 | História desencantada
Desgrenhada
e suja, uma criança acabara de sair do túnel do tempo, regressada do
outro lado do mundo, do outro lado das montanhas que me inibem a visão
dos trigais. O outro lado de lá é um mundo diferente, já o pressentia,
as eiras cobrem-se de cânticos solares, os camponeses são felizes na
comunhão com a terra, e até as abelhas cantam, cantam as flores nas
margens dos rios. Do outro lado as crianças brincam, ainda, sem medo
de se sujarem, brincam ao pião e ostentam coloridos papagaios de papel. Há
muito que tenho vigiado a aparição destes papagaios, por sobre as montanhas.
Por isso sei que o outro lado é diferente, o lado feliz do mundo, a
metade inversa deste mundo que habito. Os papagaios que se erguem nos
céus, do outro lado da montanha, são a plataforma dos meus sonhos e
tudo o mais eu inventei. Inventei que as crianças brincam, ainda, ao
pião sem medo de se sujarem, inventei famílias inteiras de camponeses
felizes, o trigo, e moinhos de vento com braços luminosos como bandeiras
de paz. Inventei também os rios, as flores e as abelhas que cantam.
Mas, agora, uma criança desgrenhada e suja vem do outro lado da montanha,
por um túnel do tempo, uma escura cratera que, suspeitosamente, é a
minha sombra. ‘Quem
és tu?’, perguntei entre a aflição e a surpresa. ‘Sou a tua consciência,
a parte esquecida de ti, todos os sonhos que sonhaste enquanto não te
fizeste um homem’. Como pode um homem responder à sua consciência, fugir
da sua sombra ou esquecer os sonhos que sonhou? ‘Eu tinha que crescer,
deixar de jogar ao pião e de correr ao vento segurando coloridos papagaios
de papel!’, justifiquei-me, mas a criança permaneceu muda e olhou para
mim com espanto e horror. ‘É ridículo um homem correr atrás de papagaios
de papel!’, procurei de novo justificar-me. ‘É ridículo para um papagaio
de papel ser segurado por um homem que não sabe ser criança’, sussurou
a minha consciência, transformada numa eloquência cega, numa sombra
que ganhava vida e contornos de um corpo infantil e magro. Senti-me
verdadeiramente insultado com a história dos papagaios. Sem olhar para
trás corri para debaixo de uma árvore, pois apenas uma sombra maior
pode suprimir outra sombra. Então crescer é isto, pensei livre de perigo.
Aprender a terrível consequência do ser adulto: não conseguir suportar
a própria consciência!
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