Tambores chineses nas noites de Macau
O
homem olhava com consternação as multidões de chineses que chegavam
do Norte, desde Cantão. O calendário que lhe servia de orientação marcava
o ano de 1912, mas o homem não sabia dizer qual o mês ou o dia. Que
ecos revolucionários e estirpes de guerreiros faziam tremer as colunas
que suportavam os céus? Ninguém o sabia. Da China chegavam muitos refugiados.
Da Índia inglesa o abençoado ópio cru em bolas, arrematado em praça
pública (Macau fixava, então, os limites do mundo e da percepção). O
homem resgatou algum ópio, preparado para consumo. Que outra empresa
tinha ganho a concessão por três anos? O homem esqueceu o nome do seu
concorrente. Que importa três anos? O homem meditava na eternidade,
e em ganhar algum dinheiro ou em tentar a sorte, pela última vez. O
homem sabia que o jogo tinha sido proibido em Cantão, desde há um ano.
Os chineses invadiam a colónia. A casa de fan-tan estava inundada desses
rostos amarelos a comer pecides e a atirar as cascas para o chão. Do
primeiro andar penduravam-se outros olhos ansiosos, e o homem fez descer
todo o dinheiro que lhe restava por uma cesta de vime como era hábito
os jogadores fazerem do primeiro andar, pois não queriam misturar-se
com a turba chinesa do rés-do-chão. Invariavelmente
perdeu, como era corrente desde há alguns meses. Jogou em três números
contra o quarto restante, mas os demónios da sorte tinham-no abandonado.
Apenas lhe restava o ópio comprado minutos antes ou incendiar a loja
para receber a indemnização, mas também estava saturado desse jogo que
se repetia anualmente com os capitães das companhias de seguros. A
noite caíu depressa e com mágoa sobre os canteiros de violetas nos jardins.
Era também o tempo da peste e da tuberculose. Mas o homem não pretendia
justificar-se perante a morte. Contudo, a atmosfera permanecia húmida
demais. Talvez fosse um prenúncio de Verão. Talvez Março ou Abril. Por
entre os guardas nocturnos que marcavam as três horas o homem mergulhou
nas águas, do lado do Porto Interior por onde se tinha perdido. Nem
se despediu da deusa que observava o seu último desespero. Tambores
isolados insistiam em marcar, na noite de Macau, três horas exactas.
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