 | O episódio do transporte público
José
Sebastião dirigia-se como habitualmente, com a sua frescura matinalmente
cuidada, para apanhar o autocarro número 90 aguardando as disputas e
rancores do costume entre as pessoas enfileiradas. A sua encenação diária
atribuía-lhe o mérito da indiferença, única forma que José encontrara
para sobreviver sem falar com estranhos ou emitir opiniões que podiam
ser mal interpretadas. José era politicamente correcto, dirigia-se mudo
para o autocarro 90 e saía mudo, com o mesmo ar impenetrável, fizesse
sol ou uma copiosa chuva caísse sobre o seu penteado José tinha por
hábito conservar o seu meio-sorriso idiota, que queria dizer tudo e
dizia nada. José
Sebastião encontrava-se já na fila, sossegadamente à espera do autocarro,
contando as parcas pessoas que se tinham adiantado ao seu passo ligeiro.
Atrás de si dezenas de pessoas aguardavam já, evidenciando sinais de
impaciência. Parecia ser uma manhã igual a tantas outras, quando José
reparou que a seu lado estacou um vulto gordo de mulher, incompreensivelmente
subvertendo as normas daquelas fileiras humanas que aconselham a formação
em linha — havendo um princípio e um fim e, de qualquer maneira, idealmente,
apenas uma linha recta que começa numa ponta e não indiscriminadamente
em qualquer sítio. A
mulher parecia falar sozinha, resmungando qualquer coisa entre dentes,
e quando o autocarro 90 estacionou, mal as portas se abriram como represas,
a mulher gorda avançou ligeiramente o passo, como se fizesse uma competição
com o José, ultrapassou-o com facilidade (pois quem não cumpre regras
ganha sempre). Inesperadamente,
a mulher gorda galgou para o autocarro, em primeiro lugar, e agarrou-se
à bolsa de trocos do condutor. Sem mostrar a intenção de fugir, disse
com uma calma surpreendente: ‘fiz uma aposta com aquele senhor’ — apontando
indiscutivelmente para José — ‘em como vinha aqui buscar a mala e ía
dar uma volta àquela árvore e voltava!’. O condutor demorou alguns momentos
a reagir, a tentar compreender a situação inédita e a considerá-la digna
de um furto, mas estranhava a serenidade daquela mulher, a sua convicção
em explicar-se e, principalmente, porque não mostrava intenções de fugir. Os
momentos de hesitação do condutor não foram muito prolongados, refeito
de certezas o condutor convenceu-se de que a mulher era uma ladra e,
num movimento brusco, atirou-a para fora do autocarro depois de lhe
ter arrancado a bolsa das mãos. A mulher caiu de costas para o passeio,
desamparada e inerte como se tivessem atirado um fardo indesejado. José
olhou para ela pela primeira vez, com curiosidade genuína. Com os seus
olhos verdes e doces, a mulher sorriu e disse que estava bem ao mesmo
tempo que se levantava, aparentemente sem esforço e até com alguma agilidade.
José aproximou-se do seu rosto e disse-lhe como em prece: ‘desfaço a
aposta, pois já vi que é capaz’. A
mulher quase o abraçou, os seus braços ainda hesitaram no ar como acenos
de boas-vindas, mas a esquizofrenia (esse mal-estar interior como um
poço na alma) foi mais poderosa e retorquiu ‘ainda bem que ganhei!’
antes de desaparecer tão misteriosamente como chegara. As pessoas acotevelavam-se
atrás de José, ninguém se atrevera a entrar no autocarro ou a romper
a ordem da fila humana. O caso espantou a todos o que o presenciaram
e o condutor apenas referiu ‘tive que a empurrar, pois queria roubar-me
a mala!’. Os passageiros entraram para o 90, um por um e ordeiramente. Ninguém
conseguiu fazer outro qualquer comentário sobre o ocorrido. A loucura
não se explica, vive-se e pronto. Esqueci-me de citar, nesta curta crónica,
o sol envergonhado que espreitava do outro lado do rio, na outra margem,
como se também ele se tivesse recusado a iluminar por completo a nudez
dos actos e a insuficiência das explicações comuns.
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