editorial | pesquisa | ligações
entrada | opinião | leituras | artes | plural | abc | arquivo


Um imenso solilóquio

ou onde se fala de Chandler e de não Chandler
Luís Nogueira


um

Emerge do negrume o escudete da W(arner) B(rothers) e logo volta a mergulhar na sombra para dar lugar a duas silhuetas recortadas num contra-luz esbranquiçado, leitoso, projectado de baixo para cima: um homem e uma mulher. Do canto inferior direito solta-se uma chamazinha. A mulher tem um cigarro apagado entre os dedos. O braço direito do homem roda na direcção dela. Acende-lhe o cigarro. Menos de uma fumaça depois começa a desdobrar-se o genérico. Sobre a silhueta do lado esquerdo (o homem), um nome: Humphrey Bogart. Sobre a silhueta do lado direito (a mulher), um nome: Lauren Bacall. Mais fumo. As letras tremulam igualmente, também elas parecem fumo a dissolver-se no outro fumo branco que ambos soltam. Fumava-se muito nos anos quarenta, diz o engenheiro aqui ao lado, não havia ainda brigadas anti-cigarro nem leis que.

O título original do filme e por baixo, em letra mais miúda a tradução para português, um título pelo qual a fita nunca será conhecida. Talvez a legendagem desta cópia seja brasileira, sugere o engenheiro. Insciente destes afloramentos académicos, o genérico prossegue sobreimpresso nas silhuetas. Agora aparece o nome do produtor, vemos o homem e a mulher poisarem ao mesmo tempo na borda do cinzeiro os cigarros apenas encetados, deixando que se fumem a si mesmos e em primeiro plano. Sobre o fundo negro em que as tais silhuetas se esfumam.

Começam então a desenrolar-se os nomes dos secundários Martha Vickers, Dorothy Malone, outros nomes... Persistentes, procurando prolongar a vida até ao ponto final do genérico, os dois cigarros trabalham na sua auto cremação. Os nome dos 3 argumentistas vêm encabeçados por Faulkner (esse!) e mais ao fundo do ecrã, bem chegado para a direita, pode ler-se: "From the Novel by Raymond Chandler".

Mais rápido agora, corre ainda o que resta dos créditos. A finalizar e em letra maior os 2 últimos: o autor da música, um tal Max Steiner, talvez judeu fugido ao nazismo e, claro, Hawks, o realizador. Acabaram-se os nomes, suspira o engenheiro.

Não acabaram. Fade-out-fade-in após o genérico, o diafragma expande-se sobre a primeira imagem daquilo que o engenhiro e o outro pensam ser o filme propriamente dito. É uma porta maciça, um batente grande, pesadíssimo de aspecto. Por baixo uma placa metálica de desenho vitoriano com um só nome gravado, "Sternood", como se a casa fosse a residência de um monarca.

O nome, "Sternwood" fere o engenheiro. É como que um espinho que ele arranca lentamente da memória enquanto murmura "Rosebud... Rosebud..." e qualquer coisa que soa como "Kane". Depois cala-se. O engenheiro e o outro esperam que uma mão levante o pesado batente que o deixe cair com viril desenvoltura e mecânica indiferença, metal sobre metal, Anapurna de sons insuportáveis que talvez dissipe o paraíso artificial em que vogam, a rêverie de celulóide, "o grande sono".

A memória de cinéfilo nunca é tão exacta como querem as enciclopédias. Portanto é o indicador de uma mão fina, delicada, quase feminina, que prime o botão da campaínha ao lado da placa. Campo-contra-campo, os espectadores passam para dentro da casa, tectos altos de madeira, o mordomo vem abrir e como a porta fica entreaberta, pode ouvir-se a voz, a voz do mesmo Bogart que aparece em silhueta e nome no início do genérico, mas que agora se apresenta sob nome falso. Diz ele: "Name is Marlowe. General Sternwood wanted to see me".

Depois...

dois

O naco de prosa supra a que o leitor mais resistente terá conseguido sobreviver, rapsódia chungosa de nouveau roman, cultura de almanaque e manual de realização cinematográfica para amadores, foi suscitado pela visão de um filme, "The Big Sleep", como terá detectado o cinedependente de grau um. Howard Hawks EUA, colheita de 1946.

Quanto ao que levou ao filme e já agora a um necessário desempoeirar de estantes, foi a leitura recente de um livro, "Raymond Chandler a Biography" de Tom Hiney,(1) um jovem (n.1970) sul africano que apesar dos seus 27 aninhos (quando da publicação do incunábulo) não é estreante no labirinto chandleriano. Já tinha assessorado, e muito bem, aquele que tem sido o biógrafo "attittré" do pai de Philip Marlowe, Franc McShane, na excelente edição revista das "Selected Letters of Raymond Chandler"(2). O rapaz promete.

E cumpre. Esta biografia, tanto quanto sei a última em tempo, vem aumentar "con brio" a muito extensa e nem sempre adequada bibliografia passiva de Raymond Chandler (RC). É um livro escrito com lisura profissional, escorreito de estilo, sólido de estrutura, competente na integração dos materiais utilizados para apoiar o discurso interpretativo da obra, da vida e da personalidade do Escritor.

Traz muitas coisas novas? Aqui, a cada um conforme as suas necessidades.

Pensava-se que já nada poderia vir à superfície no que toca a materiais de bibliografia activa. Daí que Hiney surpreenda positivamente pela atenção com que segue o aparecimento de possíveis fontes autorais, matérias que façam mais e melhor luz sobre os processos de trabalho do solitário de La Jolla, a sua personalidade, os seus comportamentos. E refere p. ex. o aparecimento e leilão realizado em S. Diego em 1995, de uma colecção de memorandos emitidos pelo próprio Chandler e destinadas à sua secretária em La Jolla, Juanita Messick. Trata-se de um acervo que segundo Hiney que a ele teve acesso e que cita pontualmente, revela "o humor, dogmatismo, preguiça e depressão" que coexistiam com uma profunda humanidade e uma rigorosa exigência ética no grande escritor e frequentemente infeliz pessoa que foi RC.

O biógrafo ilumina muito bem a humildade o exigente profissionalismo do biografado. Um dos aspectos interessantes deste livro no que refere a evolução de Chandler como escritor, são algumas revelações feitas por Hiney com base em cartas e de entrevistas que realizou com contemporâneos. Assim que decidiu tornar-se escritor profissional, Chandler frequentou um curso de escrita de "short story"..., treinou-se a escrever pastiches de histórias publicadas pelos "pulp magazines" e a reescrever outras. Também, mesmo antes de se pôr à escrita, optimista e livre do alcolismo - que voltará mais tarde para lhe devorar os últimos anos da vida - inscreveu-se como "Escritor" na lista telefónica de Los Angeles.

No global, este livro de boa leitura, reivindica uma muito competente exploração da extensíssima bibliografia disponível, um atento forragear das "Bodelian Chandler Files", de algumas colecções particulares, memórias, e da fantástica quantidade de cartas, quase todas já publicadas escritas por e para RC que, - com outras manias que se lhe conheciam - era o que se pode chamar um "um epistológrafo compulsivo".

No que refere a personalidade de Chandler e o reflexo desta no seu trablho criador, Hiney retorna, com irregular fortuna, a temas que são e creio que não deixarão de ser, controversos e caros tanto a chandleristas (nós), como a anti-chandleristas (eles).

Muitos desses temas extravasam a extensão do livro (310 pgs.) e merecem por si só estudo diferenciado. É que, ao contrário do que quer muita crítica literária de fatinho de três peças e casaco assertoado, a obra de Chandler, como outras belas orquídeas surtas do pântano obscuro da "pulp" (Hammett, Ross Macdonald...) não parou de crescer. No cinema filmes como "Chinatown", "Blade Runner", "Pulp Fiction", "À bout de souffle", seriam inexequíveis sem a sua raiz chandleriana... E por onde andaria agora Pepe Carvalho, o ambíguo cavaleiro andante de Barcelona maquinado pelo Manolo Montalbán se não fosse o antepassado Marlowe? É assim. Grande nau, grande controvérsia.

O maior senão do livro de Hiney parece-me o de pegar em questões bastante controversas e decidi-las em duas penadas. Vão alguns exemplos.

A velha história da influência de Hammett na obra de Chandler confirmada por este(3) mas que Hiney menoriza e com a agravante de deixar Hammett numa espécie de limbo cujo mérito maior teria sido o de servir de degrau para o paraíso chandleriano. Este tipo de disputas de méritocracias literárias, estas comparações de incomparáveis, estes levantamentos de pesos e halteres de prestígios, estão bem para os caudatários do sr. Lobo Antunes, os anti-Saramago profissionais cá da feira literária. São becos sem saída que se explicam - mas não se resolvem - por via de afinidades electivas de todos os tipos. No caso de Hiney e neste preciso ponto conviria ter estudado um pouco melhor a lição, aflorar ao menos de passagem que Hammett é - literariamente falando - tal como Faulkner, como o dito RC, e como muitos outros, uma descoberta europeia: Gide e mais tarde Sartre.... E também que há muito quem considere que a sua (de Hammett) obra está para o "Nouveau Roman" como a pintura de Turner para o Impressionismo. Para mais a obra de Hammett sobrevive ao "chispazo" do "gadget" literário (mais um) francês. Não se lembram do Miller's Crossing dos irmãos Cohen? O que é esse excelente filme, talvez o melhor Hammett-não-Hammett do ecrã, senão "The Glass Key" chapadinho?

Hiney vai-se também ao tema da grandeza ou menoridade de RC como escritor. Há dúvidas? Aqui o biógrafo lida particularmente bem, embora não em extensão, com o problema. A correcta conclusão: o escritor escusa cada vez mais o nihil obstat da confraria dos críticos "highbrow". Como Himes, Highsmith, o recorrente Hammett e mais um ou dois, RC foi um assombroso criador de personagens, de atmosferas e de situações. Mas inventou igualmente uma linguagem sua, uma estilo que sendo genuinamente americano, perdoem-me os ortodoxos, talvez só tenha sido possível graças ao caldinho da sua educação inglesa. Manuel Vázquez Montalbán com venenosa argúcia, chama-lhe "O Homem que queria ser Yeats", aludindo, sibilino, á qualidade poética da sua prosa. Eu, Dupond e Dupont, digo mais: é ele que com inimitável estilo e infatigável olhar confere a uma cidade insuportável, a uma não-cidade (Los Angeles e arredores) um estatuto mítico só comparável ao da evanescente Dublin da obra de Joyce, seu inventor literário. Falei de linguagem, de olhar. Quem me explica porque é que o longo solilóquio - sete romances de comprimento - de Philip Marlowe me faz lembrar insistentemente o refrão do Love Song of J. Alfred Prufrock?

              In the room the women came and go
              talking of Michaelangelo... (4)

É a opressiva solidão, o negro lirismo de T.S.Eliot americano como RC, acoitado numa Inglaterra que lhe ouve a poesia chover, ao contrário de RC. O estranho Eliot que tanto admirava Chandler e que Chandler parecia não tomar a sério... É verdade: "Saí e o Amos lá estava com o Cadillac à espera. Tornou a levar-me para Hollywood e eu dei-lhe um dólar que ele não aceitou. Ofereci-me para lhe comprar os poemas do T.S. Eliot. E ele respondeu-me que já tinha". (5) Porquê, deus dos escribas, tão longe um do outro e tão perto da mesma "waste land"?

Hiney volta a referir o que tem sido tema de alguns estudiosos - sobretudo Norte Americanos - de RC: a sua obra padece de secundarização na construção das intrigas. Vale perguntar com alguma ironia se não será isso um mérito, se não fará dele um escritor ainda mais do nosso tempo, mais ulissiano no sentido da itinerância (ou errância) dubliniana de Bloom/Joyce/Dedalus: nós somos a cidade que percorremos, nós edificamos a cidade à medida que a vamos percorrendo, a cidade só existe enquanto vagueamos. Outra vez Joyce? Porque não António Machado? Noutra altura.

Outra das velhas questões do arquipélago chandleriano é saber se o sr. Philip Marlowe, personagem dos tais sete romances, é ou não reaccionário, se é de esquerda ou de direita. Hiney lida (quanto a mim) de modo brilhante com a questão e ilustra, com fundamentada equanimidade, que se em política Chandler estava um tanto a leste e admirava imenso o W. Churchill da propaganda oficial, o seu Marlowe políticamente descomprometido não é nenhum fascista - longe disso - nem o racista que apressadamente se pretende fabricar a partir das páginas iniciais de "Farewell My Lovely", em que de resto o detective não passa de mero observador. Mas também não é, claro, o "marxista" que certos catecúmenos muito esquerda-caviar e só lidos em Marx de "vademecum" ou certos antimarxistas que também nunca leram nem praticaram o tio Carlos querem induzir. Estes tipos que estragam a literatura de tanto treslerem lembram-me o carpinteiro tosco que quer á força meter uma cavilha redonda num buraco quadrado ou vice-versa. Marlowe vê a cidade. Avalia-a constantemente à luz de uma ética, isso sim!, não formulada, mas de base incontestavelmente humanista e fraterna, tintada aqui e ali de algum quixotismo que logo sacode quando está em risco de ser devorado por tubarões sem quaisquer princípios éticos. Isto não é muito? É muito. É quanto basta para se ser progressista. Vejo-me obrigado a transcrever migalhas de um pequeno texto de M. V. Montalbán, publicado há um bom par de anos: "O romance policial implica uma tomada de posição e uma reflexão sobre o mal social no mundo contemporâneo, mas também nada de exageros, amigo, se quiser documento sobre o mal social, leia outra coisa. A novela policial e o cinema que lhe deu carne, limitam-se a oferecer uma paisagem moral sobre a qual se deslocam personagens que se riem involuntariamente porque sabem o que são..."(6) De acordo. Já agora: até que ponto o Pepe Carvalho do mesmo Montalbán não é um prolongamento ostensivo de Marlowe, uma superior ironia criada em parte para responder a esta e a outras questões idiotas.

Corre, as minhas fontes são pobres, que - ao contrário de Hammett, por exemplo - Chandler se acobardou ou fingiu que não via os estragos do senador fascista Joe Mac Carthy e do seu apoderado Richard Nixon. Não sei. Mas é curiosa esta passagem de "The Long Goodbye", publicado precisamente em 1954:

Não há nenhuma maneira limpa de realizar cem milhões de dólares. (...) Montes de dinheiro, significa montes de poder e demasiado poder acaba por ser mal usado. É o sistema. Talvez seja o melhor de que somos capazes, mas não é santo cá da minha devoção.

Você fala como um Vermelho, disse eu, só para o picar.

Isso é que já não sei, disse ele. Ainda não fui investigado. (7)

Parece-vos ambígua a fala de um polícia honesto (Bernie Ohls) que critica asperamente o dia a dia em que é obrigado a lutar contra a corrupção dos políticos, dos grandes senhores do dinheiro e assim por diante?

Já agora... Na tradução - linda de verdade - do Mário Henrique Leiria, a frase "É o sistema" (inglês: "It's the system.")(7) é dada como "É assim que as coisas funcionam" (5). Quanto à última frase, "Ainda não fui investigado" (inglês: I ain't been investigated yet.) (7) e que bem esclarecida quer dizer "Ainda não fui convocado pela Comissão de Actividades Anti-Americanas", desaparece pura e simplesmente da edição portuguesa. Censura? censura do Editor? Auto censura?


três

Só para dizer que não posso dizer mais nada, que o espaço que o meu editor e amo me dá só me permite:

a) Dizer que não acredito na auto-censura do grande Mário (HL)

b) Dizer que este trabalho meio coxo vai dedicado à alminha sequiosa do "meu" Mário Henrique Leiria com a frase, tal como ele a traduziu, de Terry Lennox/Señor Maioranos no "Imenso Adeus": - Vamos então ao gimlet?(5)

c) Que estou disponível para fornecer bibliografia/filmografia suplementar ou falar com quem estiver interessado, sobre este ou outros textos meus, aqui em NON! ou pelo

____________________________

(1) HINEY, Tom - "Raymond Chandler a Biography", Chatto & Windus, London 1997 (1ª)
(2) McSHANE, Frank cc HINEY, Tom - "The Selected Letters of Raymond Chandler a New Revised Edition", Hamish Hamilton, London sd (199?) (1ª)
(3) CHANDLER Raymond in "The simple art of murder",Vintage Books, London 1988 (ed?)
(4) ELIOT, T.S. "The Love Song of J. Alfred Prufrock" in "Selected Poems", Faber and Faber, London 1975 (17ª)
(5) CHANDLER Raymond "O Imenso Adeus", Livros do Brasil sd (195?) (1ª) Trad: Mário HENRIQUE LEIRIA
(6) VÁZQUEZ MONTALBÁN, Manuel "Indispensable La Rodaja de Limón" s/t "Gimlet" Editorial do nº 1 da Revista GIMLET, Barcelona, Março de 1991
(7) CHANDLER Raymond "The long good-bye", Pan Books, London 1979 (ed?-1ª 1953). Citações em inglês e tradução nossa.
 a biografia
um só clique
para chegar ao livro












Humphrey e Lauren
Marlowe em acção












Second Street Tunnel
Second Street Tunnel
(The Big Sleep)



Union Station
Union Station
(Playback)













Raymond
(1888-1959)

1. The Raymond Chandler Website
2. Raymond Chandler's Los Angeles
3. Raymond Chandler I
4. Raymond Chandler II
5. Shamus - A Tribute To Philip Marlowe

 
entrada
| opinião | memória | leituras | artes | plural | arquivo