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O
maravilhoso mundo jovem
O "Ciclo da Cana-de-açúcar" é contemporâneo de outro monumento literário nacional: Casa grande & senzala, a tese sociológica de Gilberto Freyre sobre a sociedade açucareira esclavagista nordestina, de 1933. Dez anos antes, em 1923, José Lins do Rego conhecera o ínclito pernambucano, que exerceu sobre ele imediata e profunda influência intelectual, como o próprio ficcionista declarou. As grandes teses de Gilberto Freyre sobre o carácter patriarcal da sociedade esclavagista nordestina teriam verdadeira tradução literária nas obras do romancista paraibano. Porém, seria um crasso erro explicar o "Ciclo da Cana-de-açúcar" como desdobramento ficcional das visões do afamado sociólogo. É certamente mais correcto dizer que os dois mestres, na mesma época, com igual genialidade e semelhantes visões de mundo, abeiraram-se de um mesmo manancial. Apenas nesse quadro mais geral é possível compreender as eventuais inter-influências dos autores. Os anos dourados No seu livro clássico, apoiado em farta documentação, Gilberto Freyre analisou a génese e consolidação da produção esclavagista açucareira nordestina. Baseado sobretudo em suas reminiscências de filho e neto de senhor-de-engenho, José Lins do Rego traçou um grande painel dos estertores daquele mundo, na décadas seguintes à Abolição. A grande fonte alimentadora das duas interpretações foi a difusa, rica e contraditória memória das elites nordestinas da sociedade açucareira. Nesse sentido, apesar das linguagens distintas – sociológica e ficcional –, os dois autores convergiram no esforço de imortalizar e justificar o mundo dos engenheiros nordestinos. Paradoxalmente, neste 2001, quando José Lins completaria 100 anos e Gilberto Freyre 101, podemos constatar que as duas leituras do passado, paridas praticamente na mesma época, envelheceram de forma desigual. Enquanto Casa-grande & senzala perde terreno como análise científica da génese da sociedade açucareira, a obra de José Lins cresce como registro, também histórico e sociológico, da crise daquele universo! Realidade que reforça as identidades e desigualdades da literatura ficcional e das ciências sociais. O menino e o engenho Em Menino de engenho, na primeira pessoa, José Lins relata as "memórias" suas e de "todos os meninos criados nas casas-grandes". Ao igual do que em Bangüê e nos demais romances, constrói um precioso painel da sociedade açucareira paraibana, onde também os moleques, as negras da casa, as velhas africanas, os moradores pobres, os homens do eito protagonizam o espectáculo. Em verdade, as personagens do "Ciclo da Cana-de-açúcar" encarnam as grandes categorias sociais do mundo rural do após-1888, desnudadas tendencialmente em suas naturezas históricas objetivas, por um narrador de recursos interessado em não fracassar na criação de universo ficcional. Devido a isso, o leitor entrevê com detalhes o paradoxal cativeiro de homens livres que se substituíra à ordem esclavagista. Seguindo a grande tese de Gilberto Freyre, José Lins descreve uma sociedade açucareira dominada pelas relações patriarcal entre amos e trabalhadores, moleques negros e meninos brancos. Como o sociólogo consagrado, apresenta mundo onde o próprio intercurso sexual estabelece intimidade que aproximaria senhores e servos. Entretanto, ao encenar ficcionalmente a tese da complementaridade assimétrica da sociedade açucareira, desvela na trivialidade dos actos quotidianos, um mundo alicerçado na violência e desprezo dos senhores para com os subalternos. Aqui também, para imitar a vida, a arte exigiu ao narrador dois passos além da vontade explícita do autor. Era de titãs O louvor de José Lins ao universo açucareiro dá-se através do elogio de Zé Paulino, avô do menino Carlos de Melo. Espécie de senhor feudal, o rústico engenheiro dirigia com punho de ferro o seu infindável império de terras e de homens. O romancista desdobra-se para demonstrar que o trato duro, a paga curta e a linguagem crua com que brindava os moradores mascaravam a sua verdadeira essência: o engenheiro viveria para o trabalho e seria verdadeiramente afeiçoado aos dependentes: "O velho José Paulino governava os seus engenhos com o coração" – revela o narrador. O menino Carlinhos vai ao Colégio – Doidinho – e, jovem advogado, volta para assistir a decadência física do avô, relatada em Bangüê. Enquanto a modernidade das fábricas devorava inexoravelmente os agora arcaicos engenhos, os anos carcomiam sem dó aquele homem que já fora um colosso. Em Bangüê, a morte do velho – personagem-síntese da classe dos engenheiros – é pranteada pelos trabalhadores do engenho Santa Rosa. O transpasso do velho e a ascensão do neto ao mando do engenho permitem que prossiga o emocionado elogio à classe senhorial em extinção, como o fez igualmente Gilberto Freyre, em Casa-grande & senzala.
Não eram os privilégios, o direito ao mando, a riqueza, o suor dos humildes que haviam construído o passado glorioso! Carlos de Melo tudo recebe em herança e tudo perde. Não que fosse pródigo, aventureiro, irresponsável. Até mesmo aplicado, era! Apenas não pertenceria à estirpe dos titãs que, com perseverança, trabalho e autoridade, suportavam o pesado bastão de mando do engenheiro! Em O moleque Ricardo, primeiro romance na terceira pessoa, retira-se o melhor rebento da bagaceira para alçá-lo à condição de proletário, cotejando-se assim o mundo material e espiritual do operário de engenho ao da fábrica. É a narrativa ficcional repetindo a tese da sociologia e das elites nordestinas segundo a qual a sorte do "alugado" do eito vencia por bem mais do que um focinho a de "assalariado" urbano. Porém, de certo modo, a volta do moleque Ricardo ao engenho, do qual fugira aos 16 anos, registra que o caminho abandonado já era o único possível a ser seguido. Em Santa Rosa, o trabalhador urbano fracassado tenta inutilmente ressuscitar um mundo que pertencia ao passado. O doutor Juca, o mais dinâmico, preparado e cúpido descendente de Zé Paulino, transformara o banguê em fábrica. Agora, as novas máquinas infernais, com seus ritmos insanos, devoravam insensíveis canas, homens, hábitos e valores. Era a cidade chegando ao campo! Devoram até mesmo o executor da metamorfose, o engenheiro Juca que se reciclara, apenas parcialmente, em usineiro. Era o fim de todo um mundo. A roupa suja O "ciclo da cana-de-açúcar" constitui um testamento literário de universos em agonia. Ao apresentar O moleque Ricardo, Cavalcanti Proença lembra que os dois temas mais recorrentes dos romances são a morte e o medo da morte. Sem poder voltar-se para o futuro, o narrador mergulha no impasse e no pessimismo. Para construir seu elogio ao senhor-de-engenho, a sensibilidade de José Lins levou-o a retirar do olvido o alter ergo do grande homenageado: o trabalhador sofrido, anónimo construtor do mundo sobre os quais os senhores do açúcar reinaram. Caso raro na literatura brasileira de sua e de nossa época, construiu um romance inteiro tendo como protagonista um trabalhador negro! Enquanto o sociólogo pernambucano olhava nostálgico da janela da casa-grande os negros e negras curvados pelo trabalho, o ficcionista paraibano devolvia-lhes o nome, a carne e a alma, ao ir ao encontro e misturar-se gostosamente com eles na cozinha, engenho e eito. Desabusando José Lins do Rego, o menino arteiro que abriu o ciclo magnífico continua ainda hoje levando os leitores pela mão aos mais profundos recônditos do banguê que Gilberto Freyre e seu avô Zé Paulino mantiveram com sucesso velados aos olhos curiosos dos estranhos. *
Mário
Maestri é professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF.
Publicou, entre outros: A segunda morte de Castro Alves: genealogia
de um revisionismo. Passo Fundo: UPF, 1999. E-mail: maestri@via-rs.net.com
Jun.01
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