Sobre livros e leituras
Éder Silveira *


Não ignoro a advertência de Bertold Brecht, que dizia ser triste o tempo
em que falar de flores significa calar sobre terríveis crimes. Deixo, porém, a cargo dos políticos e jornalistas sérios a denúncia. Não me sinto com forças para falar disto. Não agora, pelo menos. Quero falar sobre algo que me fascina mais. Quero falar sobre educação.

Deleitava-me lendo Rubem Alves, que é um alento para os que pensam ser a educação algo importante. O educador mineiro falava sobre os prazeres e perigos da leitura. Sim, há perigos relacionados com o acto de ler. Ocorreu-me voltar às páginas de Rubem Alves devido ao susto que apanhei outro dia. Entrando numa livraria da minha predileção, deparei-me com um título ameaçador: Leituras Obrigatórias. Tomei o livro nas mãos e, estupefacto, percorri com os meus olhos assustados as páginas. Trata-se de um manual que "explica" obras literárias de leitura obrigatória para o
vestibular da UFRGS.

É estranho como pode ser possível condensar tantos erros numa mesma obra. O primeiro crime que destacaria é o cometido pelos autores. De forma abusadora e oportunista, alguns críticos literários reúnem-se, dividem entre si as obras que devem comentar, escrevem as suas considerações e publicam. Bingo, temos um manual com penetração no mercado de massas.

Todavia, este fenómeno, na verdade antigo pois as apostilas de cursos
pré-vestibular há muito que o fazem, não nasce por acaso. Está umbilicalmente ligado ao título da obra, que revela uma prática comum: a obrigatoriedade da leitura. Teria, por exemplo, Raul Pompéia algum dia imaginado o paradoxo de "O Ateneu" tornar-se obrigação aos alunos? Poderia ele imaginar que a sua deliciosa crítica do sistema educacional seria objecto de tortura nas mãos de algum Aristarco?

Não faz muito tempo, fui aluno do ensino médio. Lembro-me bem das aulas de literatura, as quais amava odiar. Lembro-me, com um misto de vergonha e carinho, de brigas homéricas com a minha paciente professora, em disputas em que, do alto de minha ingenuidade, buscava afirmar que a literatura brasileira era uma porcaria, que bom mesmo era o poeta norte-americano da geração beat. Bons tempos. Bons, especialmente, porque passam. Hoje sei bem o valor de um Machado de Assis. De um conto de Guimarães Rosa. De um poema de Drumond.

Quando digo que "hoje" sei, quero afirmar que não basta ler. Para sentir o
sabor do prato que comemos, precisamos do tempo certo para a sua
degustação. De nada serve impor um prazo. Lerei este mês um romance em cada três dias para prestar vestibular. Voltando a Rubem Alves, afirmaria que aquilo se trata de um cardápio de dieticista, não de cozinheiro. Um bom chefe de cozinha sabe que o importante são os sabores a serem degustados. Ele come menos, com menos voracidade, mas com mais deleite. Mais prazer.

Estas dietas absurdas, impostas pelo regime de educação espúrio em que
vivemos, onde uma pessoa, o José, a Maria, não "os alunos", mas este
menino, esta menina que convive contigo dias e dias, é compelido a ler esta
obra, a apoiar-se naquele resumo, a estudar aquela escola literária para, terminado o ano, marcar um x numa prova objectiva. Formar-se-ão assim "ledores" de livros, não apreciadores da literatura. Continuaremos assim a falar em carga mínima e máxima de leitura, não de erudição, conquistada,
construída aos poucos. Continuaremos assim deparando-nos com provas de vestibular com redacções que apresentam frases como estas: "o maior
matrimónio do Pais é a educação", "os analfabetos nunca tiveram chances de voltar à escola","o bem star dos abtantes endependente de raça, religião, sexo e vegetarianos, está preocupan-do-nos" ou a minha favorita: "Também preoculpa o avanço regressivo da violência."

Tristes e cómicas. As provas de vestibular são assim, sempre assustam e
surpreendem. Lembro-me sempre de uma história. Num destes vestibulares, uma professora de ensino fundamental, que fazia o concurso para tentar outra profissão, chega ao fiscal de prova, que me confidenciou a história, e pergunta: Este Pablo Neruda, citado na prova de espanhol, ele dá aula na UPF, né?

Sobre tudo isso, tenho apenas um sorriso amarelo, um espanto e uma
angústia sem fim. Respostas, não tenho. Manifesto apenas a minha perplexidade ante aos absurdos que vou colecionando na minha memória. Mas uma coisa é certa, sei que estou no começo e que não devo parar de tentar fazer algo para, de alguma forma, mudar o que está ao meu alcance.

* Docente de História do Colégio Sinodal Barão do Rio Branco

Jun.01