de 1940 (período agitado da vida do partido no qual a progressão, aliás hesitante, de Cunhal nas fileiras é realizada), a linguagem chega a ocupar o lugar central que é o seu. A questão, a que Pacheco Pereira, prefaciador da edição de 1984 da Moraes do Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de Orwell devia ser sensível, é a da centralidade daquilo que Orwell designava "vocabulário tipo B" (no Apêndice ao romance). Ou seja, a natureza totalitária do discurso político do PCP (mais consciente do que o próprio regime que combatia, ou não tivesse Cunhal, em vez de coronéis na reforma, como censor), cujo propósito é descrito na perfeição por Orwell: "A intenção era tornar a fala, principalmente no que respeitava a assuntos que não eram neutros, tanto quanto possível independente da consciência. Nos assuntos da vida quotidiana era por vezes necessário pensar antes de falar, mas sempre que um membro do Partido era obrigado a fazer um juízo de carácter ético ou político, tinha de ser capaz de emitir opiniões correctas quanto uma metralhadora a disparar." A citação poderia prosseguir, mas este trecho basta. Há momentos em que estes processos característicos da "Novilingua", maxime "duckspeak", surgem no seu mais completo esplendor (no primeiro volume, cpt. 13, a respeito da posição de Cunhal e do PCP sobre o aborto), mas são excepções. É por esta insuficiência teórica, quanto à própria linguagem em que se trabalha um mundo político regido conscientemente, mais do que qualquer outro antes dele, pela linguagem em que se exprime (e oprime), que este trabalho se perde nos dois volumes já publicados. Uma vez mais, nos próximos volumes haverá oportunidades mais que suficientes para emendar a mão, mas não parece provável que essa possa ser uma hipótese sequer contemplada pelo autor. Donde, o projecto biográfico, pensado para se deter no 25 de Abril, perde ainda uma outra oportunidade, a de se tornar a primeira história do PREC, período no qual a linguagem (e, com ela e através dela, o PCP) assumiu uma dimensão política única. Além disso, foi nele que o PCP, livre da perseguição policial e ainda não circunscrito aos funcionamentos rotineiros da democracia parlamentar, mais cresceu e mais poder adquiriu. Sem esse período, a biografia do homem que deteve o caminho para a guerra civil em 1975 ficará, decerto, incompleta. É pena, tanto
mais porque, apesar de um modo de citar incómodo de seguir, os
volumes apresentam um trabalho de organização (índices,
por exemplo) invulgarmente cuidado para edições portuguesas,
mesmo académicas, o que permitiria um trabalho sobre a linguagem
ainda mais fecundo. Em vez disso, temos uma história, mais uma,
em que faltam as ideias. |
|