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António
Gramsci
É sobretudo o refinamento de um marxismo de profunda raízes humanistas e ocidentais que cativa fortemente os nossos intelectuais. Paradoxalmente, a simpatia deve-se também à ampla operação – empreendia nos anos 70 – de arbitrária ruptura da visão de mundo de Gramsci da preocupação central de sua obra – a luta pelo poder. Mais coesa ainda é a unanimidade sobre a literatura de Paulo Coelho. Há quase total acordo entre os pensadores brasileiros que ela não presta, não deve ser lida, não merece ser estudada e discutida. Já se disse sobre a ficção coelhista, radicalizando esta concepção: "Não li e não gostei!" Devido a tal visão, no Brasil, avolumam-se investigações académicas sobre ficcionistas e ensaístas, nacionais e estrangeiros, tidos como eruditos, de público liliputiano, e rejeita-se com quase asco a discussão da ficção ou do ensaísmo triviais. O sucesso multitudinário de um Paulo Coelho ou mesmo de um Eduardo Bueno, quanto muito, merecem sumárias desqualificações. Passa despercebido a muitos admiradores de Gramsci que entre os quatro grandes temas que se dispôs a investigar na prisão encontrava-se precisamente o estudo da literatura folhetinesca, como assinalou em carta de 19 de março de 1927, ao anunciar a intenção de redigir ensaio sobre o "gosto popular na literatura". Ou seja, sobre os José Mauro de Vasconcellos e congéneres de sua época. Em 22 de abril de 1929, escreveu que, durante sua prisão em Milão, lera muitos romances de "terceira ordem", especialmente "populares", sobretudo na procura de algumas respostas: "Por que razão esta leitura é a mais lida e a mais publicada? Que necessidades satisfaz? A que aspirações responde? Que sentimentos e pontos de vistas estão representados nesses livrecos, para agradar tanto?" Definitivamente, a preocupação com a ficção trivial não era um inocente passatempo diletante de prisioneiro policiado nas suas leituras. Gramsci escrevera sobre esse tipo de literatura quando jovem e registou, mais tarde, as suas reflexões maduras sobre as categorias de "romance popular" no terceiro Cadernos do Cárcere, lamentavelmente não concluídas. Gramsci acreditava que, em qualquer país, existe uma nação "desconhecida, que não se vê, muito diversa da aparente e visível". Na Itália, o fenómeno seria mais profundo do que nas "chamadas nações" civilizadas. Devido à verdadeira tradição de "casta", o intelectual italiano banharia-se nas águas límpidas – e mais seguras – da superfície, sem mergulhar nas agitadas profundezas oceânica da cultura e da ideologia popular. Gramsci acreditava que a revolução italiana nasceria da aliança entre o operário nortista e o camponês meridional. Porém, lembrava que as massas rurais integravam, em forma subordinada, bloco histórico no qual intelectuais pequeno-burgueses sulistas de origem agrária traduziam e difundiam, entre os subalternizados, visões de vida das elites, elaboradas pelos intelectuais nacionais orgânicos do poder. Com o estudo da função dos intelectuais na história italiana até a Unificação, procurou entender a construção dos mecanismos ideológicos e culturais de dominação, através dos quais as concepções de vida das elites, vulgarizadas e trivializadas, eram incorporadas à consciência dos trabalhadores, mantendo-os no consenso, ou seja, na submissão pacífica. Gramsci propunha que, na Europa Ocidental, por atrás do Estado, trincheira avançada da ordem burguesa, se encontrasse uma verdadeira casamata da organização social em vigor, constituída pelo modo de viver, de pensar, de agir, etc. da imensa maioria da sociedade civil, directamente dependente da concepção de mundo das elites. Através da crítica dessa ideologia, procurava lançar as bases para a criação de interpretação proletária de mundo que superasse, dialética e antagonicamente, as representações elitistas. Inicialmente, a nova percepção do mundo restringiria o consenso popular ao Estado e, num segundo momento, sustentaria e consolidaria o assalto ao poder, apoiando e facilitando a constituição da ordem socialista. Até a morte, preocupou-se com a compreensão dos mecanismo ideológicos de dominação, estudando minuciosamente o que a população gostava, sem se irritar, de forma elitista, com o que deveria ler, mas não lia. Queria decifrar os mecanismos da narrativa trivial que envenenam a forma de sentir dos explorados, na procura do necessário antídoto. Se
fosse vivo e morasse no Brasil, certamente que na biblioteca de Gramsci
se encontrariam os livros de Paulo Coelho e Cia, e ele reservaria
um tempinho para assistir ao Ratinho, às novelas e ao Jornal Nacional,
na dura luta para decifrar as infinitas esfinges que devoram sem cessar
a alma da sofrida gente brasileira. |
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