Relógio d'Água Editores
Lisboa, 2001

 

 

O VITRAL MODERNO
Uma leitura de Rostos, de Rui Nunes

Luís-Cláudio Ribeiro



Se deus aconteceu (e pode acontecer todos os dias) o primeiro uso que fez da linguagem, que tinha há bem poucos instantes descoberto, foi separar as trevas da luz. Mais ou menos desta maneira: para ali as trevas e para o outro lado a luz. No meio, num um vale imenso e eterno, ficaram a ecoar estas palavras que é o todo das palavras mesmo as da nossa infância quando do cimo de um penhasco ou na nave de uma igreja o nosso grito recuava até nós. Foi a partir do que ecoa neste vale que a linguagem humana se fez, e por ela os nomes, o primeiro uso humano dela, mais precisamente, os nomes dos rios. É efeito disso essas orações estranhas que aprendemos na escola primária sobre o percurso dos rios.

A escrita de Rui Nunes, refiro-me a partir de agora ao seu último livro, Rostos, habita esse lugar, inclinando-se por vezes para o que escondido permanece no lado obscuro do vale e noutras vezes para a claridade, a luz que sobe radiosa até ao cume. Mas sempre e sempre, como no nosso eco, "deixa que todos os estilhaços do mundo entrem na frase, até a transformarem num volume reverberante", deixando de ser eco para passar a ser vida e linguagem.

Se pudéssemos fazer um balanço da nossa leitura, diríamos que neste livro de Rui Nunes caminha-se mais longamente nessa estranha matéria de que é feito o lado sombrio. A matéria deste lado é também ela humana, ou, pelos menos, torna-se humana pela linguagem. Sabemos que se deus aconteceu, quis que o conteúdo das trevas não fosse revelado inteiramente; embora necessário à vida e à memória dos seres não podia ser continuamente dito pois isso tornaria impossível a vida. E que matéria é essa? Além de muita sem nome, nem desígnio, é a corrupção do corpo e do todo que a vista abrange, e que vai desde a felicidade de minúsculos seres ao irreparável humano. E aquela corrupção, que é saber e luminosidade em algum lado, quando se quer dizer arranja sempre modos de toda a fala sair apodrecida. Porque acabada a linguagem o que começa a surgir é o lenho das palavras e são elas, que no texto, fazem o mundo.
Pois há sempre a tentação humana para dizer tudo o que os olhos tocam e antes que algo faça sentido morre à sua volta um silêncio: "a sua morte não é um ruído, mas o desabitado que se expande com a absoluta falta de sinais". Sinais que estiolados já não reconhecemos nos outros nem nos lugares que os outros e coisas agora ocupam por nós. E estes lugares são a pouca distância ou nenhuma ruína, uma parede intacta que já não é casa, nada pode albergar, mantendo, no entanto, na linguagem o desenho da sua possível reconstrução e que não se vai assemelhar de todo ao nome que antes significava.

Sempre pensamos que o livro, todos os livros, eram Lázaro, esperando que um leitor viesse e o ressuscitasse, mas parece aqui já não poder ser: Lázaro foi expurgado de todos os sinais possíveis para que outro e ele próprio soubesse o que era isso de tempo e movimento, soubesse o que era isso de estar vivo. Tudo está desmantelado na sombra, como restos de carcaças ainda humanas ou já não. Diz-nos que perdemos o "trilho das palavras" e estamos sós com "sílabas desirmanadas" e assim sendo, como podemos algo ressuscitar? Aqui devemos fazer outra pergunta: em vez de "o que é que a linguagem fez por nós?" deve ser "o que é que a linguagem fez de nós". Muitos já se referiram a isso. Fez-nos espelhos dela mesma, encunhados entre a realidade e a condição humana; entre aquilo que é da natureza e aquilo que é do humano, e com o medo de perdermos algo na nossa passagem por aqui tentamos desmontar, que pode ser nomear, aquilo que visível se mostrava possível para uma identificação. Só que aqui, falo no livro Rostos, as coisas deixaram de querer ser ditas; repelem-nos, porque possivelmente nós as repelimos primeiro, e se algum rosto quisermos ver, o rosto da criação que era aquilo que deus e os humanos viram, é preciso recomeçar pela "explosão atónita da paisagem", porque o excesso de desejo que os humanos continham, que tão visível era no seu corpo e linguagem, ressequiu-se e ficou em seu lugar, ou lugar algum que o mesmo é dizer que tudo ocupa, o tédio. Ora é sobretudo o tédio que estiola a paisagem, que torna os trilhos, que antes as palavras tão bem faziam, secos dispersando os rostos, separando o corpo da nossa memória.

Todos os elementos se tornaram pesados, mineralizaram-se, e mesmo o esquecimento é agora um peso que dói como é o ar que as personagens arrastam mas que amam e querem entender porque não estão as coisas importantes separadas da lucidez da morte, o corpo e o amor por exemplo: "um corpo é sempre a morte que regressa".

Antes o corpo regressava mas não nos apercebíamos desse sinal que é agora uma mancha que alastra no rosto. No entanto, este livro sabe por que não está o amor esquecido da lei da queda: porque há um anjo sujo, o anjo da morte, e este anjo é a linguagem.

No conjunto de "histórias" deste livro, todos regressam ou partem, e quando permanecem desejam esquecer-se ou serem esquecidos. A corrupção do corpo é nítida naqueles que permanecendo os podemos observar, pela narrativa, mais de perto. É aliás isso que faz o autor: centra-se nessa dissolução da carne antes que, movido por estranho abandono, o corpo se perca na massa da cidade, deambulando ao encontro da sua redenção: "a eternidade é enquanto existir esta gente que o sofrimento não dizima".

Os corpos estão parados na paisagem que tão minuciosamente é descrita. O desenho minucioso do mundo, embora estiolado, é tudo o que resta à memória e aos corpos para viverem e se afirmarem (o que não é pouco: é possivelmente mais do que o que tínhamos). Os corpos quando se movem, movem-se lentamente, doentes, desencontrados de tudo até da própria linguagem que está lá para ser dita pelos lábios e regressam depois à imobilidade do rosto. Em Rostos só as crianças escapam, nelas o mundo ainda se cria pela linguagem humana: "a criança vê a boca abrir-se nas palavras". Aos outros resta um desenho esfacelado, e que é verdadeiro, do seu próprio rosto que o narrador peregrina, mostrando uma grafia dolorosa e o desencontro com as suas histórias.

Este livro de Rui Nunes é uma obra quase no limite da linguagem, ainda não está no lugar da perfeita separação do corpo da linguagem, nem sei se é possível, mas está muito próximo. Há ainda os elementos que fazem a deformidade e que ainda são possíveis. Mas mesmo estes elementos são já a morte ou o seu sinal, a dor, por exemplo; mas também a luz, aquela que faz a separação e identifica, e que projecta sobre o mapa traçado por estas ficções, o desejo de começar por algum lugar a reconstrução, sem nostalgia, sem o apego a uma memória que esvaziaria de sentido o mal humano. Sabemos que alguma literatura contemporânea vagueia nessa nostalgia, adoece-nos com ela, tentando reparar o irreparável, nunca se dando conta que hoje já podemos viver da e com a deformidade que faz de nós humanos, e não das formas felizes que se afastaram porque a linguagem delas se afastou, e assim sendo, ressequiram-se, tornaram-se até violentas para aqueles que, náufragos, só no dizer a dor têm apoio. "O mundo está todo partido", mas sempre esteve, já assim nasceu, desde aquele dia primeiro com que começamos esta leitura. E se durante muito tempo as pontes relacionais da literatura ainda o mantinham unido, fragmentariamente suspenso no entanto, hoje isso não é possível: a linguagem humana já não aspira a essa função: ela é desejo de um rosto para o humano e para o mundo, e este rosto mutilado (como o de deus sempre foi) só é possível se olharmos o terror de frente, o bárbaro. Estes contos de Rui Nunes tentam esse percurso, enchendo "esse silêncio cheio de manifestações" de uma linguagem que é esse manifestar-se: porque "todos os sons se fecham à minha volta, intensos como uma língua que ainda se não domina e cuja espessura se sente mas se desconhece".

Estivemos muitos séculos entretidos, salvo raras excepções, com a visão à superfície, completamente desprotegidos, e sem o uso adequado do órgão da língua que é uma lente de aumento. É disto que trata esta narrativa de Rui Nunes: de rostos sem certezas em torno do rosto pleno de certezas da morte.

Jun.01