Nem lamentar, nem se indignar,
mas compreender

[Carlos Leone]

A 6 de Setembro, com direito a chamada à primeira página, o Diário de Notícias deu por encerrada a sua polémica de Verão. A falta de notícias na silly season permite, obriga mesmo, estes aeróbicos exercícios anuais. Este ano, a polémica central da estação foi a dos Lusíadas, claro. Mas todos os jornais exploram, dentro da sua linha editorial, alguma coisa em particular, muitas vezes determinada acidentalmente. A polémica do Público, talvez por ter surgido demasiado próxima da dos Lusíadas, tanto temática como temporalmente, foi um flop: Carlos Câmara Leme (um dos raros jornalistas culturais dignos da designação) agitou as águas paradas das comemorações do centenário de Eça. Durou um dia.

No DN não se reviraram cadáveres. Fruto de um dos tais incidentes nunca inteiramente programados, uma entrevista de Fernando Venâncio, com uns comentários irrelevantes sobre várias coisas e uma ou duas farpas a Eduardo Prado Coelho, criou a oportunidade: o próprio EPC acorreu, célere como a sua crescente susceptibilidade obriga, e respondeu com a elegância que se lhe conhece há 40 (!) anos: Venâncio será salazarista, ignorante e mais algumas outras coisas. Esta resposta, que em circunstâncias normais (entre Setembro e Julho) só lograria aparecer na secção de cartas ou, no máximo, num caderno cultural (talvez o DNA que EPC tanto aprecia), deu origem a uma iniciativa do jornal, segundo um modelo de inquérito a personalidades várias, sobre a crítica e o seu papel. (Talvez tenha sido um sinal de agradecimento do jornal por aqueles artigos de EPC no tempo do PREC sobre "a ideologia do Expresso" e a defesa da censura.) Agora que a silly season terminou, fica um balanço, tão inócuo como a "polémica" e que a acompanhará no rápido esquecimento. Para o ano haverá mais.

1 As pessoas inquiridas foram, creio que sem excepção, pessoas que publicam regularmente. Ou seja, deu-se tribuna a quem já a tem nos média tradicionais e ignoraram-se pessoas que muito teriam a dizer sobre o fundo da matéria. A lista poderia ser grande. Por mim, gostava de ter ouvido Miguel Real, Sousa Dias ou Carlos França.

2 As pessoas que se pronunciaram foram, em geral, cautelosas. A razão é só uma: a questão envolvia Eduardo Prado Coelho. Um triste espectáculo. Ainda assim, algumas lições valiosas foram produzidas: Vasco Graça Moura garante que não existem capelinhas (o Público agradece); Agustina diz que os críticos são snobs (a idade não perdoa); Francisco José Viegas, se bem entendi, evocou Régio (parabéns!); Eduardo Pitta, caso único, anotou o esquecimento completo, em toda a discussão, da crítica de ciências sociais (finalmente, o meu pretexto). Terá havido mais intervenientes, mas para o efeito são dispensáveis.

3 A questão da crítica de ciências sociais é decisiva. Permite acompanhar a evolução da actividade da crítica e da formação dos críticos. Em ambos os casos o resultado é lastimável, em igual medida, para as duas esferas que dominam a crítica em Portugal: a Imprensa e a Universidade.

Há um século atrás, não existia crítica literária, pelo menos na acepção hoje corrente. Os hábitos de leitura eram outros e os sistemas de promoção e discussão da literatura eram outros. Na Imprensa, em vez de suplementos literários, o leitor encontrava críticas às "revistas" em exibição nos teatros. Ou seja, aquilo de que se está a tratar é uma realidade muito fugaz (se pensarmos, como sucede no meu caso, que a crítica literária caminha para uma rápida extinção), mesmo no interior da chamada modernidade. Quem ler a autobiografia de João Gaspar Simões encontrará aí um relato bem elucidativo das limitações da nossa crítica (o nosso celebrado Primeiro Modernismo não produziu textos críticos, por exemplo) em meados do século, devendo-se a ele o surgimento (no Diário de Lisboa) da primeira página literária num jornal nacional. Num período, de resto, em que a crítica, por força do predomínio dos neo-realistas, estava sujeita a condicionantes ideológicas rígidas. Como evoluíram, desde então, a crítica e os críticos de Portugal?

4 Os críticos começaram por ser cultores da literatura e, por essa via, pensadores do papel da crítica. A diferença marcante do Segundo Modernismo face ao Primeiro não é, como se disse e ainda se ensina (nas Universidades!), um qualquer reaccionarismo mas, bem pelo contrário, um trabalho crítico contínuo - sem o qual, aliás, ainda estaríamos à espera de uma recepção ao Modernismo de 1915. Quem ler hoje as Folhas de Doutrina e Crítica da Presença, volume antológico da crítica de Régio na revista que fundou, descobrirá (é o termo, de tal modo tudo foi esquecido) o trabalho do mais notável crítico literário português. Não uma "teoria crítica", mas crítica propriamente dita. Feita sem pretenciosismos inanes e sem pulhices (incrível!). Mas Régio era professor liceal e Gaspar Simões nem no sistema de ensino se encontrava. Estavam inevitavelmente à margem dos centros de decisão. Rapidamente, logo a partir da década de 1950 e, esmagadoramente, a partir da de 1960, o palco transita para os cuidados dos universitários. Isto, aliás, não se aplica à crítica exclusivamente literária (veja-se o comentário político). Hoje, meio século depois, os resultados do tráfico de influências, dos ajustes de contas, dos arranjos e de tudo o resto é o que se vê em polémicas como a que, neste Verão, se perpetrou no DN. Apesar da diferença no tom com que EPC se exprimiu ao encerrar a faena (em entrevista), o caso é claro: o elogio da arbitrariedade e a volúpia da maldade são as preciosidades que se reservam aos leitores (da sinceridade regiana viemos dar a isto…). Quanto à reescrita do seu curriculum, isso é comum nas camaleonências deste mundo.

5 Se os críticos são, em geral, universitários em busca da sua versão de notoriedade (e uns trocos extra), a crítica como fica? Fica reduzida à "literatice" que tanto irrita alguns editores mais dedicados. Do insuspeito Eduardo Pitta, que não é universitário nem sequer se dedica às ciências sociais, veio a observação que, obviamente, a ninguém interessou: a crítica de ciências sociais não existe. Ora isto é bizarro, sendo os oficiantes quase todos universitários. Sabendo, no entanto, o que é o trabalho intelectual das Universidades portuguesas (e, a avaliar por Venâncio, das holandesas), percebe-se bem porquê.

No passado, precisamente com a geração da Presença, o literário como arte, o romance e a poesia acima de tudo, foram os objectos privilegiados da crítica. Compreende-se: a Universidade era ainda mais reduzida, a censura impedia a discussão livre de ideias abertamente expressas, a baixa escolaridade limitava o acompanhamento de questões teóricas, a própria função de entretenimento da literatura era ainda decisiva, antes do advento da televisão. Quem escrevesse crítica regularmente incidiria sempre no literário poético e ficcional, independentemente da sua ligação à Universidade. Ironicamente, a melhor forma de promover discussão de ideias e ideais era envolvê-los sob o manto da ficção ou da poesia.

Hoje, quando a TV ocupou o lugar da ficção (Gabriela é primeiro o nome de uma novela, só depois de uma personagem de Jorge Amado), quando o meio universitário se expandiu enormemente, quando a educação em geral se democratizou, quando é possível discutir política nos jornais, seria de esperar pelo menos algum interesse pelo domínio do pensamento. Mas, com críticos que se preocupam uns com os outros mais do que com a crítica (notável como ninguém, rigorosamente ninguém, define crítica), o caso é bem diferente.

6 Antes de uma palavra sobre o dito caso, apenas uma nota. Em rigor, um outro actor precede o crítico. O famigerado editor. Na imprensa alegadamente de referência ainda há editores de secções de livros. Quem gostar de se flagelar que tente vislumbrar a linha editorial que regula Pedro Rolo Duarte no DNA, Francisco Bélard no Expresso ou a inexcedível Lucas Coelho do Mil-Folhas (nome muito revelador, de resto).

Graças a estes "editores", temos Pedro Mexia a explicar que Saramago aprendeu a escrever com Isabel da Nóbrega, João Carlos Espada a "criticar" as sebentas do Prof. Freitas ou as deliciosas "críticas" da Alexandrinha a repetir com 15 dias de atraso e nenhum sentido de rídiculo as opiniões expendidas pelo Eduardo nas suas colunas (ele não tem uma, mas escreve em várias).

7 De volta à crítica, convém não usar os editores para desresponsabilizar quem de facto escreve (o Rui Bebiano não é responsável por mim). Se a questão dos editores for pertinente, sê-lo-á por dar a ver a fragilidade de todo o sistema de recepção, difusão e crítica dos produtos literários da indústria cultural.

De facto, a inexistência de crítica de ciências sociais é o sintoma mais revelador do nosso atraso, presos os chamados críticos a um tempo de acontecimentos literários que já só existem "no meio", com os mais atentos (EPC ainda e sempre) a preparar já o seu lugar na próxima moda. É o verdadeiro grande salto em frente que aí vem: o multiculturalismo, vindo via net dos EUA, e que irá substituir a cultura "literária" que nos chegou de França de comboio. Tanto num caso como noutro, o papel iluminista que a crítica, os críticos, deve desempenhar, justamente através da atenção às ciências sociais, numa sociedade livre e aberta, fica por preencher. A legitimação que o trabalho crítico cria está agora, ao que parece, entregue ao HermanSic, afiançava há meses EPC, num assomo de clareza sobre o que valem palavras como "legitimação" na sua boca…

A inexistência de crítica de ciências sociais está directamente ligada ao estertor de formas jornalísticas clássicas, como a grande reportagem ou a grande entrevista. Tudo reduzido a "conteúdos" convenientemente "frios", prontos a servir em vários "suportes", de preferência com grande economia nos meios de produção e sempre com ainda maior economia na exposição. Todos unidos na submissão da palavra à imagem, na redução dos espaços de reflexão e mediação em favor da infografia e das secções de rumores, parentes próximos na submissão das primeiras páginas aos carismas (pobre Weber!) de Paulos Portas e Santanas Lopes, enquanto o pensamento fica a cargo de Filomenas Mónicas e Barretos (Hermínio Martins é hermético, dizem-me do ICS…).

Como a polémica da silly season no DN mais uma vez mostrou, não contem com a Universidade e a comunicação social para qualquer crítica, literária ou outra. A opinião, sim, é indispensável. Se possível com polémica e muita, imensa, volúpia da maldade.

Set.01