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Proust
e a batalha sem fim da criação
Jacinto
José Pereira Anica
Segundo Celeste Albaret, criada e enfermeira de Marcel Proust de 1913
a 1922, durante a madrugada de 22 de Novembro de 1922, data da sua morte,
o escritor continuava a escrever a sua obra-prima.
"Ele não dormia mais. Quando não era atormentado
pelas crises de tosse ou pelas sensações de sufoco, trabalhava,
obcecado pela ideia de poder enviar a tempo à Nouvelle Revue Française
as provas corrigidas de A Prisioneira. Tocava a campainha a toda a hora,
para pedir uma bolsa de água quente ou um cobertor de lã,
enquanto enchia as páginas."
Aqueles que estudam o nascimento de Em Busca do Tempo Perdido datam
do Inverno de 1908 para 1909 a frase inaugural do livro:
"Longtemps je me suis couché de bonne heure"
Ou seja, Proust começou por volta de quatorze anos a escrever o
livro e morreu sem ter podido finalizá-lo.
São famosas as últimas palavras dirigidas a Celeste:
"Vous n'oublierez pas de coller ces papiers, là où
il faut, Céleste? Surtout ne l'oubliez pas...c'est important"
Mas porque será que Proust acabou vencido pela batalha da criação?
Vencido, deixando o livro inacabado, embora, na foto perturbante dele
no seu leito de morte, tenhamos a impressão de que a austeridade
daquele perfil não admita falar nisso.
Folheando as edições que dão conta dos manuscritos,
podemos até pensar que Proust não conseguiu levar adiante
a sua empresa, pela imensa desordem em que se encontra esse amontoado
de fragmentos aparentemente desconexos.
Lemos páginas sobre a natureza do amor homoerótico, sobre
o papel da arte, sobre a importância da memória involuntária
enquanto estruturadora da experiência, sobre o mesquinho teatro
que é a amizade quando comparada à reflexão solitária
e individual, sobre as inúmeras voltas do caleidoscópio
social, sobre a pintura, sobre a música, etc.
Sem falar dos vários diálogos, obsessivamente retomados
e reformulados.
A sua memória extraordinária, entretanto demasiadamente
cansada no final da sua vida, não teria conseguido conectar e dar
sentido a tanta dispersão?
No entanto, antes mesmo de ter tido a ideia de redigir o Em busca, Proust
já trabalhava guiado por essa técnica de redacção
simultânea de inúmeros fragmentos sobre os mais diversos
temas.
É assim que, numa carta de 1908 a um amigo, ele descreve o que
vem redigindo:
"Car j'ai en train:
une étude sur la noblesse
un roman parisien
un essai sur Ste Beuve et Flaubert
un essai sur les femmes
un essai sur la pédérastie(pas facile à publier)
une étude sur les vitraux
une étude sur le roman."
Não resta dúvida, porém, de que, por maior que fosse
a sua habilidade, o potencial criativo dessa arte sofisticada de junção
interminável de novos fragmentos, que, no próprio acto de
sua contextualização, passam a enviar e a receber sinais
dos outros fragmentos, acrescentando novos laços a essa enorme
cadeia de relações que se torna o texto, o potencial dessa
arte desde o inicio escapava a Proust.
A sua correspondência, nos anos que antecedem imediatamente a publicação
de No Caminho de Swan, dá inúmeras provas disso.
"Adieu cher Georges, je ne dors plus, je ne mange plus, je ne
travaille plus, il y a encore bien d'autres choses que je ne fait plus
mais celles-là il y a déjà bien longtemps. Tout de
même avec un peu de nerf en deux mois mon livre serait prêt,
mais aurais-je ces deux mois ?".
Mais de dez anos passariam sem que ele pudesse efectivar esse desejo.
A guerra de 14, mesmo atrasando por quatro anos a publicação
do segundo volume da obra, faz com que Proust, dispensado do exército
por incapacidade física, se entregue totalmente à sua batalha
da criação.
E o Em Busca do Tempo Perdido triplica de tamanho.
É quando surge a personagem Albertine e todo o desenvolvimento
em profundidade do tema do amor, do ciúme, da morte e do esquecimento
Proust não mais pararia de escrever até à sua morte.
A obra de Proust é uma ideia de obra infinita, uma obra que não
pode encontrar a sua resolução conclusiva, uma obra cujo
potencial só seria esgotado se, a cada instante, a história
enviasse por conotação a todos os outros momentos que a
compõem.
Juntando fragmentos e escrevendo sem fim, o autor propõe também
a radical experiência da leitura e da crítica sem fim.
A quantidade de aproximações, simetrias, analogias, paralelos,
semelhanças e convergências de todo um conjunto de detalhes
que compõem a sua obra é tão extraordinária
e vertiginosamente exorbitante e pode ramificar-se em tantos caminhos
possíveis de análise e de leitura que, por mais empenhados
que sejam seus leitores, uma única leitura é obviamente
insuficiente.
O tipo de heroísmo que define a batalha de Proust talvez seja justamente
o empenho inabalável com que ele prosseguiu nesse caminho em que
a criação está o tempo todo às voltas com
a formulação ficcional que permita vislumbrar o máximo
de real permeado pela consciência.
Não é um gesto de pura presunção e sim de
sublime consciência do poder da prosa, do poder revelador da sua
prosa: Proust propunha-se a nada menos do que recriar e interpretar a
vida através da literatura. Só ela poderia problematizar
a complexidade do real, seria capaz de nos recolocar nos caminhos de certas
verdades das quais a vida, ela mesma, pouco a pouco nos foi distanciando.
E a proliferação vertiginosa dos fragmentos, antes de ser
desorganização é, em última instância,
a arma poderosa de que ele dispunha para, com as imagens que surgiam,
nos oferecer um mundo em que a nossa inteligência e sensibilidade
se pudessem saciar.
Partindo de um ponto de vista individual dos mais rebuscados, exigentes
e fascinantes artisticamente, Proust tomou para si o encargo de imaginar
e compor, para uso do prazer estético e da contemplação
crítica, as reacções da sensibilidade e da inteligência
a toda uma ampla complexidade objectiva.
Jul.01
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