|
|
Nem
lamentar, nem se indignar, A 6 de Setembro,
com direito a chamada à primeira página, o Diário
de Notícias deu por encerrada a sua polémica de Verão.
A falta de notícias na silly season permite, obriga mesmo, estes
aeróbicos exercícios anuais. Este ano, a polémica
central da estação foi a dos Lusíadas, claro. Mas
todos os jornais exploram, dentro da sua linha editorial, alguma coisa
em particular, muitas vezes determinada acidentalmente. A polémica
do Público, talvez por ter surgido demasiado próxima da
dos Lusíadas, tanto temática como temporalmente, foi um
flop: Carlos Câmara Leme (um dos raros jornalistas culturais dignos
da designação) agitou as águas paradas das comemorações
do centenário de Eça. Durou um dia. 1 As pessoas inquiridas foram, creio que sem excepção, pessoas que publicam regularmente. Ou seja, deu-se tribuna a quem já a tem nos média tradicionais e ignoraram-se pessoas que muito teriam a dizer sobre o fundo da matéria. A lista poderia ser grande. Por mim, gostava de ter ouvido Miguel Real, Sousa Dias ou Carlos França. 2 As pessoas que se pronunciaram foram, em geral, cautelosas. A razão é só uma: a questão envolvia Eduardo Prado Coelho. Um triste espectáculo. Ainda assim, algumas lições valiosas foram produzidas: Vasco Graça Moura garante que não existem capelinhas (o Público agradece); Agustina diz que os críticos são snobs (a idade não perdoa); Francisco José Viegas, se bem entendi, evocou Régio (parabéns!); Eduardo Pitta, caso único, anotou o esquecimento completo, em toda a discussão, da crítica de ciências sociais (finalmente, o meu pretexto). Terá havido mais intervenientes, mas para o efeito são dispensáveis. 3
A questão da crítica de ciências sociais é
decisiva. Permite acompanhar a evolução da actividade da
crítica e da formação dos críticos. Em ambos
os casos o resultado é lastimável, em igual medida, para
as duas esferas que dominam a crítica em Portugal: a Imprensa e
a Universidade. 4 Os críticos começaram por ser cultores da literatura e, por essa via, pensadores do papel da crítica. A diferença marcante do Segundo Modernismo face ao Primeiro não é, como se disse e ainda se ensina (nas Universidades!), um qualquer reaccionarismo mas, bem pelo contrário, um trabalho crítico contínuo - sem o qual, aliás, ainda estaríamos à espera de uma recepção ao Modernismo de 1915. Quem ler hoje as Folhas de Doutrina e Crítica da Presença, volume antológico da crítica de Régio na revista que fundou, descobrirá (é o termo, de tal modo tudo foi esquecido) o trabalho do mais notável crítico literário português. Não uma "teoria crítica", mas crítica propriamente dita. Feita sem pretenciosismos inanes e sem pulhices (incrível!). Mas Régio era professor liceal e Gaspar Simões nem no sistema de ensino se encontrava. Estavam inevitavelmente à margem dos centros de decisão. Rapidamente, logo a partir da década de 1950 e, esmagadoramente, a partir da de 1960, o palco transita para os cuidados dos universitários. Isto, aliás, não se aplica à crítica exclusivamente literária (veja-se o comentário político). Hoje, meio século depois, os resultados do tráfico de influências, dos ajustes de contas, dos arranjos e de tudo o resto é o que se vê em polémicas como a que, neste Verão, se perpetrou no DN. Apesar da diferença no tom com que EPC se exprimiu ao encerrar a faena (em entrevista), o caso é claro: o elogio da arbitrariedade e a volúpia da maldade são as preciosidades que se reservam aos leitores (da sinceridade regiana viemos dar a isto ). Quanto à reescrita do seu curriculum, isso é comum nas camaleonências deste mundo. 5
Se os críticos são, em geral, universitários em busca
da sua versão de notoriedade (e uns trocos extra), a crítica
como fica? Fica reduzida à "literatice" que tanto irrita
alguns editores mais dedicados. Do insuspeito Eduardo Pitta, que não
é universitário nem sequer se dedica às ciências
sociais, veio a observação que, obviamente, a ninguém
interessou: a crítica de ciências sociais não existe.
Ora isto é bizarro, sendo os oficiantes quase todos universitários.
Sabendo, no entanto, o que é o trabalho intelectual das Universidades
portuguesas (e, a avaliar por Venâncio, das holandesas), percebe-se
bem porquê. 6
Antes de uma palavra sobre o dito caso, apenas uma nota. Em rigor, um
outro actor precede o crítico. O famigerado editor. Na imprensa
alegadamente de referência ainda há editores de secções
de livros. Quem gostar de se flagelar que tente vislumbrar a linha editorial
que regula Pedro Rolo Duarte no DNA, Francisco Bélard no Expresso
ou a inexcedível Lucas Coelho do Mil-Folhas (nome muito revelador,
de resto). 7
De volta à crítica, convém não usar os editores
para desresponsabilizar quem de facto escreve (o Rui Bebiano não
é responsável por mim). Se a questão dos editores
for pertinente, sê-lo-á por dar a ver a fragilidade de todo
o sistema de recepção, difusão e crítica dos
produtos literários da indústria cultural. Como a polémica
da silly season no DN mais uma vez mostrou, não contem com a Universidade
e a comunicação social para qualquer crítica, literária
ou outra. A opinião, sim, é indispensável. Se possível
com polémica e muita, imensa, volúpia da maldade. |
|