de Carlos Leone


 
MAIO, MADURO MAIO

São os últimos livros deste ano editorial. Daqui em diante, só coisas para ler na praia. Tipo Graham Greene.


José Fernando Tavares, A Paisagem Interior (vol. I), Ed. Piaget, 2001

Merecedor de destaque num dos nossos suplementos culturais, este primeiro volume de recolha de textos de crítica literária dispersos por várias publicações tem por subtítulo "crítica e estética literária". É duvidoso que seja crítica, tal o ecletismo, mas é certo que a estética está completamente ausente.

O que é tanto mais estranho num alegado seguidor de João Gaspar Simões, ainda que se trate de um capaz de apreciar, igualmente, Eduardo Prado Coelho. Ora, a incapacidade de pensar a crítica, esteticamente ou não, optando-se por adjectivar tudo até à exaustão, e quanto mais rebuscado melhor, tem o seu preço. Uma triste descoberta.


Manuel Frias Martins, As Trevas Inocentes, Aríon, 2001

Aqui a crítica literária é consequente. Manuel Frias Martins é hoje, a par de Miguel Real, o nome mais merecedor de atenção dos nossos meios literários, pelo menos desde a publicação de Matéria Negra - Uma Teoria da Literatura e da Crítica Literária (Cosmos, 1995).

Neste novo livro, recolha de textos jornalísticos sobre Literatura portuguesa contemporânea (publicados sobretudo no JL), encontramos muita matéria de reflexão e, mesmo quando se diverge das opções e procedimentos do autor, a relação é sempre crítica, sem concessões a fulanizações nem a vulgarizações. Numa linguagem por vezes demasiado típica de professores de Literatura, é verdade, mais um livro a procurar da colecção Parque dos Poetas, direi mesmo o melhor que esta colecção já publicou.


Rui Bebiano, A Pena de Marte, MinervaCoimbra, 2001

Texto originário de uma dissertação de Doutoramento em História das Ideias, este livro imponente dedica-se ao estudo da literatura sobre a guerra nos séculos XVI-XVIII na Europa e, prima facie, em Portugal. Ainda antes de ser publicado valeu ao seu autor o Prémio de Defesa Nacional, o que vale mais que qualquer prémio literário.

Na verdade, o que este livro indicia é uma viragem na historiografia militar portuguesa, já não votada exclusivamente aos militares mas aberta a investigadores profissionais. Se, na maior parte dos casos, a abertura se faz pela via de áreas algo indefinidas em termos científicos (Relações Internacionais, Ciência Política), ela também é feita por historiadores como Rui Bebiano, cuja reflexão, percorrendo hoje caminhos diversos, um dia pode voltar com inteiro a propósito a esta obra e recuperar nela questões ainda por desenvolver, mesmo no âmbito da História das Ideias nacionais: como, por exemplo, o que vem a ser a História das Ideias? A palavra ao autor, caso ele esteja para isso…


Max Weber, A Política como Profissão, Edições Universitárias Lusófonas, 2000

É agora traduzida uma célebre conferência de Max Weber, imediatamente posterior ao final da I Guerra Mundial, pouco antes do falecimento do seu autor. Esta conferência, como a sua "gémea" (A Ciência como Profissão), é muitas vezes vista como testamento intelectual de Max Weber e, até por isso, é uma óptima introdução ao seu pensamento.

A tradução (de Paulo Osório de Castro, que já traduziu Nietzsche) preserva o estilo coloquial do original e contribui para a clareza da exposição de Weber, que aqui percorre alguns dos temas centrais do seu pensamento político: definição de Estado, usos e monopólio da violência física, claro, mas sobretudo a questão da diferença entre éticas, a da responsabilidade e a da convicção. De notar a matização final entre as duas nas palavras de Weber, muitas vezes esquecidas pelos weberianos profundos.


Gordon Graham, Filosofia das Artes, Edições 70, 2001

Um livro que pretende ser uma introdução à estética e que, de certo modo, consegue sê-lo. A questão, contudo permanece: para que serve esta estética? E, um pouco mais longe: vale a pena traduzir um livro como este em vez de o encomendar a alguém que o escreva?

O livro começa com algumas considerações gerais, seguindo para uma análise de diversas artes (música, filme e pintura, arquitectura, escultura, poesia) e termina com uma tentativa, algo infrutífera, de síntese. Tudo muito convencional, sempre com resposta para tudo, mas com um sabor a dejá vu que não engana. Uma introdução, digamos, à história da estética. Tradução aceitável, revisão infeliz.