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A confusão dos géneros
Carlos Leone
Quer para evitar a monotonia quer para abordar o assunto do Kosovo sob uma nova luz, valerá a pena perder algum tempo a pensar no fenómeno de confusão dos géneros que, nesta hora tão
milenarista, se dá a ver de múltiplas formas. Em rigor, qualquer pretexto serviria: a paradoxal noção de edição virtual de publicações como a NON!, a confusão linguística gratuita de nomes do tipo NON! ou
"sed" (significa "mas" em latim), o último artigo de Rui Bebiano sobre a confusão do estatuto, alegadamente "tradicional", de práticas como os touros de morte e as praxes académicas.
A confusão de géneros faz-se notar em actividades predominantemente intelectuais, como a escrita ou as belas artes mas, mesmo em campos fortemente marcados por aspectos tradicionais (pense-se na política, grande ou pequena), é já visível um fenómeno de esbatimento de fronteiras há muito conhecidas, mesmo que estas sempre tenham sido flutuantes. É, por assim dizer, um problema de reconhecimento. Ao contrário daquele tipo de discurso da crise (aliás, Crise) que vê sempre no que sucede hoje o prenúncio de uma catástrofe sem comparação histórica possível, não creio que a confusão dos géneros seja um fenómeno exclusivamente contemporâneo nem exclusivamente negativo. Se, hoje, é merecedor de uma atenção particular, isso deve-se apenas à circunstância de termos ao nosso dispor veículos de criação e de expressão em número e variedade formal cada vez maiores.
Uma forma já corrente de identificação deste processo é a questão dos limites entre opinião e informação no jornalismo. Esta é, de resto, uma questão complexa em si mesma, ao integrar aquele problema e um outro que lhe é afim, a saber, o da inclusão no jornalismo de elementos nem opinativos nem informativos, o que coloca em suspensão a própria convencionalidade da noção de jornalismo (penso no
'infotainment', ou na 'faction', que os telespectadores portugueses conhecem em especial por via da SIC, com A Cadeira do Poder e com Os Filhos da Nação ou, actualmente, com as Notícias do Milénio do
'DN'). No entanto, o processo conhece evoluções bastante mais discretas e, no entanto, mais importantes, com a encenação não só da aparição política (coisa Antiga) mas também da própria substância do discurso, adaptando este aos media que entende privilegiar - são as tiradas do dr.
Portas-agora-de-novo-da-DC, são os outdoors da "comunicação política" actual, cheios de gente sorridente, os exemplos não escasseiam.
Ora, estes casos indiciam que esta promiscuidade de géneros discursivos se radica na crescente integração de círculos sociais em tempos diferenciados, caso notório dos políticos com os jornalistas, até há pouco mais de uma década uma profissão, digamos, pouco respeitável. Esta evolução algo homogeneizadora dos vários círculos sociais não é em si mesma nociva, embora os seus efeitos muitas vezes o sejam. E a confusão dos agentes (e dos meios de acção social) uns com os outros, ainda que contribua para uma maior reflexividade social, força à reinvenção de quadros normativos. Por outras palavras, espero que um pouco menos rebuscadas: quando nos confrontamos já não apenas com as confusões de géneros previsíveis e conhecidas (como a dos géneros informativo e propagandístico em tempos de conflito armado) mas com uma deliberada e procurada miscigenação de formas discursivas, entramos numa fase avançada de recriação da ordem social, mesmo
civilizacional, até aqui vigente.
Neste ponto, será conveniente notar que a principal dificuldade em nos relacionarmos com a confusão dos géneros reside na persistência de hábitos (mentais, linguísticos,
comportamentais) já familiares, persistência, então, nos géneros estabelecidos e cada vez menos autónomos. É o caso de várias discussões viciadas, como aquela em que se reduz a educação (incluindo nesta a instrução pública) à sua vertente pedagógica; ou, também, o uso na prática equivalente de "justificação" (género moral) e "explicação" (género teórico) em questões relacionadas com a deliquência (para dar um só exemplo); será ainda o caso, para abreviar, daquelas questões de normatividade social tantas vezes apresentadas como estados de crise, seja esta moral, política ou outra. Não espanta, assim, que a confusão dos géneros não seja discutida por si própria. Tentá-lo seria um esforço para contornar, mesmo ultrapassar, a própria linguagem hoje empregue nos mais diversos debates. Um pouco como discutir a ideia de soberania em vez de escolher entre a protecção ou não da inviolabilidade desta.
Onde se trabalha a confusão dos géneros, hoje, é na criação (sem separar esta da autocrítica que sempre a acompanha), naquilo a que ainda podemos chamar arte. Não como subversão ou contracultura, como se se tratasse de um 'projecto alternativo radical' ou outra vacuidade qualquer desse género. Na verdade, descendo ao concreto no caso do cinema, é tratada de forma quase (eu escrevi quase) ingénua, atenta mas plena de generosidade. Vejam-se filmes como "Abril" (N.
Moretti), "Celebridades" (W. Allen), "A Vida é Bela" (R. Benigni) ou "Rushmore" (falha-me a tradução do título e o nome do realizador): sem qualquer desinteresse ou desprezo pelas marcas formais dos vários géneros que todos atravessam, desde o drama à comédia, desde o "cinema de autor" à reconstituição histórica, trata-se de filmes inclassificáveis, não por requererem categorias próprias mas por não poderem ser plenamente julgados, plenamente vividos, por intermédio de uma categorização única, assente no recurso a um único género.
O problema da confusão dos géneros, in nuce, será este: como encontrar e estabelecer (são duas coisas) critérios operativos para a aferição do valor de experiências novas (ou de novas formas de experiências de sempre) ?
Mai.99 |