Criação e crítica
no centenário de José Régio
Notas provisórias

[Carlos Leone]

Se há uma união de crítica e criação no pensamento de Adolfo Casais Monteiro, tal como se pode ver em Considerações Pessoais (cf. pp. 27/8), ela atinge a sua forma mais explícita na Obra de José Régio. O que, aliás, vem confirmar uma afirmação de João Gaspar Simões em José Régio e a História do Movimento da "Presença", onde o caso fica bem exposto a propósito do surgimento da revista:

Pela primeira vez em Portugal, ao que suponho, a palavra "literatura" não figurava à cabeça de um periódico de escritores. E se era verdade que o artigo de fundo da Presença se intitulava Literatura Viva, o certo é que a primeira frase desse artigo dizia textualmente: "Em Arte é vivo tudo o que é original." Efectivamente alguma coisa se passava de inédito adentro dos arraiais desse grupo de rapazes que se não proclamavam literatos nem se orgulhavam de manejar uma pena, e cujo maior título de orgulho, pelo contrário, era que tomassem simplesmente por "Artistas". (p. 144)

O que vem isto a significar? Ou, de outro modo, o que vem a ser um artista presencista? Numa fórmula breve, talvez as melhores palavras sejam ainda de Adolfo Casais Monteiro, em Considerações Pessoais:

Os artistas foram sempre os anunciadores: pela arte, a humanidade vê exprimir-se aquilo que obscuramente pressente, mas só a alguns é dado revelar. Não significa isto que o artista tenha a missão de formular as aspirações da humanidade. O artista não tem qualquer missão: a sua obra, vista passados anos ou séculos, é que nos parece ter esse significado. O artista é um homem que, vivendo intensamente, é sempre um porta-voz da revolta, já que a sociedade em que vive o oprime. Sendo o artista uma consciência de extrema sensibilidade, reclamando liberdade para a sua maneira de ser, é inevitável o conflito com a sociedade, que tende sempre para a estratificação e para o conformismo. (p. 210)

O artista não tem qualquer missão, só a sua obra parece tê-la. É este o lance da Presença. Ora, isto suscita problemas bem conhecidos: não falo do academismo, pois basta conhecer o percurso formativo e profissional, e as declarações dos presencistas sobre a Academia, para sorrir perante semelhante dislate; falo, sim, de três problemas reais - o da "arte pela arte", o da "literatura viva" e o da sinceridade. São estes os problemas capitais do presencismo e é na obra de José Régio, nos seus textos publicados na Presença, que melhor são pensados, encontrando-se reunidos em Páginas de Doutrina e Crítica da "Presença" .

O que é a arte pela arte? Originalmente um programa oitocentista, que logo na sua época foi denunciado por Nietzsche (algures no Crepúsculo dos Ídolos) como "a última forma de moral em arte". E pouco mais haveria a dizer, caso Régio não tivesse reformulado a noção. Com efeito, a posição de Régio, e dos restantes críticos da Presença, recupera o lema da "arte pela arte" por força de um imperativo político de resistência aos usos partidários da arte, quer pelas diversas facções republicanas da época quer pela "política do espírito" que António Ferro implanta no Estado Novo. Só uma salvaguarda radical da arte poderia permitir a sobrevivência desta enquanto distinta da propaganda. Naquela que é a sua expressão mais sintética, a posição de arte pela arte de Régio afirma em "Literatura Livresca e Literatura Viva": "A arte é uma recriação individual do mundo" (p. 47). Definição que não satisfazia completamente o próprio Régio mas que permitia realçar a importância da mundividência do artista na sua obra - ou seja, é nesta mundividência que a crítica (bem como a política ou a religião, para dar apenas outros dois exemplos ) está presente na obra de arte:

Já pressentimos, pois, como as preocupações, os interesses, as investigações de ordem política, religiosa, moral ou social, entram na obra de arte: É simplesmente como excitantes, como agentes, como motivos, como pretextos mais ou menos conscientemente considerados pretextos. A finalidade da Obra será, consciente ou inconscientemente, a finalidade estética. Tudo o que faz um homem entrará na sua Obra, e tanto mais quanto mais profunda e sincera for essa Obra: mas se o homem é um artista, a sua Arte será a única e verdadeira solução da sua Obra. (p. 49)

Eis o que significa a arte pela arte em Régio e na Presença: não o ignorar do mundo mas o seu tratamento artístico específico. Neste ponto, a questão de saber o que vem a ser a arte por excelência dos presencistas, a literatura, é incontornável. A literatura quer-se viva e, em "Literatura viva", Régio explica o que quer dizer: "Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura viva que ele produza será superior; inacessível, portanto às condições do tempo e do espaço." (pp. 19/20). O problema está na falta de artistas à altura deste repto, como Régio acusa em "Literatura Viva e Literatura Livresca":

Eu insisto: tendo acusado os nossos Artistas de se deixarem corromper, amolentar, degradar naquilo mesmo que tinham de mais próprio, de mais pessoal e humano, acuso-os ainda de estreiteza de personalidade na própria parte mais viva da sua obra. Acuso-os de não terem possibilidades de alargamento, de renovação e de enriquecimento - ou de terem esterilizado essas possibilidades pela sufocação do meio que se criam; pela seu espantoso desconhecimento da arte moderna; pela sua manifesta ou esconsa hostilidade contra todas as ousadias - mesmo as mais fecundas. Em suma: por um apego caturra, egoísta e despeitado a uma série de preconceitos verdadeiramente risíveis. O mais provável, porém, é que esta aceitação de um meio medíocre, esta incrível falta de curiosidade pela arte da sua própria época, este medo senil de toda a novidade, de toda a mocidade, de toda a independência, de todo o espírito criador - sejam simultaneamente causas e efeitos. Parece que em Portugal é caso raríssimo, se não perigoso, um artista inteligente! (p. 60)

Desta procura do novo, não pela novidade mas pela exigência de algo mais, decorre o interesse da Presença pela geração modernista de 1915. Quem, senão Régio, estaria em condições de descobrir Sá-Carneiro e Pessoa? A inteligência actuando no sentido da sensibilidade, como dizia Gaspar Simões em José Régio e a História do movimento da "Presença" (cf. p. 145). Resta saber como.

Aqui estamos perante a importância da sinceridade, comum ao crítico e ao artista. A questão da sinceridade surge em "Literatura Viva" em relação com a da personalidade. Segundo Régio, raros são os autores que dispõem de uma personalidade própria, mais raros os que a desenvolvem e ainda mais raros são aqueles cuja personalidade se revela rica e diversa (cf. p. 18). Daqui surge a falta de sinceridade que, onde falta a personalidade, abre caminho ao maneirismo. É um problema intrínseco à possibilidade de expressão artística. E também de expressão crítica:

O verdadeiro papel do crítico é pois discernir e separar os simuladores, mais ou menos hábeis que eles sejam, dos criadores autênticos. Os primeiros existiram em todos os tempos, e são os responsáveis de toda a literatura morta de qualquer tempo. O segundos também existiram em qualquer tempo, e é através deles que a arte literária chegou até nós viva, portanto susceptível de evolução. Os processos e as formas que eles descobriram eram os mais aptos a revelar a sua sensibilidade; e por certo foram inovação no seu tempo. É natural que a sensibilidade contemporânea já não caiba nestas fórmulas consagradas por e para sensibilidades diferentes. Natural é, portanto, que os grandes artistas de hoje sigam o exemplo dos grandes artistas de ontem. O fundo eterno, imutável, contínuo, da humanidade e da arte manter-se-á poderosamente na obra de todos os grandes. E direi que é sobretudo nos inovadores que esse fundo aparecerá mais virgem. (p. 19).

Em suma: a convergência do discurso crítico com a criação artística, comum aos presencistas, tem uma justificação artística, uma expressão literária e um carácter sincero. Claro que haverá sempre quem diga que o modernismo é a apologia da insinceridade - mas tal carece de prova: Sá-Carneiro foi insincero ao escrever "Quase…"? Pessoa é insincero na "Tabacaria"? Talvez o lugar comum da insinceridade se aplique melhor à caracterização psicológica de muitos críticos literários e professores de literatura (hoje em dia, infelizmente, duas categorias quase idênticas) do que aos modernistas, seja de que geração forem… Senão vejamos, precisamente, como define Régio o que é o modernismo (e o que é clássico).

A relação de Régio com o modernismo, termo que prefere a futurismo, é interessante desde logo por escapar aos dualismos fáceis mas inconsequentes como o de Casais Monteiro em "A arte contra a ordem" (em Considerações Pessoais). No seu texto mais centrado sobre a relação entre clássicos e modernos, "Classicismo e Modernismo", a definição de clássico afasta-se do cânone greco-romano (pois haveria clássicos fora deste universo classicamente clássico) e passa a articular-se com a autodescoberta do artista: "o que importa é que um artista possua em si próprio, e por si próprio o descubra, o seu classicismo. Isto é: A conjugação harmoniosa, vibrante, de todas as suas faculdade geradoras." (p. 22). Cumpre constatar que esta noção de classicismo pessoal, evidentemente associada à "arte pela arte" regiana, é passível de ser aplicada a todas as épocas:

Ora é evidente que mesmo entre os românticos, mesmo entre os modernistas, mesmo entre os primitivos, a sensibilidade, a inteligência, a imaginação - todas as faculdades criadoras - podem vibrar em uníssono ao fogo de não sei quê que se chama inspiração artística… E nascerá então uma obra forte do seu íntimo equilíbrio - uma obra clássica. Assim o classicismo deixa de estar em desacordo seja com que doutrina estética for, porque deixa ele mesmo de ser uma escola, uma doutrina estética, uma corrente. (idem)

Régio considera, de passagem, o exemplo do romantismo e comenta a questão do individualismo em arte (para si sempre universalista, desde que sincero). Mas a nós interessa-nos sobretudo a compatibilização de classicismo e modernismo (cf. pp. 23/4). Vale a pena citar de novo:

Por modernismo entendo um certo modo de personalidade actual - mais fácil de classificar que de definir. Nenhuma das principais correntes estéticas contemporâneas sintetiza o modernismo, porque é a personalidade modernista que as engloba a todas: Não obstante algumas dessas correntes se oporem violentamente, de todas participam as mais características individualidades de hoje. É que por evolução ou reacção, todas se originam no romantismo. (p. 23)

Neste ponto, Régio indica (não mais do que isso) o que quer dizer através dos exemplos de Dadaísmo, Futurismo e Expressionismo. Isto para isolar neles "os seus pontos de comunicação romântica" (p. 24). Pois bem, essa comunicação resulta em todas elas em exagero, em intransigência, mas, ao contrário do cânone do classicismo 'clássico', isso não chega a ser um óbice:

O próprio exagero destas escolas foi benéfico - porque autorizou, animou e encorajou audácias mais duradouras e menos estrepitosas. Mas limitar-se a uma destas correntes (que valem sobretudo como revelação de tendências) seria para um artista incorrer no risco de ficar apenas um caso literário. Eis porque o modernismo superior é individualista e clássico - tomando agora o termo individualista no melhor sentido, e considerando clássica toda a obra de arte em que determinado motivo encontra o seu meio de expressão próprio, em que as características da inspiração caracterizam a realização. É assim que, para ser clássico, um modernista deve ser inteira e verdadeiramente modernista. (idem)

Este texto foi publicado no segundo número da Presença e serve de quadro teórico para a leitura que Régio faz, no número seguinte, da geração modernista (assim se intitula o novo texto) de 1915. Aí, depois de elaborar um cânone onde se destacam Mário de Sá-Carneiro (tido por génio artístico do modernismo português), Fernando Pessoa (o Mestre) e Almada Negreiros (poeta lírico de perfil bem português), surge em "conclusão" uma síntese das características da nossa literatura moderna. São elas:

"- Tendência vincada e confessa para a multiplicidade de personalidade.
- Tendência para o abandono às forças do subconsciente, e simultaneamente para o domínio da intelectualidade na Arte;
- Tendência para a transposição, isto é: para a expressão paradoxal das emoções e dos sentimentos." (p. 30)

Podemos, então, dizer que a primeira tendência é a forma dos clássicos modernistas; que a segunda é a que se reporta ao conteúdo expresso naquela forma (não por acaso, é com a crítica modernista, que descobre os de Orpheu, que Freud é introduzido no nosso meio cultural); e, por fim, que a terceira resulta das necessidades de expressão das duas anteriores (sendo portanto, em nosso entender, derivada destas).
Temos então que o modernismo, para Régio, não é um jogo de máscaras entendidas estas como enganos, antes um jogo de máscaras de sinceridade ("mascarada sinceríssima", escreve a propósito de Sá-Carneiro, cf. p. 27). Tudo se reúne, e de modo bem estreito: a forma clássica dos modernos é diferente da dos antigos, mas ambas exprimem a individualidade do artista (e do crítico) de modo universal mediante a capacidade de originalidade e, sobretudo, de sinceridade deste (donde resulta a sua eternidade) .

Aqui chegados, estamos perante uma concepção da obra de arte em tudo clássica e, no entanto (como vimos), inteiramente moderna, sem que Régio se iniba de usar termos que hoje chocariam os nossos literatos se eles fossem sequer capazes de os ler, como este de "Li-te-ra-tu-ra": "Eis um primeiro elemento da moralidade intrínseca da obra de arte: a sua humanidade." (p. 101)

E Régio apressa-se a esclarecer que esta moralidade redime tudo o que toca (cf. p. 103). Neste ponto, expõe-se aos ataques daqueles que, como fez Eduardo Lourenço a Sérgio (cf. O Labirinto da Saudade), reprovam a confusão de moral e razão. Um desses ataques foi recentemente movido por Osvaldo Manuel Silvestre no Ciberkiosk, tendo por alvo o curator de Régio, Eugénio Lisboa. Mas se Lisboa pode por vezes ser acusado de excesso de zelo e provocações gratuitas, o facto é que Régio, mais até do que Sérgio, não confunde razão e moral; na verdade, submete aquela a esta. Ou seja, o modernismo de Régio não é anárquico, é hierárquico, Só por isso pode ser crítico. E, nessa sua especificidade crítica, distingue-se do Primeiro Modernismo: não se trata de revolucionarismo do Orpheu contra o reaccionarismo da Presença ,mas de irreflexão dos de 1915 e de trabalho crítico dos de 1927. Sem os primeiros os segundos talvez não se tivessem revelado, mas só o modo como o fizeram impediu que fossem subjugados pelo neo-realismo. Doravante, só lhes restava enfrentar a reacção em arte, o neo-realismo . Reafirmando o espírito da Presença em "Presença Reaparece" (ao iniciar a II série da revista), é hora de combater aquela que viria a ser, durante cerca de meio século, a tirania comunista na vida cultural, isto é, artística e crítica, portuguesa:

A arte pela qual a presença luta - é portanto hoje, como há doze anos, uma arte humana. Orgulha-se presença de quase ter ensinado esta expressão aos rapazes portugueses. Simplesmente, essa arte humana pela qual presença lutou e lutará - não tem o significado ridículo que lhe dão os que só a si próprios e às suas próprias opiniões julgam humanos. Arte humana é para a presença toda a arte em que o homem se revela e exprime, seja através de que seu aspecto for: A realidade humana é muito mais rica do que a fazem quaisquer espécies de fanáticos; principiando pelos fanáticos do real. (p. 347)

Os fanáticos do real tornaram-se dominantes durante décadas, reduzindo a crítica e a arte a ideologia (vejam-se as intervenções de Cunhal no milieu, quer em nome próprio quer como Fernando Vale). Hoje Régio está posto de lado. A sua crítica continua a ser a melhor que foi feita em Portugal, no século XX e não só. No seu centenário é nítido que a sua posteridade só pode passar pela sua crítica.

Set.01