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Criação
e crítica Se há uma união de crítica e criação no pensamento de Adolfo Casais Monteiro, tal como se pode ver em Considerações Pessoais (cf. pp. 27/8), ela atinge a sua forma mais explícita na Obra de José Régio. O que, aliás, vem confirmar uma afirmação de João Gaspar Simões em José Régio e a História do Movimento da "Presença", onde o caso fica bem exposto a propósito do surgimento da revista: Pela primeira vez em Portugal, ao que suponho, a palavra "literatura" não figurava à cabeça de um periódico de escritores. E se era verdade que o artigo de fundo da Presença se intitulava Literatura Viva, o certo é que a primeira frase desse artigo dizia textualmente: "Em Arte é vivo tudo o que é original." Efectivamente alguma coisa se passava de inédito adentro dos arraiais desse grupo de rapazes que se não proclamavam literatos nem se orgulhavam de manejar uma pena, e cujo maior título de orgulho, pelo contrário, era que tomassem simplesmente por "Artistas". (p. 144) O que vem isto a significar? Ou, de outro modo, o que vem a ser um artista presencista? Numa fórmula breve, talvez as melhores palavras sejam ainda de Adolfo Casais Monteiro, em Considerações Pessoais: Os artistas foram sempre os anunciadores: pela arte, a humanidade vê exprimir-se aquilo que obscuramente pressente, mas só a alguns é dado revelar. Não significa isto que o artista tenha a missão de formular as aspirações da humanidade. O artista não tem qualquer missão: a sua obra, vista passados anos ou séculos, é que nos parece ter esse significado. O artista é um homem que, vivendo intensamente, é sempre um porta-voz da revolta, já que a sociedade em que vive o oprime. Sendo o artista uma consciência de extrema sensibilidade, reclamando liberdade para a sua maneira de ser, é inevitável o conflito com a sociedade, que tende sempre para a estratificação e para o conformismo. (p. 210) O artista não
tem qualquer missão, só a sua obra parece tê-la. É
este o lance da Presença. Ora, isto suscita problemas bem conhecidos:
não falo do academismo, pois basta conhecer o percurso formativo
e profissional, e as declarações dos presencistas sobre
a Academia, para sorrir perante semelhante dislate; falo, sim, de três
problemas reais - o da "arte pela arte", o da "literatura
viva" e o da sinceridade. São estes os problemas capitais
do presencismo e é na obra de José Régio, nos seus
textos publicados na Presença, que melhor são pensados,
encontrando-se reunidos em Páginas de Doutrina e Crítica
da "Presença" . Já pressentimos, pois, como as preocupações, os interesses, as investigações de ordem política, religiosa, moral ou social, entram na obra de arte: É simplesmente como excitantes, como agentes, como motivos, como pretextos mais ou menos conscientemente considerados pretextos. A finalidade da Obra será, consciente ou inconscientemente, a finalidade estética. Tudo o que faz um homem entrará na sua Obra, e tanto mais quanto mais profunda e sincera for essa Obra: mas se o homem é um artista, a sua Arte será a única e verdadeira solução da sua Obra. (p. 49) Eis o que significa a arte pela arte em Régio e na Presença: não o ignorar do mundo mas o seu tratamento artístico específico. Neste ponto, a questão de saber o que vem a ser a arte por excelência dos presencistas, a literatura, é incontornável. A literatura quer-se viva e, em "Literatura viva", Régio explica o que quer dizer: "Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura viva que ele produza será superior; inacessível, portanto às condições do tempo e do espaço." (pp. 19/20). O problema está na falta de artistas à altura deste repto, como Régio acusa em "Literatura Viva e Literatura Livresca": Eu insisto: tendo acusado os nossos Artistas de se deixarem corromper, amolentar, degradar naquilo mesmo que tinham de mais próprio, de mais pessoal e humano, acuso-os ainda de estreiteza de personalidade na própria parte mais viva da sua obra. Acuso-os de não terem possibilidades de alargamento, de renovação e de enriquecimento - ou de terem esterilizado essas possibilidades pela sufocação do meio que se criam; pela seu espantoso desconhecimento da arte moderna; pela sua manifesta ou esconsa hostilidade contra todas as ousadias - mesmo as mais fecundas. Em suma: por um apego caturra, egoísta e despeitado a uma série de preconceitos verdadeiramente risíveis. O mais provável, porém, é que esta aceitação de um meio medíocre, esta incrível falta de curiosidade pela arte da sua própria época, este medo senil de toda a novidade, de toda a mocidade, de toda a independência, de todo o espírito criador - sejam simultaneamente causas e efeitos. Parece que em Portugal é caso raríssimo, se não perigoso, um artista inteligente! (p. 60) Desta procura do
novo, não pela novidade mas pela exigência de algo mais,
decorre o interesse da Presença pela geração modernista
de 1915. Quem, senão Régio, estaria em condições
de descobrir Sá-Carneiro e Pessoa? A inteligência actuando
no sentido da sensibilidade, como dizia Gaspar Simões em José
Régio e a História do movimento da "Presença"
(cf. p. 145). Resta saber como. O verdadeiro papel do crítico é pois discernir e separar os simuladores, mais ou menos hábeis que eles sejam, dos criadores autênticos. Os primeiros existiram em todos os tempos, e são os responsáveis de toda a literatura morta de qualquer tempo. O segundos também existiram em qualquer tempo, e é através deles que a arte literária chegou até nós viva, portanto susceptível de evolução. Os processos e as formas que eles descobriram eram os mais aptos a revelar a sua sensibilidade; e por certo foram inovação no seu tempo. É natural que a sensibilidade contemporânea já não caiba nestas fórmulas consagradas por e para sensibilidades diferentes. Natural é, portanto, que os grandes artistas de hoje sigam o exemplo dos grandes artistas de ontem. O fundo eterno, imutável, contínuo, da humanidade e da arte manter-se-á poderosamente na obra de todos os grandes. E direi que é sobretudo nos inovadores que esse fundo aparecerá mais virgem. (p. 19). Em suma: a convergência
do discurso crítico com a criação artística,
comum aos presencistas, tem uma justificação artística,
uma expressão literária e um carácter sincero. Claro
que haverá sempre quem diga que o modernismo é a apologia
da insinceridade - mas tal carece de prova: Sá-Carneiro foi insincero
ao escrever "Quase
"? Pessoa é insincero na "Tabacaria"?
Talvez o lugar comum da insinceridade se aplique melhor à caracterização
psicológica de muitos críticos literários e professores
de literatura (hoje em dia, infelizmente, duas categorias quase idênticas)
do que aos modernistas, seja de que geração forem
Senão vejamos, precisamente, como define Régio o que é
o modernismo (e o que é clássico). Ora é evidente que mesmo entre os românticos, mesmo entre os modernistas, mesmo entre os primitivos, a sensibilidade, a inteligência, a imaginação - todas as faculdades criadoras - podem vibrar em uníssono ao fogo de não sei quê que se chama inspiração artística E nascerá então uma obra forte do seu íntimo equilíbrio - uma obra clássica. Assim o classicismo deixa de estar em desacordo seja com que doutrina estética for, porque deixa ele mesmo de ser uma escola, uma doutrina estética, uma corrente. (idem) Régio considera, de passagem, o exemplo do romantismo e comenta a questão do individualismo em arte (para si sempre universalista, desde que sincero). Mas a nós interessa-nos sobretudo a compatibilização de classicismo e modernismo (cf. pp. 23/4). Vale a pena citar de novo: Por modernismo entendo um certo modo de personalidade actual - mais fácil de classificar que de definir. Nenhuma das principais correntes estéticas contemporâneas sintetiza o modernismo, porque é a personalidade modernista que as engloba a todas: Não obstante algumas dessas correntes se oporem violentamente, de todas participam as mais características individualidades de hoje. É que por evolução ou reacção, todas se originam no romantismo. (p. 23) Neste ponto, Régio indica (não mais do que isso) o que quer dizer através dos exemplos de Dadaísmo, Futurismo e Expressionismo. Isto para isolar neles "os seus pontos de comunicação romântica" (p. 24). Pois bem, essa comunicação resulta em todas elas em exagero, em intransigência, mas, ao contrário do cânone do classicismo 'clássico', isso não chega a ser um óbice: O próprio exagero destas escolas foi benéfico - porque autorizou, animou e encorajou audácias mais duradouras e menos estrepitosas. Mas limitar-se a uma destas correntes (que valem sobretudo como revelação de tendências) seria para um artista incorrer no risco de ficar apenas um caso literário. Eis porque o modernismo superior é individualista e clássico - tomando agora o termo individualista no melhor sentido, e considerando clássica toda a obra de arte em que determinado motivo encontra o seu meio de expressão próprio, em que as características da inspiração caracterizam a realização. É assim que, para ser clássico, um modernista deve ser inteira e verdadeiramente modernista. (idem) Este texto foi publicado no segundo número da Presença e serve de quadro teórico para a leitura que Régio faz, no número seguinte, da geração modernista (assim se intitula o novo texto) de 1915. Aí, depois de elaborar um cânone onde se destacam Mário de Sá-Carneiro (tido por génio artístico do modernismo português), Fernando Pessoa (o Mestre) e Almada Negreiros (poeta lírico de perfil bem português), surge em "conclusão" uma síntese das características da nossa literatura moderna. São elas: "- Tendência
vincada e confessa para a multiplicidade de personalidade. Podemos, então,
dizer que a primeira tendência é a forma dos clássicos
modernistas; que a segunda é a que se reporta ao conteúdo
expresso naquela forma (não por acaso, é com a crítica
modernista, que descobre os de Orpheu, que Freud é introduzido
no nosso meio cultural); e, por fim, que a terceira resulta das necessidades
de expressão das duas anteriores (sendo portanto, em nosso entender,
derivada destas). A arte pela qual a presença luta - é portanto hoje, como há doze anos, uma arte humana. Orgulha-se presença de quase ter ensinado esta expressão aos rapazes portugueses. Simplesmente, essa arte humana pela qual presença lutou e lutará - não tem o significado ridículo que lhe dão os que só a si próprios e às suas próprias opiniões julgam humanos. Arte humana é para a presença toda a arte em que o homem se revela e exprime, seja através de que seu aspecto for: A realidade humana é muito mais rica do que a fazem quaisquer espécies de fanáticos; principiando pelos fanáticos do real. (p. 347) Os fanáticos
do real tornaram-se dominantes durante décadas, reduzindo a crítica
e a arte a ideologia (vejam-se as intervenções de Cunhal
no milieu, quer em nome próprio quer como Fernando Vale). Hoje
Régio está posto de lado. A sua crítica continua
a ser a melhor que foi feita em Portugal, no século XX e não
só. No seu centenário é nítido que a sua posteridade
só pode passar pela sua crítica. |
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